Queda de Carlesse fortaleceu tanto Ronaldo Dimas quanto Wanderlei Barbosa

A saída do governador reconfigurou a política do Tocantins. O senador Gomes se reaproximou de Dimas e Barbosa se ligou a Kátia Abreu e Irajá Silvestre

O afastamento de Mauro Carlesse (PSL) do governo, numa decisão do Superior Tribunal de Justiça, reconfigurou a política do Tocantins.

Ao assumir o governo, a onze meses das eleições, Wanderlei Barbosa (sem partido, a caminho do PDT) entrou para o jogo. Como não há esperança de que Carlesse reassuma — os rolos só começaram a aparecer (fala-se em “pontinha do iceberg” —, Barbosa tem sido procurado por vários políticos. De cara, abriu conversações com os senadores Kátia Abreu (PP) e Irajá Silvestre (PSD), mãe e filho, e com o empresário Edison Tabocão (milionário dono de fazendas e postos de combustível). O governador está procurando formatar um grupo político, com força eleitoral em todo o Estado, para enfrentar o líder nas pesquisas de intenção de voto — o ex-prefeito de Araguaína Ronaldo Dimas (Podemos).

Ronaldo Dimas e Wanderlei Barbosa devem polarizar no Tocantins | Foto: Blog Cleber Toledo

Tido como um político decente, além de administrador competente — teria reconfigurado a gestão pública de Araguaína —, Ronaldo Dimas é o favorito para a disputa, segundo as pesquisas de intenção de voto (uma delas do instituto Paraná Pesquisas).

A queda de Carlesse mudou também o jogo das oposições. O senador Eduardo Gomes (MDB) — assim como seu trem-pagador Ogari Pacheco, o primeiro-suplente —, que andou buscando o apoio de Carlesse, agora nem atende mais os telefonemas do ex-grande amigo. De cara, logo depois do afastamento do gestor estadual, procurou Ronaldo Dimas e o ex-prefeito de Gurupi Laurez Moreira para uma conversa amigável.

Gomes “permanece” no jogo — é seu recado. Assim, quem estiver melhor, em 2022, será candidato a governador. Na verdade, a história verdadeira é outra. Mais bem avaliado, Ronaldo Dimas não vai recuar em nenhuma hipótese. O que o ex-prefeito busca é o apoio do senador, que certamente terá. Porque Gomes, conhecido em Brasília como Mr. Tratoraço, é investigado pela Polícia Federal e a qualquer momento poderá ter um dissabor semelhante ao de Carlesse. Porém, como senhor de uma grande estrutura, é um aliado importante.

A chapa de oposição que realmente se desenha é a seguinte: Ronaldo Dimas para governador, Laurez Moreira (Avante) para vice-governador e Professora Dorinha (DEM para senadora. No momento, é a chapa — que, a rigor, ainda não é uma chapa — mais consistente para a disputa de 2022. É uma chapa de decências — que, se eleita, acaba com a ideia de que o Tocantins é, na prática, um verdadeiro “Corruptins” (três governadores afastados — dois deles presos). O ex-senador Ataídes Oliveira (Pros) pode apoiar esta composição? O empresário tem afirmado que ainda está no jogo. Mas é óbvio que tem mais simpatia pela oposição do que pelo grupo que está no poder. Mais do que os outros políticos do Estado, é um dos pioneiros em termos de denúncias duras e articuladas contra os esquemas do carlessismo.

Ronaldo dimas, Eduardo Gomes, Wanderlei Barbosa e Paulo Mourão: players da política do Tocantins | Fotos: Reproduções

O que fará Marcelo Miranda (MDB), ex-governador que aparece bem situado nas pesquisas? Há quem postule que, baseado nas pesquisas, pode ser candidato a senador. Porém, ante a tese de que ganha mas não leva, pode reconsiderar seu posicionamento — optando por compor com Ronaldo Dimas e por bancar a reeleição de sua mulher, Dulce Miranda, para deputada federal.

O que fará o deputado federal Carlos Gaguim — que, depois do afastamento de Carlesse, teria voltado a gaguejar? Não se sabe. Milionário, articulado e esperto, o parlamentar está na moita, esperando o quadro ficar mais claro para se posicionar. Consta que teria enviado recados para Barbosa — sugerindo aproximação e insinuando que “mal conhece” Carlesse. Aliás, há quem conte, não se sabe se a sério, que tem políticos ligando para jornais e blogs pedindo para que não coloquem fotos suas ao lado de Carlesse.

“Carlesse é radiativo, contamina todo político, candidato ou não, que se aproximar dele”, afirma um ex-deputado. “Admito que mantinha bom relacionamento com o governador afastado. Mas, como sou político, preciso me preservar. Meu aliado agora é o governador Wanderlei. Carlesse certamente abandonará a política. Se não for cassado, é provável que dispute mandato de vereador, em Palmas, em 2024.” O repórter pergunta: “O sr. está falando sério?” O parlamentar responde: “Seriíssimo. Acredito que Carlesse será cassado e perderá os direitos políticos por oito anos, com a possibilidade, inclusive, de ser preso, ao lado de seu sobrinho, Claudinei Quaresemin, o ‘ás’ de sua administração. Porém, se não for cassado, é até provável que dispute mandato de deputado estadual, em busca de imunidade parlamentar”.

O PT banca Paulo Mourão para governador. O petista acredita que, ante o quadro “contaminante” do carlessismo — como dissociar Barbosa do de Carlesse? — e devido à onda vermelha, leia-se Lula da Silva, tende a crescer, com a possibilidade de surpreender o coro dos contentes.

O surto de Madeira, o amigo de Quaresemin

Mauro Carlesse e Joseph Madeira: antes do “surto” | Foto: Divulgação

A notícia mais estranha da semana foi a história do suposto “surto” kafkiano do empresário Joseph Madeira, que havia acabado de ser indicado para ocupar uma secretaria do governo de Wanderlei Barbosa. Ressalve-se que, no lugar de “surto”, sua assessoria usou outra palavra para denominá-lo: “mal-estar”. O fato é que se comenta que, surtado, Madeira apareceu, de repente, na porta da Polícia Federal e por lá ficou por algum tempo. Não se sabe se depôs.

O que se diz, no mercado persa da política, é que Madeira mantinha forte ligação — de amizade — com Claudinei Quaresemin, o ex-poderoso chefão da equipe de Carlesse e visto como “homem-bomba” (se pressionado, pode revelar os esquemas do governo — acredita-se no Tocantins). Na linguagem da política local, Quaresemin era visto como o “operador” do governo. Carlesse confia(va) cegamente no sobrinho — apontado como “articulado” e “durão”.

Segundo um deputado, Madeira e Quaresemin eram carne, unha e, às vezes, cutícula. “Se ‘espremer’ o Madeira sai ‘suco’ de Quaresemin”, brinca, a sério, um deputado.

Comenta-se, em Palmas, que Quaresemin queria se mudar para São Paulo. Mas teria sido aconselhado por Carlesse a ficar na capital tocantinense. Uma mudança repentina poderia ser interpretada pela Polícia Federal e pela Justiça como uma tentativa de “fuga”. O governador afastado estaria aconselhando seus ex-auxiliares a falar pouco com a Polícia Federal e, mesmo, em juízo, quando os processos forem desenvolvidos. Não há notícia de que esteja pressionando. Pode-se falar mais em “orientação”. Ele estaria admitindo, para os poucos aliados que lhe restam, que as coisas vão piorar. Sabe-se que, mesmo sem ser pressionado, Barbosa vai abrir todas as informações do governo — inclusive com auditorias — à Polícia Federal e à Justiça. Postula-se que o rombo nas contas do Estado, para beneficiar grupos privados, é bem maior do que aquele que tem sido divulgado.

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