Quem é contra o lockdown quer matar 18 mil goianos?

STF deu o direito de os municípios abandonarem seus moradores, mas deixou de atribuir responsabilidade pela omissão

Nilson Gomes

Os melhores especialistas da melhor universidade estudaram a expansão do novo coronavírus. A partir de suas pesquisas, convenceram um médico pós-graduado na Europa a aumentar o isolamento social. De outro lado, os epidemiologistas de internet se juntaram a compradores de votos municipais e negam a necessidade da prevenção à Covid-19. Eis o embate surreal visto em Goiás nas últimas horas.

Representantes de empresários tentam convencer que atender ao desespero em busca de faturamento é medida eficaz para salvar a loja sem matar quem nela é empregado ou faz compras. Não existe dicotomia entre quem precisa trabalhar para se manter e quem quer proteger a sociedade. Portanto, é um falso embate. Todos querem, o governo estadual com a mesma intensidade que os empreendedores, salvar vidas e a economia.

Goiás não quer repetir o Amazonas… | Foto: Reprodução

Ao recomendar que os prefeitos adotem o sistema apresentado pelos técnicos da Universidade Federal de Goiás, de duas semanas de fechamento seguidas de outras duas liberadas, o governador Ronaldo Caiado não agiu contra o comércio, mas em favor da vida. Caiado é médico há mais de décadas, com pós-graduação na França.

Os mais próximos a Ronaldo Caiado contam de seu sofrimento com a dor das pessoas, daí seu empenho em adotar medidas de prevenção para evitá-la.

O governador sofre junto com as famílias atingidas pela crise econômica. Sofre junto com as famílias atingidas pela Covid. Uma pode levar à falência. Outra pode levar à morte. Não se está aqui comparando as duas consequências, mas a se lembrar que não existe decisão fácil numa pandemia — o problema é que para a morte não há jeito. Uma porta fechada é um desafio para ser reaberta, uma vida perdida é para sempre.

Quanto à doença, tudo é novidade e novidade ruim. Ninguém tem expertise em caos de tal monta. Os últimos governantes e empreendedores testados em eventos semelhantes foram os de 1918. Então, o que se tem a fazer é seguir os métodos científicos. O restante é achismo, inaceitável quando se vislumbra UTI e cova.

O Supremo Tribunal Federal inovou artificiosamente no já bastante estranho federalismo brasileiro:

1 — Deu às prefeituras a prerrogativa de escolher quantos querem matar.

2 — Esqueceu-se de atribuir responsabilidade pelos resultados.

Enterros no Amazonas por causa da Covid-19 | Foto: Reprodução

Levando a questão ao paroxismo, um hipotético prefeito em busca de reeleição faz uma conta simples:

“Se eu mantiver aberto o comércio e difamar o governador que me pediu pra fechá-lo, fico de bem com as urnas. Meu município vai perder no máximo umas dez pessoas, mas em compensação eu ganho mil votos”.

Os estudiosos da UFG calcularam que, até setembro, vão morrer 18 mil goianos. A alternativa é voltar o isolamento social.

Meu Deus, dezoito mil!

Dezoito mil pais, mães, filhas e filhos, avós e avôs, sobrinhos, vizinhos, amigos.

Dezoito mil casas de luto.

Dezoito mil sonhos evaporados.

Dezoito mil sorrisos congelados no rosto.

Dezoito mil esperados num retorno que não virá.

Dezoito mil projetos extintos.

Quem combate o lockdown, apelido da quarentena mais vigiada, considera que o novo normal é viver sem sentir a ausência de 18 mil pessoas.

São líderes classistas corretos em se opor à perda de vendas que precisam se opor também a perder o vendedor.

São comerciantes reivindicando a sobrevivência de seu negócio que devem se conscientizar igualmente da própria sobrevivência.

Nos 102 anos sem pandemia, a humanidade, sobretudo a de nações abençoadas pela paz, se acostumou a traçar seus rumos e segui-los. Chegou o vírus e desnudou os sistemas: ninguém possui capital de giro para aguentar quatro meses sem fluxo de caixa.

A grita é generalizada, mas qual o destino do brado? Xingar um vírus microscópico ou o líder que busca soluções sem temer os uivos?

É fácil postar nas redes sociais e no WhatsApp.

Difícil é conseguir hospitais de campanha.

Difícil é implantar UTIs: no Estado de Goiás inteiro, eram apenas 170 leitos. O governador Ronaldo Caiado age diuturnamente para chegar a 600 leitos. Os professores da UFG preveem que, mantida a bagunça, 2 mil goianos precisarão de tratamento intensivo simultaneamente apenas por Covid-19, sem contar as demais enfermidades nem os acidentes de trânsito ou as vítimas de violência.

Os líderes classistas e os prefeitos que rejeitam o lockdown 14/14 vão entrar com quantas UTIs novas ainda neste junho que acaba agora?

É outro absurdo que virou palatável: 18 mil goianos vão morrer por falta de isolamento social, mais de 100 mil ficarão com sequelas nos pulmões e tudo bem, desde que consigam 2 mil leitos de UTI para agonizarem até o fôlego final.

Meu Deus!

Nilson Gomes é jornalista.

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