Por que o Brasil não expressa a mesma indignação dos estadunidenses com crimes de racismo?

É preciso trabalhar pela emancipação da população para que os indivíduos não coloquem seus interesses particulares acima dos bens públicos

Frei Paulo Cantanheide

Especial para o Jornal Opção

Dos acontecimentos que agitaram o Brasil e o mundo na primeira semana de junho, os que mereceram mais destaque foram a aceleração da curva de contaminação provocada pela Covid-19, aumentando enormemente o número de mortes no Brasil — chegando à alarmante constatação da morte de um brasileiro a cada minuto — e as intensas manifestações contra o racismo nos Estados Unidos em decorrência da morte de um homem negro, George Floyd, asfixiado por um policial branco, que ficou ajoelhado durante quase oito minutos sobre seu pescoço durante uma abordagem na cidade de Minneapolis.

João Pedro Mattos tinha 14 anos e queria ser advogado. Policiais o mataram no Rio de Janeiro, acabando com o seu sonho | Foto: Reprodução

Os dois fatos acabaram gerando indagações inevitáveis. Considerando que o assassinato de George Floyd aconteceu uma semana depois da morte do estudante negro João Pedro, dentro de sua casa, durante uma ação conjunta das polícias Federal e Civil, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, eis que surge a primeira pergunta: por que a sociedade de brasileira não consegue expressar a mesma indignação que os estadunidenses manifestam frente aos crimes de racismo praticados pela polícia?

Além do caso João Pedro, lembremo-nos que a manchete do jornal “Folha de S. Paulo” do último dia de 2019 apresentava a fotografia de 19 crianças e adolescentes que foram mortos atingidos por balas perdidas na cidade do Rio de Janeiro naquele ano. A reportagem destacava que “a maioria era negra, vivia em comunidade e foi baleada na presença da polícia”.

Sem falar de uma ação policial, ocorrida no primeiro dia do mesmo mês de dezembro de 2019, em um baile Funk da favela de Paraisópolis em São Paulo, matando nove jovens, todos negros.

Por outro lado, o calamitoso cenário de pandemia do novo coronavírus — que abate a sociedade brasileira, submetendo inúmeras famílias à situação de desespero e sofrimento devido às perdas de pessoas queridas, prejuízos econômicos e desemprego — convive, de norte a sul do país, com a atitude nefasta de pessoas e organizações públicas e privadas que se valeram do caráter emergencial da situação para desviar recursos públicos que seriam destinados à compra de respiradores, construção de hospitais de campanha e aquisição de insumos hospitalares para o combate à pandemia.

Agatha Félix tinha 8 anos, levou um tiro pelas costas e morreu | Foto: Reprodução

Soma-se a isso a gravação da reunião ministerial que veio à tona em plena expansão da pandemia, cuja discussão esteve concentrada antes em promover o distanciamento entre a família do presidente e as investigações da Polícia Federal do que em garantir o distanciamento social necessário para a contenção do alastramento do vírus. Isso culminou no pedido de demissão do ministro da Justiça, Sergio Moro.

Diante de tal situação, surge uma segunda indagação: por que, mesmo depois da badalada Operação Lava Jato, a Justiça não conseguiu conter o ímpeto de corrupção presente nas relações burocráticas entre o público e o privado e tampouco no meio político brasileiro?

Há poucos anos, no Brasil, se exaltava a figura da Princesa Isabel e se comemorava a data de 13 de maio como dia da libertação dos escravos. Curiosamente, há poucos meses, por ocasião da posse ministerial de Sergio Moro, alguns parlamentares brasileiros o elegiam “patrono da anticorrupção no Brasil” ou “patrimônio da moral nacional”, elevando ao extremo a popularidade do ex-juiz e ministro da Justiça.

Tais coisas nos fazem perceber que, historicamente, temos a tendência de instituir heróis de modo muito fácil frente a problemáticas demasiadamente complexas, como racismo e corrupção. O problema da constituição do herói é que ela mascara a realidade e mantém uma estrutura de poder que não quer mudar.

A elite sempre produziu seus heróis e salvadores da pátria, mas nunca permitiu que o povo produzisse os seus, embora saibamos que não será a constituição de heróis populares que irá diminuir a injustiça e a desigualdade social. Racismo e corrupção são problemas endêmicos à sociedade e se entrecruzam no momento em que beneficiam a elite dominante, pois os crimes de corrupção praticados por esta não valem a pecha de marginalidade que desperta a fúria policial capaz de matar um negro por mera suspeita.

A cultura policial brasileira sempre teve muita dificuldade de se solidarizar com manifestantes, movimentos sociais e negros, justamente porque ela é a continuidade da repressão escravista herdada do sistema colonial.

De maneira que não se trata apenas de buscar identificar uma diferença idiossincrática entre os negros brasileiros e os negros estadunidenses perante uma situação que causa revolta, mas de entender como as instituições foram construídas e como elas lidaram historicamente com os cidadãos negros, visto que a escravidão negra brasileira foi a mais longa da história, a mais repressora e cruel em termos de amordaçamento e de maus-tratos.

Mais importante que continuar constituindo heróis, precisamos trabalhar para a emancipação sociocultural da população em geral para que os indivíduos não coloquem seus interesses particulares acima dos bens públicos e a coletividade possa intervir nas instituições, por meios democráticos, mudando a relação das mesmas para com as pessoas. Porém, enquanto estivermos achando natural e engraçado que um chefe de Estado se refira a negros, homoafetivos e mulheres de forma preconceituosa, estaremos cada vez mais distante de tal intento.

Frei Paulo Cantanheide é pároco da Paróquia São Judas Tadeu, em Goiânia, e professor da UEG, Campus Cora Coralina, na Cidade de Goiás.

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