Fica-se com a impressão de que, mais preocupada com o presidente da Assembleia Legislativa, a cúpula do PSD não está pensando na reeleição de Francisco Júnior

O presidente da Assembleia Legislativa de Goiás, Lissauer Vieira (PSD), é um político hábil e firme. Ele sabe usar o poder e, por meio dele, manda recados para aliados e adversários. O jovem de 42 anos é extremamente racional, pragmático e frio. Tudo que faz é bem-pensado e articulado.

Lissauer Vieira
Vilmar Rocha e Lissauer Vieira: articulação hamletiana | Foto: Reprodução/Instagram

Por ser um político que respeita (a) lógica, Lissauer Vieira sabe que, se sair da base do governador Ronaldo Caiado (União Brasil), perde, de cara, o apoio do prefeito de Rio Verde, Paulo do Vale, e de vários outros prefeitos. Assim como não terá o apoio dos pré-candidatos a deputado federal Ismael Alexandrino e Dannillo Pereira, ambos do PSD.

Na verdade, Lissauer Vieira quer ser candidato a senador na chapa de Ronaldo Caiado, ou seja, como candidato formal, oficial. Pode-se até criticá-lo, mas ele está pondo em prática a arte da pressão, quer dizer, está tensionando.

Porém, o que está exigindo de Ronaldo Caiado é o papel, não de líder de uma aliança política, e sim o de ditador. Por que o governador “tem” a obrigação de retirar o deputado federal Delegado Waldir Soares (União Brasil), Alexandre Baldy (pP) e o senador Luiz Carlos do Carmo (PSC) do páreo para abrir espaço para Lissauer Vieira? O presidente da Alego estaria planejando se tornar um candidato, digamos assim, “biônico”, o ungido não pelas urnas, e sim pela pressão do Executivo?

Francisco Júnior: PSD estaria abandonando seu projeto de reeleição? | Foto: Carlos Costa

Política exige coragem de enfrentar adversários duros e o que Lissauer Vieira está cobrando é que Ronaldo Caiado retire a maioria deles do páreo para que possa ser eleito. O que, evidentemente, não é democrático.

Se Lissauer Vieira aprecia lógica, é preciso examinar, de maneira cartesiana, o quadro atual. Delegado Waldir, Zacharias Calil (União Brasil), Alexandre Baldy, para mencionar três pré-candidatos, estão todos bem à frente de Lissauer Vieira — que, no momento, é “traço” nas pesquisas de intenção de votos. Como obrigar os três postulantes, mais Luiz Carlos do Carmo — por sinal, já senador —, a se retirarem da disputa para abrir espaço para uma incógnita eleitoral?

Ismael Alexandrino: e se ele desistir da disputa? l Foto: Reprodução

Se Lissauer Vieira aparecesse com pelo menos 10% das intenções de voto, seus protestos e pressões — e uma certa ira — teriam lógica. Observe-se que o político do Sudoeste só foi candidato até agora a deputado estadual. Nunca disputou mandato de deputado federal. Não estaria dando um salto muito alto?

Um integrante do PSD atribui ao presidente do partido, Vilmar Rocha, a tática de um Lissauer Vieira “furioso”, atirando para tudo quanto é lado e ameaçando participar tanto da chapa do pré-candidato do Patriota, Gustavo Mendanha (que teria dito que está “cansado” de ser usado por aqueles que se aproximam dele tão-somente para pressionar Ronaldo Caiado), quanto da chapa do pré-candidato do PSDB, Marconi Perillo. Chega-se a dizer que, entre os íntimos, Rocha sugere que uma parceira com Perillo “é positiva”. Frise-se que, pré-candidato a senador, João Campos (Republicanos) não abrirá espaço para o presidente da Alego na chapa de Mendanha. O presidente da Alego teria de aceitar a vice. Ou vai pressionar Campos para que aceite a vice?

Paulo do Vale e Dannillo Pereira: aliados | Foto: Reprodução

Sobre Lissauer Vieira há outra questão, ainda que menor. Há pouco tempo, quando seu pai faleceu, o parlamentar disse que estava abandonando a política e optaria por um cargo no Tribunal de Contas do Estado (TCE) ou no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), porque seria mais “tranquilo”. Instalado num dos tribunais de contas, ele teria mais condições de cuidar dos negócios da família, no Sudoeste goiano. De repente, tudo mudou e ele se dispôs a disputar uma eleição duríssima, a de senador, o que sugere uma certa falta de lógica, de racionalidade.

Se procede que Rocha é quem está “fazendo” a cabeça de Lissauer Vieira, praticamente colocando-o em franca oposição ao governador Ronaldo Caiado, há mesmo algo de “errado” no Reino da Dinamarca — diria, se vivo fosse, Shakespeare.

Com sólida formação acadêmica, conhecendo lógica, portanto silogismos, Rocha sabe que interessa muito mais ao PSD nacional a conquista de deputados federais. O presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, político de rara sagacidade, estaria cobrando que Goiás mande para Brasília ao menos dois deputados federais.

É consensual que o deputado federal Francisco Júnior — uma das estrelas do movimento carismático em Goiás — deve ser reeleito, inclusive com uma votação maior do que a anterior, porque agora tem serviços prestados às cidades do interior. Mas, como se sabe, para eleger um parlamentar é preciso de no mínimo 170 mil votos. Em 2018, há quase quatro anos, Francisco Júnior obteve 111.788 e foi o quarto mais votado. Porém, sem a coligação partidária, não teria sido eleito.

Agora, um exercício de imaginação política: digamos que, na convenção, Ismael Alexandrino, ex-secretário da Saúde, e Dannillo Pereira, vice-prefeito de Rio Verde, desistam da disputa para deputado federal. O que acontecerá? Quais serão os outros candidatos que contribuirão para a eleição de Francisco Júnior? Portanto, com Lissauer Vieira candidato a senador, se fora da base de Ronaldo Caiado, há a possibilidade de o PSD não eleger o senador e também nenhum deputado federal.

Se o PSD em Goiás ficar menor, sem senador e sem deputado federal, o que Rocha dirá a Kassab no dia 2 ou 3 de outubro deste ano? Não se sabe, claro, porque a eleição ainda não ocorreu. Mas certamente, se acontecer algo similar ao que se está especulando, o presidente do PSD no Estado terá de dizer ao presidente nacional mais ou menos assim: “Embarcamos numa aventura shakespeariana, ao estilo da história de Hamlet, e, querendo ‘tudo’, ficamos sem ‘nada’”.

Rocha é um político de inteligência aguda, aquela matizada por um cérebro privilegiado e uma formação rigorosa e pragmática, e, por isso, certamente conduzirá Lissauer Vieira e sobretudo o PSD por caminhos lógicos, racionais. Neste momento, o partido parece à deriva, numa espécie de loucura que, por certo, agradaria tanto Hamlert quanto o Rei Lear.