Pai mata filho que participava de movimento de ocupação de escolas. Intolerância instala guerra civil

Marcha da intolerância mostra que aprendemos a nos odiar de uma forma inteiramente desconhecida no passado. Não tardará e em breve iremos galgar novos degraus nesta escalada

Reprodução/Facebook e YouTube

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Arnaldo B. S. Neto

Certamente, como todo fenômeno complexo, a política possui um lado construtivo, que molda e desenvolve as instituições que permitem a vida civilizada. Mas possui também um lado perigoso e destrutivo que poucas pessoas querem perceber. Sugerir que a política possui uma negatividade não é o mesmo que dizer que “políticos são corruptos”. Mesmo num ambiente político onde a honestidade pessoal é altamente valorizada, o caráter destrutivo da política permanece, pois está ligado a outro fenômeno negativo das comunidades humanas, que é o poder e sua busca violenta.

A política é destrutiva porque o seu corolário último, o seu limite dentro da sociedade, é sempre a guerra civil. A guerra civil não é o contrário da política — é a realização máxima da política. Quanto mais envolvida em política na sua dimensão destrutiva, de conflito aberto e sectário pelo poder, mais próxima está uma sociedade da forma de conflito mais brutal que existe, que é a guerra fratricida onde irmão mata irmão. Para não se transformar em guerra aberta, as sociedades precisam domar a política, confiná-la a certos limites, exercitar a moderação, institucionalizar conflitos.

A sociedade brasileira, infelizmente, não conhece mais limites para a hipertrofia da política. O lema de “tudo é política” penetrou a fundo na nossa sociedade e caminhamos para politizar plenamente a infância, as escolas, as igrejas e tudo o mais. Não há mais lugar onde a política não dite as regras.

Crime de Goiânia

O resultado colhemos ontem em Goiânia: um pai matou¹ o filho por intolerância política, pois não aceitava sua adesão ao movimento das ocupações. Depois se matou. A guerra civil já está instalada entre nós. Já aprendemos a nos odiar de uma forma inteiramente desconhecida no passado. Não tardará e em breve iremos galgar novos degraus nesta escalada.

Há quem, fingindo indignação, esteja discretamente feliz. Outros apenas lamentam constrangidos que o cadáver seja inoportuno e favoreça o outro lado. A ambos fica a minha mensagem de alento: ainda poderão reivindicar muitos mortos e consagrar muitos mártires nesta jornada.

Na lógica da busca do extermínio do valor do outro, da criminalização das ideias alheias, do messianismo salvacionista, das retóricas que falam do “fim do mundo”, não é possível trégua ou convivência. E, certamente, ninguém irá guardar um único minuto de silêncio e reflexão.

Bem-vindos à guerra civil, brasileiros. Espero que apreciem a experiência.

Arnaldo B. S. Neto é professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás.

Nota

¹ O engenheiro  Alexandre José Silva Neto, de 60 anos, matou o filho, Guilherme Silva Neto, de 20 anos, estudante de Matemática da Universidade Federal de Goiás, na terça-feira, 15, no Setor Aeroporto, em Goiânia.

 

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