Morre o maestro Joaquim Jayme. Ele teve um AVC

Ele era regente da Orquestra Sinfônica de Goiânia. Tinha 76 anos

O maestro Joaquim Jayme, aos 76 anos, morreu na segunda-feira, 15. Ele teve um AVC, estava se recuperando no Crer. Mas não resistiu. Era apontado como um dos principais maestros brasileiros e, na ditadura, foi perseguido pelos militares. Ele foi para o Chile e, depois, para a Alemanha. Ele era o maestro da Orquestra Sinfônica de Goiânia.

Autonomia de uma genealogia da família Jayme, o doutor em agronomia Nilson Jayme chama Joaquim Jayme de “menestrel da liberdade”.

Repercussão

Marcelo Franco, promotor de justiça, no Facebook: “Uma das mais curiosas atividades da minha vida foi o meu envolvimento com a Orquestra Sinfônica de Goiânia, isso em 44 antes de Cristo. Fabiano Coelho de Souza era o presidente do glorioso Centro Acadêmico XI de Maio da Faculdade de Direito da UFG; como pouco estudávamos, resolvemos então levar a Orquestra à Faculdade, e isso se tornou um programa obrigatório mensal durante muito tempo, apesar dos ensaios barulhentos durante as aulas, curiosamente tolerados pelo diretor Paulo Fleury — onde anda? — e professores. Conheci então o maestro Joaquim Jayme, que me dizia ser a acústica do nosso auditório muito boa. De algum modo, eu fiquei sendo o organizador musical da coisa toda. Pode a abertura de ‘Carmen’? Pode. O ‘Bolero’ de Ravel? Também — o seu gosto é bom, menino. (Durante muitos anos ainda me confundiram com o “gerente” da Orquestra.) O maestro era uma figura e tanto: expansivo, bravo mas com ares de quem gostava de conviver com a estudantada (assistíamos aos ensaios só para rir das broncas que dava nos músicos), ao final das apresentações regia uma sequência de sambas e dançava no alto do púlpito de maestro. Ficamos amigos e hoje me deparo com a triste notícia da sua morte. Um maestro que aceita reger para estudantes uma vez por mês? Vai fazer falta, o velho Jayme.”

Goiamérico Santos, professor da área da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Goiás, no Facebook: “Joaquim Jayme voltou pra Goiás por opção, retornando assim as suas raízes. Não voltou porque nada deu certo em seu exílio. Tive uma prova disso. Estava na Universidade de Oxford, participando de um congresso, encontro-me com um professor da Alemanha que de mim se acercou perguntando pelo Joaquim Jayme. Eu disse que ele era o maestro da Orquestra Sinfônica de Goiás. O colega alemão lamentou muito o fato do J. Jayme ter voltado. Disse que o maestro era professor em sua universidade, estava à frente da orquestra e resolveu voltar. O reitor fez tudo pra ele ficar, insistiu muito. Mas ele voltou pra cumprir o ideal de ajudar a afirmar uma música mais refinada entre nós. Humilde, ele nunca fez alarde do teu sucesso na Alemanha.”

Brasigois Felício, escritor e jornalista: “Perda das mais lamentáveis. Músico excepcional e criaturas humana extraordinária.”

Reinaldo Assis Pantaleão, professor de História e líder político: “Meu último contato com Joaquim Jayme foi um aula de história que ele proporcionou. Um ser humano fantástico. Sempre preocupado com as questões sociais, as desigualdades. Mostrou uma ponta de decepção com a falta de apoio para a cultura. Maestro Joaquim Jayme, presente!”

Hugo Brockes, publicitário e escritor: “Joaquim Jayme era uma força da natureza e um músico de excelente formação, tanto que era respeitado na Alemanha, no Chile e outros países. Nós militamos politicamente juntos na esquerda. Ele foi preso pela ditadura no Rio de Janeiro, ao lado de James Allen Luz. Era um sujeito corretíssimo, de uma decência ímpar. Culto, era de uma lucidez impressionante. Era um homem solidário. Ele merece uma ampla biografia, que poderá revelar todas as suas facetas de músico de excepcional qualidade e de cidadão exemplar que sempre lutou pela democracia.”

Uma biografia do maestro Joaquim Jayme

Texto de Nilson Gomes Jayme, autor do livro “Família Jayme — Genealogia e História” (Kelps, 1146 páginas): “Joaquim Thomaz Jayme, maestro — (n. 24/02/1941 – f. 15/05/2017). Natural de São José do Tocantins, atual Niquelândia, GO, era músico e maestro. Estudou piano em Goiânia, com Belkiss Spenciére Carneiro de Mendonça. Foi bolsista dos Seminários Internacionais de Música, entre os anos de 1958 a 1960, promovidos pela Universidade Federal da Bahia-UFBA. Foi, ainda, bolsista dos cursos regulares dos Seminários Livres de Música da UFBA, de 1959 a 1962, onde estudou piano com Sebastian Benda e Pierre Klose, regência com Koellreuter e composição, com Koellreuter e Miklós Kokrom. Cursou pós graduação no Departamento de Música da Universidade de Brasília-UnB, sob orientação do maestro e compositor Cláudio Santoro, estudando análise e fuga, regência orquestral, instrumentação e orquestração. Foi militante político de esquerda, durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985), na Ala Vermelha do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Preso, foi exilado político. Durante seu exílio, primeiramente no Chile, durante os governos e Eduardo Frei e do socialista de Salvador Allende (1970-1973), foi professor titular e diretor da Escola Superior de Música da Universidade de Concepción, Chile, no período dos Governos Eduardo Frei e Salvador Allende. Após o golpe militar que depôs Allende, foi perseguido pelo governo do ditador Augusto Pinochet. Exilou-se então na Europa, morando na Holanda e Alemanha Oriental.

“Fez mestrado em Musicologia, pela Universidade de Rostock, Alemanha Oriental. Antes da anistia, e de seu regresso ao Brasil, foi professor, por cinco anos, da Universidade de Rostock, naquele país. É uma das maiores autoridades em música do Estado de Goiás, com uma trajetória vencedora e progressista, em que desempenhou as seguintes funções: a) professor do Departamento de Música da UnB; b) regente do Coral dessa Universidade e assistente de sua Orquestra de Câmara; c) professor titular e co-organizador da Fundação das Artes de São Caetano do Sul; d) regente da orquestra de cordas – Musicâmara, dessa instituição; e) redator musical, inspetor chefe e maestro assistente da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília; f) professor assistente do Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás-UFG; g) regente do coral da UFG; h) professor adjunto da UnB; i) fundador e regente titular do Coral do Estado de Goiás (1987); j) fundador e maestro titular da Orquestra Filarmônica de Goiás (1988); k) fundador e diretor da Escola de Música do Centro Cultural Gustav Ritter, em Goiânia; l) Secretário da Cultura, Esporte, Turismo e Lazer de Goiânia. É autor de várias obras para piano, canto e piano, orquestra de cordas, sinfônica, arranjos para coro e quase uma centena de canções populares e líricas, com textos de poetas brasileiros e estrangeiros.

“Em 1993, a convite da Prefeitura, organizou a Orquestra Sinfônica de Goiânia, da qual é regente titular e diretor artístico, até o presente. Em 1997 uniu o Coral Municipal com a Camerata Vocal de Goiânia, criando o atual Coro Sinfônico de Goiânia. Foi membro da Comissão de Projetos culturais da Secretaria Municipal de Cultura. Foi galardoado com o Troféu Jaburu, a mais elevada honraria concedida pelo Conselho Estadual de Cultura do Estado de Goiás. Foi Secretário Municipal de Cultura de Goiânia pela segunda vez, em 2012. Gravou, com a Orquestra Sinfônica de Goiânia, dois CDs: Sinfonia das Águas Goianas e Alvorada na Serra. É de sua autoria o Hino oficial de Hidrolândia, Hino do Atlético Clube Goianiense, Hino da Uni-Anhanguera, Hino da Maçonaria Glória do Ocidente, dentre outros.

“É autor do Hino do Estado de Goiás — com letra de José Mendonça Teles — oficializado pela Lei Estadual n° 13.907 de 21/09/2001. Em 2010, compôs e gravou um CD de Música Popular Brasileira Ricordanza, com letras dos poetas goianos Aidenor Aires, Jacy Siqueira e Leo Lyce, em que as 12 músicas são interpretadas pelo maestro. Sua interpretação, com as reminiscências de ex-exilado na garganta, tornou o trabalho muito especial. Uma obra antológica e rara, de três poetas das letras e um poeta da música. Foi laureado, pelo Conselho Estadual de Cultura, em 1999, com o Troféu Jaburu. O Troféu Jaburu, prêmio nobre, outorgado desde 1980, pelo Conselho Estadual de Cultura, é o maior e mais significativo prêmio cultural do Estado, dedicado às pessoas e entidades que mais se destacaram no campo da cultura em Goiás. O troféu recebeu o nome Jaburu em referência a uma das aves símbolo da natureza, que habita toda a América em torno das grandes bacias hidrográficas e que infelizmente se encontrava ameaçada de extinção. Recebeu o Prêmio Buritis, instituído em 2013 por iniciativa do Conselho Municipal, como forma de homenagear todos aqueles que contribuíram para a cultura goianiense com ações positivas em diversas áreas, projetando o nome da cidade. Casou-se com Mitzi Virgínia Segovia Loprestti (n. 09/10/1952), professora, natural de Santiago, Chile, filha dos professores Oscar Hernán Segovia e Virgínia Loprestti Parra, ambos chilenos, com quem teve um filho: Oscar Heman Jayme Segovia, pai de seu único neto: Santiago Segovia Gonçalves Jayme.

Faleceu vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) que o acometeu no ano de 2016, do qual se recuperava no Centro de Reabilitação Doutor Henrique Santillo (CRER) em Goiânia.”

Veja sobre Joaquim Jayme no YouTube (material produzido por Nilson Jaime):

2 Comment threads
1 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
3 Comment authors

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Nilson Gomes Jaime

BN.2.4.12) JOAQUIM THOMAZ JAYME, M.Sc., Maestro Joaquim Jayme (n. 24/02/1941 – f. 15/05/2017). Natural de São José do Tocantins, atual Niquelândia, GO, era músico e maestro. Estudou piano em Goiânia, com Belkiss Spenciére Carneiro de Mendonça. Foi bolsista dos Seminários Internacionais de Música, entre os anos de 1958 a 1960, promovidos pela Universidade Federal da Bahia-UFBA. Foi, ainda, bolsista dos cursos regulares dos Seminários Livres de Música da UFBA, de 1959 a 1962, onde estudou piano com Sebastian Benda e Pierre Klose, regência com Koellreuter e composição, com Koellreuter e Miklós Kokrom. Cursou pós graduação no Departamento de Música da… Leia mais

fabianarabelopeixoto

Não tem como não sentir demasiado a perda desse exemplar músico regente. Hoje o céu canta mais alto e se fores reger por lá nos encontraremos para aplaudir, como sempre fazíamos aqui, no coração do Brasil. Goiânia chora mas agradece por ter deixado suas maiores músicas em palcos encantadores.

ADALBERTO DE QUEIROZ

Uma grande perda para a música feita em Goyaz.