Poderia Dostoiévski ter imaginado um Raskólnikov no Cerrado?

É  pouco provável que o escritor russo Fiódor Dostoiévski tenha imaginado que sua personagem se atrelaria à figura de Iris Rezende

É pouco provável que o escritor russo Fiódor Dostoiévski tenha imaginado que sua personagem se atrelaria à figura de Iris Rezende

Após uma noite de sono agitado, Raskólnikov procura freneticamente em suas roupas por vestígios de sangue. Havia matado alguém na noite anterior. Em um bolso descobre os itens penhorados que ele roubou e tenta escondê-los. Imagina que seu julgamento está escapando dele. “Isso pode ser o castigo já começando? Certamente, é”, exclama a si mesmo.

O trecho acima compõe a mais que famosa história de Raskólnikov, narrada com maestria pelo escritor russo Fiódor Dostoiévski em “Crime e Castigo”. E ela tem uma característica em particular: a mania de perseguição da personagem principal. O protagonista do romance, após matar duas mulheres, vive atormentado por uma paranoia sem fim, o que acaba lhe denunciando.

E nesse ponto, é possível dizer que há também um Raskólnikov no Cerrado goiano. Não por ter matado alguém. Longe disso. Mas pela “mania de perseguição” que lhe assemelha ao herói da literatura russa. Ao dizer que a presidente Dilma Rousseff (PT) “encheu o Marconi [Perillo (PSDB)] com dinheiro, e deixou o [prefeito de Goiânia] Paulo Garcia sofrendo sozinho”, Iris Rezende (PMDB) assustou algumas pessoas.

Isso porque a presidente é aliada — ou ao menos deveria ser — de seu partido. Assim, a tal “mania de perseguição” repercutiu não apenas entre os aliados — há um acordo pré-firmado de que PMDB e PT estarão juntos no segundo turno das eleições, caso haja um —, como nos próprios membros do partido. Tanto que o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, saiu em defesa da presidente, afirmando que ela “tem sido correta com Goiás”.

Contudo, é necessário dar um desconto a Iris. O momento eleitoral é, de fato, tenso. Pode ter sido um rompante momentâneo, quem sabe. É provável que depois ele se lembre dos convênios assinados entre governo federal e municipal e que somam mais de R$ 300 milhões. Todos na área de mobilidade urbana. Assim, será possível que haja alguma reflexão quanto à “teoria da conspiração” suscitada pela fala — e que, para uma mente criativa, pode ser muito mais profunda.

Mas voltemos a Raskólnikov, o russo: no fim do romance, ele alcança a redenção. Na Sibéria, mas alcança. Olha aí.

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