Maguito Vilela cuidou com esmero da Escola Fazenda Filostro Machado Carneiro

“Não encontramos bezerros abandonados. E temos milhares de crianças largadas pelas ruas. Precisamos mudar essa realidade”, me disse o governador

Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

Morreu na madrugada deste dia 13 de janeiro o prefeito licenciado de Goiânia, Maguito Vilela. Um homem do bem e de bem. Um político ético e correto. Um governante justo. Um amigo leal. Estou triste como se perdesse um irmão mais velho, um amigo ou familiar.

Maguito Vilela foi eleito governador de Goiás com 45 anos, em 1994 | Foto: Reprodução

Muito há de se escrever nas próximas semanas sobre o homem que ocupou todos os cargos públicos eletivos possíveis no Estado de Goiás. Foi vereador, deputado estadual, deputado federal, vice-governador, senador e prefeito de Aparecida de Goiânia por dois últimos mandatos, antes de se eleger prefeito de Goiânia em segundo turno, nas eleições de 2020.

Passo a relatar uma circunstância que dá mostras da estatura humana de Maguito Vilela mesmo quando investido de poder. Em 1995, logo após assumir o governo de Goiás, o ex-jogador de futebol vindo de Jataí fez a primeira visita administrativa de seu governo à Escola Fazenda Filostro Machado Carneiro, conhecida como Escola Fazenda de Araçu.

Maguito Vilela na Escola Fazenda Filostro Machado Carneiro, conhecida como Escola Fazenda de Araçu, ao lado de Nilson Jaime, o diretor | Foto: Arquivo de Nilson Jaime

A propriedade rural de 736 hectares, sediada nos municípios de Araçu, Itauçu e Itaberaí, estava praticamente abandonada, e fazia parte das metas de Maguito reativá-la, torná-la um centro de atendimento a menores carentes, com educação e produção agrícola.

Eu fora diretor (1988-89) desta escola interna para menores de 15 a 18 anos, antes de assumir a direção da Efomargo, durante o governo de Henrique Santillo (1987-90), ocasião em que implantara parte de sua estrutura física e grade curricular compatível com a de uma escola superior de agronomia, com as disciplinas agricultura geral, olericultura, silvicultura, bovinocultura, avicultura, suinocultura, apicultura, caprinocultura, construções rurais, tecnologia de produtos agropecuários e economia rural, dentre outras.

Produção agrícola da fazenda-escola | Foto: Arquivo de Nilson Jaime

Em função dessa experiência, fui requisitado de meu órgão de origem, a Secretaria da Fazenda do Estado do Tocantins, para novamente assumir a função de diretor e gerente da unidade educacional, agora no governo Maguito. Tendo declinado do convite, foi em uma conversa com o governador que fui convencido da importância do encargo. “Não encontramos bezerros abandonados, nem mesmo galinhas abandonadas. E temos milhares de crianças largadas pelas ruas. Precisamos mudar essa realidade”, ele me disse. Assim pensava Maguito Vilela.

Os próximos três anos e meio foram de desafios épicos e vitórias homéricas, que serão relatadas em livro, oportunamente. Com o apoio de meus superiores, o secretário especial de Solidariedade Humana, Euler Moraes; do presidente da Fundação de Promoção Social, Joel Santana Braga, além de uma equipe de educadores, mantivemos permanentemente cerca de 200 alunos internos, residindo, estudando e trabalhando, em regime de ensino-aprendizagem.

Produção da fazenda-escola | Foto: Arquivo de Nilson Jaime

Durante quase quatro anos residi dentro da escola, assumindo a paternidade e a maternidade desses jovens, lidando diuturnamente com suas expectativas, frustrações e administrando seus impulsos e rebeldias juvenis.

No período da manhã, 50% dos alunos iam para as salas de aula, enquanto a outra metade desenvolvia atividades de campo. À tarde, a situação se invertia. Matávamos dois bovinos e um suíno semanalmente e, a cada 15 dias, centenas de aves, para alimentação dos estudantes, professores e funcionários. Todo o arroz, feijão, leite, iogurte, queijos, manteiga, doces, mel, e mais de trinta hortaliças e frutas usadas na alimentação eram de produção própria. A cada ano levávamos um caminhão de feijão para utilização das creches em Goiânia. O apoio de Maguito e de sua equipe era total. A meu pedido, o governador fez adquirir um equipamento de irrigação por Pivot Central, tratores e implementos.

Jovens que estudavam e produziam na fazenda-escola | Foto: Arquivo de Nilson Jaime

Foram centenas de menores pobres e carentes que, chegando esquálidos do Norte e Nordeste goiano, principalmente, mas de todas as regiões do Estado, tendo cursado apenas a antiga quarta série (apesar de terem de 14 a 18 anos na chegada), em dois anos finalizavam a segunda fase (ginásio) e ingressaram no segundo grau e, depois, na universidade.

Centenas deles são hoje agrônomos, veterinários, advogados, empresários e outras profissões superiores ou técnicas. Dias atrás recebi emocionado depoimento de um próspero empresário em Palmas que, tendo deixado sua casa em Inhumas, desacreditado e viciado em drogas, recebeu salutares exemplos de dedicação aos estudos e ao trabalho, tornando-se um cidadão sociável e realizado. Um jovem de Goianésia dedicou-se na Escola Fazenda à monitoria de Entomologia (o estudo dos insetos), merecendo matéria de página inteira no jornal “Diário da Manhã”. Hoje, é professor do Instituto Federal Goiano, em Ceres.

Fiz esse relato apenas para mostrar a integridade de Maguito, mesmo diante de fatores adversos e pressões políticas. Com os números positivos e o sucesso das metas alcançadas pelo estabelecimento, um político do PMDB, partido de Maguito, cacique político na região, tentou tirar-me do cargo para alojar um prefeito em final de mandato. O deputado estadual ficou por meses plantando notas em jornais e atacando minha gestão. Chegou a cooptar um deputado da oposição para apontar supostas irregularidades na administração escolar. Certo dia, já aflito com os ataques recebidos, recebi um recado do governador, por intermédio do secretário Euler Moraes: “Faça seu trabalho e não se preocupe com as pressões”. Cumpri minha missão e o compromisso assumido com o governador até o último dia de seu governo. Após passar o mandato ao sucessor, já que seria candidato ao Senado nas eleições de 1998, comecei a preparar a transição. Saí no último dia do mandato do governador Helenês Cândido. Cumpri meu compromisso com Maguito, a quem aprendi a admirar como governador, político e pessoa. E ele cumpriu comigo.

Quase mil alunos passaram pela Escola Fazenda de Araçu em sua breve existência, antes de ser extinta pelo governo do Tempo Novo. As quase duas mil fotografias daquele tempo são provas materiais de que é possível se educar e desenvolver pessoas vitoriosas e de bem, por mais atrasadas que estivessem seus estudos e precárias fossem suas condições originais.

Essa miríade de homens que se formaram sob o ideal de Maguito Vilela em fazer um mundo sem meninos abandonados ou sem rumo, são galardões que “o homem da solidariedade” deixa para a história e leva para a Eternidade.

A morte de Maguito deixa um vazio. Morreu um amigo. Morreu um homem de bem. Vai prestar solidariedade a outros, em outras possíveis dimensões. Cumpriu sua missão. Vá em paz, amigo.

Nilson Jaime, escritor, mestre e doutor em Agronomia, vice-presidente do Instituto Bernardo Élis (Icebe), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), é colaborador do Jornal Opção.

Uma resposta para “Maguito Vilela cuidou com esmero da Escola Fazenda Filostro Machado Carneiro”

  1. Renata Guimarães disse:

    Muito bom! Parabéns pelo belo texto.

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