“Governabilidade”. Eis a palavra-chave que o presidente eleito Lula da Silva (PT) pôs na ordem do dia nas conversas com petistas e aliados mais próximos.

O PT elegeu 68 deputados federais para a Câmara. Ou seja, precisa de mais parlamentares para governar. A esquerda conta com mais 62 votos do PDT (17), PSB (14), Psol (12), PC do B (6), PV (6), Cidadania (5) e Rede (2). Então, ao todo a esquerda tem 130 votos. Noutras palavras, o número é insuficiente para garantir a governabilidade.

Arthur Lira: sempre no centro do poder | Foto: reprodução

Por isso, a presidente do PT, a deputada federal Gleisi Hoffmann, tem afirmado que Lula da Silva vai tentar negociar com o MDB (42 deputados), União Brasil (59 deputados) e PSDB (13 deputados). Se conseguir compor com os três partidos, a bancada pró-governo iria para 244 votos. Ainda insuficiente para garantir a governabilidade.

Na verdade, o PT não terá como escapar do Centrão do senador Ciro Nogueira e do deputado federal Arthur Lira, ambos do pP, e do PL de Valdemar Costa Neto. Terá que negociar com os dois partidos inclusive a eleição para presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado.

Gilberto Kassab e Lula da Silva: conversações à vista | Foto: Reprodução

O PL tem 99 deputados. Parte significativa deles é bolsonarista (Bia Kicis, Gustavo Gayer, Nikolas Ferreira, General Pazuello, Zé Trovão, Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e, entre outros, Ricardo Salles), mas a maioria não o é. Pragmática, a cúpula do PL é, acima de tudo, governista. Atribui-se a frase “só tenho compromisso com a vitória” ao presidente do partido, Valdemar Costa Neto, um especialista em não fazer oposição.

Marcos Pereira, presidente do Republicanos | Foto: Reprodução

O mais provável é que o presidente Jair Bolsonaro saia do PL, porque o partido tende a compor com o PT, e os deputados podem sair antes da janela partidária (em 2026), ou seja, se o partido Aliança pelo Brasil for criado, entre 2023 e 2024. É provável que Valdemar Costa Neto leve ao menos 50 dos 99 recém-eleitos para a base de Lula da Silva.

Dividir o PL fortalecerá Lula da Silva e enfraquecerá o bolsonarismo. Portanto, o PL será, de alguma maneira, atraído para o governo.

Ciro Nogueira e Lula da Silva: o 1º já chamou o petista de melhor presidente do Brasil | Foto: Reprodução

A tendência é que os 47 deputados do pP, com uma ou duas defecções, também marchem rumo ao governo de Lula da Silva. Ciro Nogueira e Arthur Lira integram o que se pode chamar de “PG” — Partido do Governo. Num primeiro momento, pode falar em oposição, mas, na hora do vamos ver, com cargos oferecidos, vai acabar compondo com a gestão do PT.

O PSD de Gilberto Kassab também deve seguir com o governo de Lula da Silva. O Republicanos, com 41 deputados, está dizendo, neste momento, que pode caminhar para a oposição. Pode até ser, no início. Mas, com o tempo, tende a se aproximar. O Republicanos “cheira” a governo.

Valdemar Costa Neto e Lula da Silva: voltarão a ser amigos, por puro realismo | Foto: Reprodução

O terceiro governo de Lula da Silva certamente não será muito diferente dos anteriores, em termos de governabilidade. Hábil e maduro, o petista-chefe vai negociar com quem quiser negociar. Sobretudo, vai articular com quem quiser — e a maioria quer. Resta saber qual será o grau de fisiologismo. Uma maioria ampla pode ser importante para evitar negociações “apertadas”, quando os partidos mais fortes ou articulados enfiam a “faca” e obrigam os governos a criarem mensalão, petrolão e orçamento secreto (o bolsolão).

O que se disse acima é a realidade. O que é. E vale o registro: “Quer pureza? Não vá ao convento”. (Euler de França Belém)