O PT de Lula da Silva e José Dirceu estaria apostando em Bolsonaro?

O melhor dos cenários para o PT é que Bolsonaro seja eleito. Seria a aposta no caos, quatro anos de oposição fácil, o que aumentariam as chances de retornar ao poder em 2022

Jair Bolsonaro: aposta indireta do PT para levar o Brasil ao caos e “tentar consertá-lo” em 2022 | Foto: Reprodução/Rede Globo

Hugo Studart

A direção do PT está dando todos os sinais exteriores de que aposta na eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República. Pelo menos o que transparece dos últimos movimentos é a de que não quer a eleição (possível) do suposto candidato do partido, Fernando Haddad. Mas tão somente fazer uso de seu rostinho para manter Lula em evidência.

Em maio último, escutei de uma pessoa muito próxima a José Dirceu, depois que mantiveram uma longa conversa, que o objetivo estratégico do PT era sobreviver a esta eleição. Como? Primeiro, fazendo uso da prisão de Lula como uma “causa política” para manter o partido unido e mobilizado. Segundo, encontrar um bom puxador de votos para fazer uma grande bancada federal no Congresso. Jamais seria a mesma bancada do agora. Mas a meta era eleger uma bancada com força suficiente para liderar a oposição ao próximo presidente.

Por fim, a revelação que mais espanta. O melhor dos cenários para o PT é que Jair Bolsonaro fosse eleito presidente. Seria a aposta no caos, quatro anos de oposição fácil, o que aumentariam as chances de retornar ao poder em 2022. Até lá, muitas das reformas estruturais necessárias seriam feitas, inclusive por Bolsonaro, mesmo aos trancos e barrancos. Na aposta do caos, o pior cenário seria a eleição do moderado Geraldo Alckmin.

Geraldo Alckmin: na aposta do caos, o pior cenário seria a eleição do moderado do PSDB| Foto: divulgação

Neste momento do cenário, faltando apenas um mês para as eleições, há fortes indícios que a dupla de rostinhos novos e bonitos, Fernando Haddad e Manuela D’Ávila têm chances razoáveis de chegar ao segundo turno, caso sejam impulsionados com afinco, e depois buscar derrotar Bolsonaro.

Contudo, a campanha oficial largou com o PT evitando oficializar a candidatura da dupla, mantendo Haddad numa situação difusa, meio candidato do PT, meio porta-voz de Lula. Já são muitas as informações de bastidores de que a maior parte do PT não confia em Haddad. Ele seria independente demais e já não quer obedecer aos supostos herdeiros de Lula; que teria sido melhor escolher Jacques Wagner.

Assim, já correm boatos no partido de que não é para se empenhar por ele. Por fim, notícias do final de semana tão conta de que Manuela será sacrificada e que discute-se colocar um petista em seu lugar. Em outras palavras, busca-se o caos interno no PT.

A única explicação possível é a de que a direção do partido, tal qual pensou Dirceu, está fugindo de uma possível vitória como o Diabo da cruz. Pois, se Haddad vencer, o partido terá que fazer as reformas estruturais impopulares para consertar a herança maldita que eles mesmos criaram (e Temer não consertou). Ou venezualizar o Brasil de vez.

Assim sendo, o melhor cenário para o partido seria mesmo fingir que faz campanha, apostar em Bolsonaro e trabalhar com afinco para retornar ao poder em 2022.

Fernando Haddad (com Manuela D’Ávila): a maior parte do PT não confia nele, porque seria independente demais | Foto Ricardo Stuckert

Cenário atual

Foi divulgada a última pesquisa patrocinada pelo BGP-Pactual, apurada entre sábado, 1º, e domingo, 2. Ou seja, depois do início da campanha no rádio e na televisão. Eis as principais tendências apontadas pela pesquisa:

Espontânea

1) Lula está caindo e Bolsonaro subindo. Já teriam empatado em 21% dos votos.

2) Ciro Gomes está subindo, ultrapassou Marina Silva e está se descolando do segundo pelotão.

3) Marina Silva está desabando rapidamente.

4) Geraldo Alckmin está patinando no mesmo lugar, no patamar entre 8% e 10% dos votos.

5) João Amoedo está ensaiando uma pequena onda, mas muito segmentada entre os eleitores de maior escolaridade.

6) Quanto aos demais, melhor descartar.

Rejeição

7) Alckmin é o campeão absoluto, com quase 2/3 de rejeição.

8) Marina vem em segundo, no patamar de 55%.

9 Bolsonaro, Ciro e Haddad estão empatados no patamar de 50% de índice de rejeição.

Conclusões preliminares

10) Há fortes chances de Bolsonaro ganhar no primeiro turno. No trecking, ele já estaria (uso o verbo no condicional) 55% dos votos úteis.

11) Se houver segundo turno, hoje, a maior probabilidade seria de Bolsonaro X Ciro. Ou seja, Maluco X Maluco. Nesse caso, me parece que a tendência é repetir aqui o fenômeno Donald Trump, ou seja, eleger um maluco de direita

12) Sobre os votos de Lula, de acordo com os gráficos da pesquisa, estão sendo distribuídos pelos demais candidatos, incluindo Bolsonaro. Mas ele conseguiria transferir cerca de 30% de seus votos para Haddad, caso venha a se empenhar. Significa que Haddad sairia no patamar de 15%, disputando o segundo turno com Ciro. Em outras palavras, se o PT não estivesse apostando no caos, seu próprio candidato teria grandes chances de disputar o segundo turno.

13) Sobre Alckmin, podemos até acreditar no discurso que a campanha de TV mal começou. Mas Ciro e Bolsonaro já mostraram reação, quanto Alckmin patina no mesmo lugar. Ademais, relevante lembrar que sua rejeição parece estar consolidada em 65%. Parece tarefa de milagreiro inverter os índices de rejeição pelo de aprovação em apenas três semanas de campanha na TV.

Este é o cenário da largada oficial da campanha. Mas é sempre bom lembrar que, como certa feita disse o saudoso senador Magalhães Pinto: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”.

Hugo Studart é jornalista (ex-“Veja”) e é doutor em História pela UnB.

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