Tancredo Neves teria dito que a “raiva” é a inimiga número um dos verdadeiros políticos

Satisfeita com a raiva, a pessoa não cria alternativas para si. Cria um alvo e nele gruda suas frustrações. Na política, aquele que não lhe serviu hoje, amanhã poderá atendê-lo

Um jornalista que trabalhou, durante anos, numa revista de circulação nacional e escreveu no Jornal Opção, esteve, certa feita, na redação do jornal, em Goiânia, e contou uma história curiosa sobre Tancredo Neves.

O político mineiro, hábil e conciliador, certo dia recebeu um deputado, que, irritado, protestava contra um secretário. “Ele falou mal de mim e não me atende. O sr. tem de tomar providências.” Tancredo Neves ouviu pacientemente o protesto do parlamentar, depois riu sem estardalhaço e lhe disse:

“Nós, se quisermos ser verdadeiros políticos, não devemos ter raiva. Porque raiva não leva a lugar algum, exceto à paralisia. Porque, satisfeita com a raiva, a pessoa não cria alternativas para si. Cria um alvo e nele gruda suas frustrações — deixando de perceber a realidade. Na política, aquele que não lhe serviu hoje, amanhã poderá atendê-lo. O ciclo é este.”

O deputado escutou e, estupefato, disse: “Não estou entendendo, Dr. Tancredo. O sr. não vai tomar nenhuma providência?”

Tranquilo, como se estivesse conversando com uma criança, Tancredo disse:

“Não vou fazer nada. Amanhã, você vai procurar o secretário e converse francamente com ele. E lembre-se: quem tem direito de ter raiva é empregada doméstica”.

“O que o sr. quer dizer com isto, dr. Tancredo?”

Coçando seus ralíssimos cabelos, Tancredo explicou-se:

“Não vai aí nenhum preconceito contra as empregadas domésticas. O que estou sugerindo é que, devido à vida que levam, deixando suas casas e famílias para cuidar das casas e das famílias dos outros, elas até têm o direito de terem raiva. Nós políticos, com um nível de vida adequado, temos a obrigação de conviver bem com todo mundo. A raiva não ajuda a melhorar o mundo, é medíocre. Creia-me: todo medíocre é raivoso e vive arranjando motivos para ter raiva de alguém. Insisto: a raiva é inimiga número um do verdadeiro político.”

A história pode ser lendária, mas o jornalista diz tê-la ouvido dentro do palácio do governo de Minas, em 1983, de um auxiliar de Tancredo Neves.

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