O grafite imposto aos que trafegam pelas ruas é uma espécie de ditadura

O grafite nas ruas parece mas não é democrático; é, na verdade, uma espécie de ditadura. A arte fica melhor nos museus

Amadeu Roberto Garrido de Paula

Por mais que se encontre perto do belo absoluto, segundo a maioria ou a unanimidade dos críticos, é ditatorial impor aos nossos olhos o mais esplendoroso grafite do mundo. Ele deve estar acessível à população, em estabelecimentos de entrada franca e divulgados enquanto incentivo à sua visitação. Todavia, não ocupar o universo da paisagem urbana.

A Monalisa está no Louvre e ninguém estaria obrigado a ver réplicas do olhar de Leonardo em todos os pontos públicos de Paris ou de sua Florença. A liberdade, em princípio a liberdade negativa,  consiste em ninguém ser obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei (inciso II da Constituição Federal). É liberdade de primeira geração, vinda do Iluminismo e das ideias revolucionárias. Ver obrigatoriamente é fazer sem querer e sem comando legal determinante.

Ainda que a Pauliceia fique mais vistosa, tal liberdade primária estará desgastada. É possível que 80% dos observadores fiquem sensibilizados com a urbe, e os demais prefiram outro tipo de expressão e tenham reação psíquica negativa. Direito das minorias.  E como ter-se certeza de que os espaços públicos estejam ocupados pelos melhores? E a isonomia entre os artistas?

A utilização da ferramenta do Estado de modo coercitivo — e não será outro — para ter-se os grafites expostos, necessariamente seletiva, faz lembrar os regimes totalitários que viam a arte como propaganda do regime. Ainda que, neste momento, não esteja presente esse desiderato político, o mundo gira e a lusitana roda, como dizia velha propaganda. Os senhores da aprovação das imagens públicas, inevitavelmente, serão os senhores de nossa sensibilidade.

Os gastos públicos para se fazer um rodízio supostamente democrático, além de não restaurar a liberdade, serão dinheiro do povo a escapar pelo ladrão. Essas potencialidades financeiras poderiam ter aplicação na criação de museus específicos, definidos segundo as tendências e correntes artísticas, como se dá em Paris. Não nos consta que os muros do primeiro mundo estejam pichados, com engenho e arte ou com rabiscos que nos causam engulhos – as pichações ordinárias – que cobrem grande parte da capital paulista.

Não vemos frequências populares incentivadas ao Museu da Imagem e do Som,  ao Museu de Arte Moderna de São Paulo e à Casa das Rosas, na avenida Paulista, somente para citar alguns exemplos. A democracia artística deve reinar nesses recantos e impressionar um número muito maior de pessoas, inclusive pela futurista e admirável arte fotográfica, álbuns de fotos mágicas, tal como a de Balent Alovist, de Budapeste, Hungria; sua manipulação fotográfica da arquitetura nos parece conduzir a um outro universo, em minha peculiar opinião. Enfim, devemos proporcionar artes de todos os tipos à nossa população, não apenas o grafite, que, por mais impressionante que seja, peca pela falta de mobilidade no atendimento de milhões de habitantes de nossa polis. O grafite não é apenas um acréscimo. Permitindo o espraiamento de obras visuais pela cidade, os governos creem já ter cumprido sua missão cultural. Melhor para o soerguimento de novos prédios, formados por áreas comuns deslumbrantes e cubículos residenciais ou profissionais, para o dinheiro mal empregado, para a corrupção etc. A USP recebeu um número expressivo de imóveis em inventários sem herdeiros (herança jacente). Provavelmente, boa parte está deteriorada. E as casas culturais continuarão às moscas, ressalvadas as eventuais visitas escolares que são a salvação da lavoura.

O mundo humano abriga um choque dialético de valores. Não raro, temos de optar por um em detrimento de outro. Na escala axiológica, o primeiro valor a ser defendido é a vida. O segundo é a liberdade, porquanto não há vida integralizada unitariamente em corpo, alma e espírito, sem liberdade. As artes em geral fazem a essência de uma cultura, o fulcro mesmo de sua felicidade, depois do atendimento das necessidades fundamentais do povo, e merecem proteção e forte incentivo dos governos, que propiciem não só a uns poucos viajarem por seu mundo mágico, não raro fulcrado nos costumes primevos e lendas de um grupo social que o credenciam como história constitutiva do que se denomina nação. Em templos (simples, a cultura merece o nome) e, não, como uma observação forçosa e compulsória a todos quantos tenham de passar por determinadas artérias urbanas.

Assim sopesados, entre o homem criativo e o homem livre, prefiro este, “compatível com o estado de liberdade em que o artista cria” (Isaiah Berlin, “Ideias Políticas na Era Romântica”).

Amadeu Roberto Garrido de Paula é poeta e autor do livro “Universo Invisível”. Advogado e membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.

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