Meirelles, o imponderável, pode mudar ou não a configuração política para 2022

No momento, o governador Ronaldo Caiado é quem faz a política de Goiás girar, como seu principal player

A política, como parte da vida, não tem com escapar do imponderável. Mas às vezes o imponderável não é tão imponderável assim. A presença de Henrique Meirelles na política de Goiás tanto pode mudá-la, reconfigurando o quadro de alianças, quanto pode não mudá-la de maneira significativa.

Henrique Meirelles: o imponderável que precisa se tornar ponderável | Foto: Reprodução

Mas, de fato, embora ainda nem esteja em Goiás, por vezes se comportando como uma espécie de bandeirante — que vem e vai embora, quando quer —, a filiação de Meirelles ao PSD de Gilberto Kassab, do senador Vanderlan Cardoso, do deputado federal Francisco Júnior, do presidente do partido em Goiás, Vilmar Rocha, e do ex-deputado estadual (e evangélico) Samuel Almeida cria uma expectativa, que pode ser de poder, de quase poder ou de nenhum poder. Relevante mesmo é que cria mesmo uma certa expectativa — que só o tempo dimensionará.

A filiação de Meirelles sinaliza que o PSD está no jogo, e como possível protagonista, e não força secundária. Tanto que, de cara, o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BankBoston e do Banco Central do Brasil, foi apresentado como possível candidato a governador e, sobretudo, a senador. Ao PSD nacional (leia-se Gilberto Kassab) o que interessa mesmo é que as sucursais locais mandem para Brasília deputados federais e senadores. A força do partido advém de suas bancadas brasilienses. Na capital da República, sabe-se, um partido poucos parlamentares é um partido sem “alma”, sem força. Na democracia, a pressão não advém do grito, e sim do número de deputados e senadores. O tempo de televisão e os recursos financeiros do Fundo Partidário resultam do número de deputados federais.

Governador Ronaldo Caiado

Governador Ronaldo Caiado: no momento, é o político que faz a política de Goiás “girar” | Foto: Reprodução / Facebook

Portanto, em termos de PSD nacional, interessa muito mais Meirelles como senador e, até, deputado federal. Mas o que definirá a candidatura do engenheiro especializado em economia — natural de Anápolis e primo de Aldo Arantes, o líder comunista — é a circunstância da política em 2022. “Poderá acontecer tudo — inclusive nada”, diz, em tom irônico, um deputado federal. Meirelles já tentou disputar o governo de Goiás e mandato de senador e não conseguiu.

Qual o espaço para Meirelles na política de Goiás?

Para governador, o único nome efetivamente definido é o do governador Ronaldo Caiado, do partido Democratas. Ele já disse que irá disputar a reeleição. A um ano e sete meses das eleições, é franco favorito. A rigor, ainda não tem adversário — consistente ou não.

O PSDB tentou bancar, desde já, Jânio Darrot. Mas o ex-prefeito de Trindade caiu fora. Se disputar algum cargo em 2022 — governador, senador ou deputado — será, possivelmente, pelo Patriota, partido ao qual pode se filiar Jair Bolsonaro. Se o presidente se filiar, o Patriota ficará forte tanto no Brasil quanto em Goiás, e, por isso, atrairá muitos candidatos a deputado federal e estadual. Em Goiás, por exemplo, o deputado federal Major Vitor Hugo e o deputado estadual Paulo Trabalho se filiarão ao partido no qual se filiar Bolsonaro.

Daniel Vilela e Gustavo Mendanha: o presente e o futuro do MDB | Foto: Reprodução

Como não conseguir lançar Jânio Darrot, que não tem vocação para “coveiro”, o PSDB tende a bancar José Eliton. Pode ser o candidato por exclusão, ou melhor, porque ninguém quer disputar mandato de governador pelo tucanato. Na semana passada, um tucano, de bico erado, disse: “Zé Eliton foi o ‘coveiro’ do tempo novo e agora vai ser o ‘coveiro’ do PSDB”. Exagero, por certo, atribuir a único político a debacle do partido.

O MDB tem dois nomes consistentes para o governo: Daniel Vilela, presidente do partido e ex-deputado federal, e Gustavo Mendanha, prefeito de Aparecida de Goiânia. Ambos são jovens e podem correr riscos. Mas derrotas seguidas também podem enviar o político para o ostracismo — nem todo mundo pode ser comparado a Lula da Silva, do PT, que perdeu uma eleição para Fernando Collor, em 1989, e duas eleições para Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, mas depois se elegeu e se reelegeu, além de ter feito a sucessora, Dilma Rousseff, do PT.

Lissauer Vieira: cotado para a vice| Foto: Ruber Couto/Alego

Há a possibilidade de Daniel Vilela — ou Gustavo Mendanha — compor com Ronaldo Caiado? No momento, o presidente do MDB afirma que é oposição e que deverá disputar o governo em 2022. É natural. O momento não é de definições, e sim de abrir canais de diálogo, que podem resultar em parceria ou não.

Qual seria o espaço de Daniel Vilela — ou Gustavo Mendanha — numa chapa com Ronaldo Caiado? Poderia ser vice ou candidato a senador. A chapa de Ronaldo Caiado ficaria encorpada tanto por Daniel Vilela, que seria um sopro de renovação, quanto pelo MDB, que está presente em todo o Estado. Trata-se de um partido enraizado nos municípios, com tradição histórica.

Alexandre Baldy quer uma vaga no Senado | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Há outros players que estão jogando. Por exemplo, o presidente da Assembleia Legislativa, Lissauer Vieira, do PSB. No momento, ele trabalha em dois fronts: uma candidatura a vice de Ronaldo Caiado e uma candidatura a deputado federal. Trabalha para mudar-se para Brasília, mas gostaria de ser vice. Porque o vice de Ronaldo Caiado, se ele for reeleito em 2022, assumirá o governo em 2026, com a possível saída do líder do partido Democratas para disputar mandato de senador, e se tornará, certamente, candidato natural à reeleição. Os prefeitos de Catalão, Adib Elias, do Podemos, e de Anápolis, Roberto Naves, do Progressistas, também estão no jogo. São vices possíveis. O PP terá condições de reconciliar-se com Ronaldo Caiado? Integrantes do partido acreditam que sim. Porque será positivo para ambos. Com Meirelles no jogo, se apostar numa disputa para governador, o Progressistas será ainda mais útil ao governador. Quanto maior a força do adversário — seja Daniel Vilela, seja Meirelles —, mais Ronaldo Caiado precisará do esforço concentrado dos aliados para bancá-lo.

José Eliton: o nome do PSDB para a disputa | Foto: divulgação

Postas as séries de questões acima, ainda não se pode, a rigor, sustentar que Meirelles muda o quadro de 2022 em Goiás. Sinaliza que pode mudar — o que é bem diferente. No momento, o principal player político, o que está movimentando as bases políticas no interior e na capital, é Ronaldo Caiado. O verdadeiro jogo se faz na província, não nos grandes salões da República — seja em Brasília, ou em São Paulo. A política do dia a dia, a que gera resultados positivos para candidatos, se faz no contato com a sociedade civil e com políticos locais (deputados, senadores, prefeitos e vereadores, e demais lideranças partidárias). O jogo, portanto, passa muito mais por Ronaldo Caiado do que por qualquer outro político. Observe-se que, na semana passada, o prefeito mais marconista de Goiás, Hermano de Carvalho, de Aruanã, deixou o PSDB e se filiou ao Democratas. Carlinhos do Mangão, prefeito de Novo Gama, trocou o Republicanos pelo Democratas. Noutras palavras, há uma grande operação para fortalecer as bases políticas de Ronaldo Caiado. Há um político atento movimentando o xadrez, atuando no seu próprio campo e também no campo adversário.

Roberto Naves: um dos players de 2022, como candidato ou não | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

De resto, pode-se sugerir que Meirelles é o imponderável que cria expectativa. Resta saber se, ao se tornar ponderável, terá energia política necessária e suficiente para “abalar” o quadro, fazendo-o girar em torno de seu nome. Na semana passada, um emedebista experimentado disse a um repórter do Jornal Opção: “A chapa adequada teria Ronaldo Caiado para governador, Daniel Vilela na vice e Henrique Meirelles para senador”. O que fazer com o Progressistas de Alexandre Baldy? “O PP indicaria o suplente de senador, talvez Adriano do Baldy, e Alexandre Baldy iria a deputado federal.” Ressalve-se que o ex-deputado e ex-ministro pretende disputar mandato de senador. (Euler de França Belém)

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