Morre o professor de literatura José Fernandes, da Universidade Federal de Goiás

Ele uniu o crítico rigoroso de literatura e o estudioso profundo de teoria literária

O professor aposentado José Fernandes, da Universidade Federal de Goiás, morreu na quinta-feira, 22, em Goiânia. O corpo está sendo velado no Cemitério Parque Memorial (na GO-020, na saída para Senado Canedo e Bela Vista, logo depois do Autódromo Internacional de Goiânia), em Goiânia. O enterro está previsto para as 17 horas de sexta-feira, 23.

José Fernandes era um intelectual clássico. Não sabia de tudo, claro. Mas sabia de quase tudo (inclusive latim). Conhecia literatura brasileira e internacional como poucos. Falava com facilidade sobre escritores díspares, situando-os, com perspectiva abrangente, tanto no contexto histórico quanto no literário.

Há modas. Uma delas: há pesquisadores que se especializam no estudo de teorias, mas conhecem muito pouco de literatura. José Fernandes era um intelectual diverso — conhecia literatura e teoria literária como poucos (viveu para o mundo da cultura). Falava sobre existencialismo como se fosse o assunto mais simples do mundo. Conhecia tão bem a literatura dos grandes escritores portugueses e brasileiros, como Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Erico Verissimo, Osman Lins. Escreveu belamente sobre a prosa do escritor goiano Ursulino Leão. Era um grande crítico e, também, um grande leitor. Apreciava postar poesias de qualidade no Facebook. Apreciava filosofia e sabia muito sobre, por exemplo Jean-Paul Sartre.

Além do crítico, é preciso lembrar do José Fernandes poeta, capaz de altos voos, de rara sofisticação. Manejava a linguagem como poucos.

José Fernandes foi colaborador do Jornal Opção. Escreveu ensaios notáveis, um deles sobre Ursulino Leão. Homem brilhante, fará falta.

Politicamente, era um crítico contundente dos desmandos nacionais. (Euler de França Belém)

Formação

+ Graduação Filosofia pela Studiam Theologicum do Paraná, em 1967.

+ Graduado em literatura em Letras Português pela Universidade Católica do Paraná, em 1971.

+ Mestre em Letras (Inglês e Literatura correspondente) pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 1978.

+ Doutor em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1981.

+ Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás.

+ Foi revisor da “Revista da Academia Goiana de Letras”.

Livros de José Fernandes

+ A Polifonia do Verso (coautoria com Orlando Antunes Batista), de 1978.

+ O Poeta da Linguagem, de 1983.

+ O Poeta do Pantanal, de 1984.

+ O Existencialismo na Ficção Brasileira, de 1986.

+ A Loucura da Palavra, 1987.

+ Dimensões da Literatura Goiana, de 1992.

+ O Poema Visual, de 1996.

+ Técnicas de Estudos e Pesquisas, de 1999.

+ Assombramento, de 1999.

+ Cicatrizes Para Afagos, de 2001.

+ O Selo do Poeta, de 2005.

+ Água Mole, de 2005.

Repercussão

Yuri Baiocchi, pesquisador: “Fiquei aturdido com a notícia do falecimento do amigo, professor, escritor, poeta e crítico literário (sem igual, nos últimos tempos) José Fernandes.

O cenário da literatura brasileira perde com sua morte e perde novamente por não tê-lo alçado, em vida, ao patamar que lhe era de direito. Não preciso dizer nada sobre o cenário literário goiano, onde acredito que dificilmente surgirá alguém com tamanha verve tão rapidamente.

Já eu, perco a grandeza de sua amizade e gentileza, que desde os meus 12 anos me ensinou, inspirou e incentivou por meio de bons conselhos, boas recomendações de leitura, críticas e parabéns.

Gostaria de tê-lo agradecido por me mostrar tantas coisas através das lentes da admiração e do espanto e, por intermedio delas, fazer com que eu enxergasse o lustro da poesia.

Meus sentimentos a sua mulher, de quem ele zelava com todo carinho, e demais familiares.”

Suellen Moreira, mestre em literatura: “Um grande mestre foi brilhar nos céus; foi traçar seus versos em outra dimensão.! Expresso meu carinho eterno pelo senhor e condolências à sua família… Admirável professor, amigo, crítico literário, poeta da linguagem, homem sensível, artista da palavra. Nunca esquecerei de sua atenção e amor na graduação em letras, bem como na construção da minha dissertação de mestrado. Abriu pra mim sua casa, biblioteca, seu tempo, seu recanto familiar e prestígios na ética docente. Amo ler seus signos, navegar na semiótica das entrelinhas de seus escritos… Prazer ter seu nome intitulado junto ao meu Ms. Carregarei para sempre. José Fernandes, descanse em paz.”

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Ivone

Oh, amigo, a sua ausência está doendo muito. A sua poética será eterna.
Poucos literatos souberam tanto quanto José Fernandes. Estudioso de Manoel de Barros, José Fernandes escreveu o primeiro estudo científico sobre o “menino que colocava o rio no bolso”.

sheyla venezani

Nossa.. Meu professor amado! Que me fez encantar pela literatura!