Iúri Rincon

Silvio Costa era um primo querido. Totalmente comunista e ateu, nos dávamos bem por culpa dele. Já tive meus dias de esquerda radical e Silvio, experiente na prática e na ideologia esquerdista, tolerava meus arroubos juvenis e ingênuos de salvar o mundo pela revolução armada. Depois fui me centralizando, me endireitando e Silvio redobrava a paciência pra não me mandar pra pqp.

Para provocá-lo, o cumprimentava assim: “Ô, bolsonarista”. Ele esboçava um sorriso.

Casado com a prima Lúcia Rincon, moramos quase 20 anos na mesma rua do Setor Jaó. Eu passava e o via aguando as plantas, cuidando do jardim e o chamava com o nome do presidente da época: “Ô, Cardosista”. “Ô, Itamarista”. “Saudações Temeristas”. Um horror.

Antes disso Silvio morou na Espanha e no início do ano lá ia eu aproveitar do seu vinho nacional. Infalivelmente horas antes de pegar o avião de volta tomava um porre com Silvio e Lúcia, seus meninos pequenos zanzando pelo apartamento e tia Helena, mãe da Lúcia e irmã de meu avô, gentilíssima, nos servindo chorizos e a culinária espanhola da família.

Sílvio me dava livros, era especialista na Revolução Francesa e foi se encontrar com Deus. O fato dele acreditar ou não pouco importa agora, como não importa mais a ideologia que, volto a dizer, jamais nos separou. O que importa é que Silvio foi um bom filho, excelente pai e esposo, estudioso, um cara do bem que nunca abandonou suas convicções. O que poucos conseguem ser.

Iúri Rincon é jornalista e escritor.