Mesmo que Lula da Silva (PT) faça um governo excelente, portanto bem avaliado pelos eleitores, a direita terá um candidato a presidente da República em 2026. O motivo é simples: seu capital eleitoral é imenso. Na disputa de 2022, mais de 58 milhões de eleitores votaram em Jair Bolsonaro (PL) e 60 milhões optaram pelo postulante do PT.

Com menos contencioso com a sociedade, com uma linguagem mais civilizada e amena, provavelmente Bolsonaro teria superado Lula da Silva. Claro, perdeu para o petista, mas também perdeu para si próprio — para seu destempero e incapacidade de agregar forças novas, por exemplo no Nordeste do país.

Para a disputa de 2026 despontam, em ordem alfabética, no espectro da direita e da centro-direita, pelo menos cinco nomes: ACM Neto, Jair Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas.

1 — ACM Netto/Bahia

ACM Neto
ACM Netto: ex-prefeito de Salvador | Foto: Reprodução/TV Globo

ACM Neto, ex-prefeito de Salvador, perdeu a disputa para governador da Bahia — o que retira parte de seu cacife. Foi deputado federal e nunca esteve no Senado. Sua experiência como gestor municipal talvez não seja suficiente para quem planeja ser candidato a presidente da República. Mas seu problema principal é a derrota em 2022. Mostrou que não tem tanta força eleitoral e foi derrotado por uma liderança provinciana do PT. Imagine ele enfrentando uma raposa política como Lula da Silva. Irá para o bolso do petista em pouco tempo.

2 — Jair Bolsonaro/Rio de Janeiro

Jair Bolsonaro: ex-presidente da República | Foto: Divulgação

Bolsonaro ainda tem capital eleitoral, mas não se sabe como estará em 2026. A Justiça vai suspender seus direitos políticos? É provável. Ele está sob um verdadeiro cerco e dificilmente escapará. É provável que se celebre um pacto faustiano, talvez tácito: o ex-presidente não vai para a cadeia, mas se conforma em ficar inelegível por oito anos. Consta que o ex-presidente não quer ver sua mulher, Michelle Bolsonaro, na disputa — daí os recados frequentes do senador Flávio Bolsonaro (PL), que, com Carlos Bolsonaro distante, se tornou uma espécie de seu porta-voz. Mesmo sem menosprezá-la de maneira ostensiva, o Número Um tem dito que ela não será candidata. O mais provável é que a ex-primeira-dama dispute o governo do Distrito Federal.

Se Bolsonaro não puder ser candidato — dificilmente será —, o bolsonarismo tende a ter um candidato. Mas quem? Não dá para dizer agora, há quase quatro anos do pleito.

3 — Tarcísio de Freitas/São Paulo

Tarcísio Gomes de Freitas, governador de São Paulo | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O mais cotado do bolsonarismo é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). São Paulo é um Estado, mas é mais rico que a maioria dos países da América Latina. Só perde em riqueza para dois países: Brasil e México. É mais rico do que a Argentina e o Chile. A rigor, é um “país”. Então, dificilmente Tarcísio vai trocar uma eleição onde controla a máquina pública por uma complicada disputa nacional. Ele pode absorver parte da popularidade de Bolsonaro, mas também pode absorver seu desgaste, que, em 2026, poderá ser gigante, sobretudo se o ex-presidente for cassado e/ou preso.

O mais provável é que Tarcísio de Freitas permaneça, por realismo, em São Paulo. Mas, frise-se, é um nome forte. Por dois motivos. Primeiro, tem a imagem de gestor eficiente. Segundo, embora seja bolsonarista, é visto como moderado e pragmático. Por isso, o bolsonarismo começa a vê-lo com certa reserva.

4 — Romeu Zema/Minas Gerais

Romeu Zema: governador de Minas Gerais | Foto: O Tempo

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), é um político apontado como sério e responsável. Figura no espectro da direita, apoiou Bolsonaro, mas é pouco ideológico, até por falta de conhecimento. Há mais duas questões. Primeiro, não é muito afeito ao social — dado o fato de ser apóstolo do mercado. Segundo, corre o risco de, nos debates, dar vexame. Numa entrevista à jornalista Monalisa Perrone, na CNN, perguntado se ouvia bem, disse: “Ouvo. Ouvo muito bem”. A apresentadora ficou perplexa, assim como os telespectadores. Romeu “Ouvo” Zema, ao receber de um radialista um livro de poemas de Adélia Prado, perguntou se a poeta, uma das maiores do país, trabalhava na rádio. Ela mora em Divinópolis e tem 87 anos. Imagine se visitar a República Tcheca ou a Eslováquia, e perguntarem para o governador mineiro: “O sr. gosta de Kafka?” Corre-se o risco de, confundindo Kafka com kafta, ele dizer: “Adoro. Comi muito num restaurante árabe de Belo Horizonte”.

Mas Romeu Zema é avaliado positivamente como gestor. É seu trunfo. E o fato de não ser de esquerda agrada ao eleitorado de direita.

5 — Ronaldo Caiado/Goiás

Ronaldo Caiado, governador de Goiás | Foto: Lucas Diener

Ronaldo Caiado é um político liberal, de centro-direita. Mas tem alguns trunfos — que Bolsonaro não tinha. No período mais complicado da pandemia do novo coronavírus, não negou a ciência e, até por ser médico — especializado na França de Louis Pasteur —, criou uma ampla estrutura de saúde, o que possibilitou salvar milhares de vidas. Em pouco tempo, havia UTIs em todas as regiões de Goiás, com assistência médica de qualidade. Bolsonaro, pelo contrário, não se preocupou com a vida dos brasileiros e demorou inclusive a comprar vacinas, perdendo-se em discussões ideológicas inúteis.

Há uma questão em que Ronaldo Caiado aproxima-se de Lula da Silva: o social. No governo, longe de atender tão-somente ao mercado, o gestor goiano criou uma ampla rede de proteção social, que será ampliada, no segundo governo, para ir além do assistencialismo e se tornar mais inclusiva (seus projetos no campo da educação já são amplamente inclusivos). Este aspecto é um diferencial da gestão do político do Centro-Oeste em relação a outros gestores da direita — radical ou não. Do ponto de vista eleitoral, no caso de uma disputa entre o petista e o líder do União Brasil, o social será um ponto de equilíbrio (e, ao mesmo tempo, diferenciação). Nenhum candidato da direita se firmará, para a disputa de 2026, se não tiver amplos programas sociais para expor ao país (tem de pensar em crescimento econômico, mas sem esquecer do desenvolvimento, que é a distribuição dos frutos do crescimento), e não apenas ao Nordeste, ao contrário do que pensam alguns.

Ronaldo Caiado tem outras qualidades. Trata-se de um político agregador, com ampla experiência em termos de gestão (organizou a máquina pública, enxugando-a e a tornou mais eficiente) e parlamentar. Na Câmara dos Deputados e no Senado, como membro do alto clero, participou de todos os grandes debates do país. Por isso, pode discutir reforma tributária com economistas de primeira linha e saúde pública com as maiores autoridades do setor.

Portanto, a imprensa brasileira, que às vezes não presta atenção ao que ocorre em todo o país, precisa ter um olhar mais atento para as ações do governador Ronaldo Caiado. E há uma questão que poderiam debater: por que, em termos de economia, Goiás cresce mais do que o país? (Euler de França Belém)