Morre o médico e escritor Celso Costa Ferreira

Celso hoje nos deixou. Estou viajando, talvez não consiga fazer a despedida final, para mim um gesto sempre obrigatório entre amigos, o que lamento profundamente

Marcelo Franco

Vejam esta fotografia aí embaixo. Somos amigos há muito, muito, muito tempo. Falei “muito tempo”? Pois é: coisa de outro século, quase a.C. Tem pouco mais de uma semana que ela foi tirada, creio que duas ou três semanas atrás, num dia em que fomos comemorar os setenta anos do Celso Costa Ferreira (faltaram, por motivos eventuais, Breno de Faria, César Centofanti, Servito de Menezes, Itamar, Marcos Massad, Valdemar Zaiden, Rodolfo Otávio Mota…).

Celso hoje nos deixou, aos 70 anos. Estou viajando, talvez não consiga fazer a despedida final, para mim um gesto SEMPRE obrigatório entre amigos, o que lamento profundamente. Com poucas pessoas passei mais tempo nesta vida: ele foi inicialmente meu amigo, depois se tornou meu sogro, deixou de o ser e voltou à condição de “simples” amigo — convivíamos há bem mais de vinte anos; na saudosa Blend, a convivência foi quase diária. Nunca brigamos, dou-me conta disso agora.

Sabíamos, seus muitos amigos, de suas enfermidades. Brincalhão, ele permitia que fizéssemos piadas sobre o assunto: já há certo tempo comemorávamos dois aniversários seus porque ele ficara uns dias desenganado num hospital e, como sempre, acabou escapando… O “como sempre” não funcionou desta vez — foi juntar-se aos outros do grupo que também já nos deixaram, Rúbio, Efigênio e Isanulfo, todos cedo demais. Sempre será “cedo demais” neste nosso grupo (olho a foto e me espanto: o grupo ramificou-se — e sou um dos originais de fábrica, patente que tem lá suas desvantagens…).

A Blend-Tabacaria me deu muitas coisas, já escrevi antes e reafirmo. Há amigos (havendo amigos, sempre há lealdades e eventuais e pequenas deslealdades, que assim, ai de nós, funciona o mundo, mas nada muito grave, nada que o “Conselho dos Anciãos”, presidido pelo Celso, não pudesse solucionar…). Talvez também me dê ainda uma cirrose hepática… Mas, sobretudo, há ali certa forma lúdica de ver o mundo com olhos “de rir”, por assim dizer. O sentido de humor demanda algum distanciamento, pouco medo do ridículo e um olhar atento: quando alguém aponta o dedo para a Lua, aquele que sabe rir olha para o dedo, nunca para a Lua. Daí que brincadeiras à primeira vista infantis sejam, na verdade, o retrato de uma forma muito engraçada de encarar o que nos cerca, e o incrível é que isso seja um sentimento coletivo de quase todos ali. Rir de palavras e brincar com os seus sentidos é coisa de gente inteligente, não de pessoas sem estofo (Isanulfo e Celso tinham frouxos de riso com expressões antigas, “ter frouxos de riso” entre elas). “Aquelas vizinhas, a Propedêutica, a Hermenêutica e a Maiêutica”, “Michael Chumaço”, essas bobagens salvam o dia e desafogam a cabeça. E também somos atentos às palavras dos outros, outra forma de humor mais sutil do que transparece: “Aqui não, cabritinho”, “O que é que eu vim fazer aqui?”, “Vai desandar”, “Uma farra monstro”, “Não sei quê, não sei quê, não sei quê”. E o Celso era, dizíamos, quase um primus inter pares, tão feliz era no “nosso” ambiente, tão sem-cerimônia se fazia conosco: sua presença era um Biotônico Fontoura para a turma do CID F33, que integro também com patente de cinco estrelas.

Celso Costa Ferreira: médico e escritor

Outro dia — conforme preservado pela fotografia para a posteridade —comemoramos seus setenta anos, como eu já disse. Foi épico: rimos, bebemos, apostamos, maledizemos… Entre brumas de lembranças esfumaçadas, recordo-me vagamente de uma discussão sobre a natureza do que Moisés recebera de Deus no Monte Sinai, Celso afirmando, convicto, que teriam sido as “Dez Sugestões”, moção aprovada por todos. Estávamos em paz e felizes; se Deus nos viu lá do alto, com certeza riu daquele encontro e, satisfeito com tamanha amizade, rindo-se também das brincadeiras bobas, logo passou, tenho certeza, para afazeres mais sérios — pois ali, naquele grupo de amigos que riam e comemoravam a existência de um dos seus, a Sua obra tinha sentido. Celso se foi, então, num período de alegria, como era de se esperar dele, mas é fato que toda morte de um amigo é um pouco a nossa própria morte, um susto neste diabo de vida que passa depressa e mal vamos notando, sempre com as retinas ocupadas com trabalho, política e que tais — e isso dói, essa fugacidade que tomba tantos, isso realmente fere e quase não se cauteriza. Pois hoje se criou uma ferida profunda em todos os que estamos na fotografia, talvez a mais profunda de tantas que já recebemos.

Nada sabemos dessas coisas de viver e morrer, eis nossa tragédia. Pior: envelheço a passos largos e, surpreso, vejo que antigas certezas se esfumaçam com os cabelos brancos. Uma dúvida, porém, vem de longe, da juventude mesmo: o que seria uma vida bem vivida? Por mais que aconselhemos “carpe diem” ou “seize the day”, o significado de “carpe” e “seize” é equívoco, de uma ambiguidade nada alentadora. Nunca teremos respostas absolutas para isso, é certo, mas talvez olhar a vida de pessoas como o Celso nos dê certas pistas. Frutificou e criou família; trabalhou com dignidade; tratou todos com decência — isso bastaria para honrar o sopro divino, eu creio. Mas se falo como amigo, é do amigo que me lembrarei; para o amigo, então, furto o Rosa do “Grande Sertão”: “Amigo era o braço, e o aço! Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que tira prazer de estar próximo. Só isto; quase; e todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”.

Celso foi braço e aço, nunca ajuste de dar serviço ao outro.

A mesa não estava posta, como no poema, porque alguém com sua vitalidade e alegria nunca a tem pronta para a indesejada das gentes — será sempre cedo demais, insisto. Fazer o quê? Crer na justiça dos desígnios divinos, incompreensíveis para os que ficam, e agradecer o sopro — não, a rajada — de bem-querer que foi sua vida entre nós (se eu escrevesse na atual ortografia, “benquerer”, ele me daria bronca…). A honra foi nossa, velho amigo, sobretudo nossa, sempre nossa, eternamente nossa.

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Salma Saddi Waters de Paiva

Querido Marcelo, sei que um dos melhores momentos da minha vida foi conviver com vocês na Blend, devo isso ao Otávio Daher. Quando li sobre a passagem do Dr Celso me apertou o coração, logo depois imaginei como estaria sendo o encontro dele com Isanulfo. É Marcelo o tempo passa muito rápido para todos nós, mas o afeto que sentimos é eterno.
Sua crônica me emocionou.
Dr Celso, siga em Paz!

Eleni

Fui paciente do grande profissional, Dr Celso. Quase no final do meu tratamento, ele me falou assim, Eleni, vou lhe falar não como médico mas com o amigo, e me deu os mais maravilhosos conselhos, vindo com toda sua experiência e vindo do seu coração! Eu sou artista plástica , ele como apreciador de arte, chegou a comprar muitas telas minha. O Dr Celso, irá fazer muita falta como médico, como amigo …Tenho certeza que ele está em um mundo estrelar, contando suas belas crônicas .

Sílvia

Nossa que triste notícia, passei os últimos seis meses de sua vida com ele, me consultando, ajudando, aconselhando. O tempo foi curto demais, mas o pouco que o conheci o admirava e me sentia sortuda por te-lo como médico, sempre após uma consulta eu saia espalhando para minhas amigas aos quatros ventos, vocês precisam conhecer o meu médico, ele é excelente, ele me ajuda muito, vocês irão gostar muito dele, não deu tempo, que destino cruel do ser humano esta coisa chamada morte, não fomos feitos para isso, teremos uma continuação eu bem sei, mas esse despedir é doloroso demais… Leia mais

Terezinha Maria Souza

Triste ! E agora quem vai cuidar da minha cabeça, meu médico querido, mais quem sou eu ! Nos meus devaneios para dizer pra você não ir , se você já se foi…