Lula e José Dirceu teriam recebido propina de 133 milhões de reais, segundo Renato Duque

O advogado do ex-presidente contesta depoimento e sugere que o ex-diretor de Serviços da Petrobrás quer ter sua pena reduzida

Tornou-se um lugar comum: todos os amigos do ex-presidente Lula da Silva, que antes certamente eram pessoas de fino trato, ao acusá-lo de algum malfeito — para usar uma palavra do vocabulário da ex-presidente Dilma Rousseff —, passam a ser autores de depoimentos “mentirosos” à Justiça, na versão dos advogados do petista-chefe. Agora, chegou a vez de Renato Duque (condenado a 57 anos de prisão), ex-diretor de Serviços de Petrobrás, que, em depoimento ao juiz Sergio Moro, da Justiça Federal em Curitiba, denunciou que Lula da Silva e José Dirceu receberam 133 milhões de reais de propina de cinco estaleiros “que aceitaram repassar dinheiro sujo em troca de contratos na Sete Brasil”. A revista “Veja” publicou uma reportagem na sexta-feira, 5, relatando as supostas negociatas.

“Veja” frisa que, “em contratos comuns, a arrecadação de propina seguia a regra de 1%, sendo 0,5% para o PT e 0,5% para a ‘casa’, referência aos diretores que participavam do esquema criminoso. Na Sete, no entanto, Lula, Dirceu e o PT ficariam com dois terços do porcentual de 1% de propina pago pelas empresas que buscavam contratos. Renato Duque estima que esses dois terços equivalem a impressionantes 133 milhões de dólares”.

Renato Duque revelou a Sergio Moro que o dinheiro destinado a Lula da Silva eram geridos pelo ex-ministro Antonio Palocci. “Os dois terços do partido político o Vaccari me informou que iriam para o Partido dos Trabalhadores, para o José Dirceu e para Lula, sendo que a parte do Lula seria gerenciada por Palocci. Ele afirmou isso para mim. E eu, na época, conversei com Barusco e passei essa informação para ele. Falei: ‘Barusco, olha, você não está lidando com peixe pequeno. A gente está falando aqui de peixe graúdo’”, relatou Renato Duque.

Em 2007, convocado a Brasília pelo então ministro Paulo Bernardo, Renato Duque teria sido informado que, por ordens de Lula da Silva, João Vaccari Neto havia sido indicado “para fazer a intermediação entre a Petrobrás e o cartel de empresas que operavam os contratos”. Frise-se que, no período, Vaccari Neto ainda não era o tesoureiro do PT. As ordens eram de Lula, teria Paulo Bernardo informado a Renato Duque. O presidente era chamado de “chefe”, “grande chefe” e “nine” (referência ao fato de Lula da Silva não ter dez, e sim nove dedos). “O presidente Lula era conhecido como chefe, era chamado ‘grande chefe’, ‘nine’, ou esse movimento com a mão [Duque passa a mão na barba]. O Paulo Bernardo chegou e falou: ‘Ó, Duque, a partir de agora, você vai ter contato com uma pessoa chamada Vaccari. João Vaccari vai te procurar, e ele vai fazer os contatos com as empresas’, disse. Segundo o Paulo Bernardo, o Lula que tinha determinado isso”, contou Renato Duque à Justiça.

“Vaccari tinha uma capacidade tão grande de interlocução, vamos chamar assim, que às vezes ele sabia muito mais de resultado de licitação do que eu mesmo. Eu não precisava passar informação para o Vaccari procurar as empresas. Ele mesmo procurava. Ele comentava comigo: ‘A empresa tal não está pagando’”, informa Renato Duque.

A defesa de Lula da Silva divulgou uma nota para contestar o depoimento de Renato Duque. Leia, a seguir, o texto integral:

Nota        

Cristiano Zanin Martins

O depoimento de hoje (5/5) do ex-diretor da área de serviços da Petrobras Renato Duque segue o padrão já identificado nas declarações dos novos candidatos a delatores que o antecederam, caso de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, e de seu subordinado Agenor Medeiros. Eles citam Lula, falam de encontros e de conversas com o ex-Presidente, mas não têm qualquer prova do que afirmam. Ao dizer que Lula tinha “pleno conhecimento de tudo, tinha o comando”, Duque busca pôr em pé perante o Juízo da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba a falaciosa tese do procurador Deltan Dallagnol explorada no seu famoso power-point e que foi negada por 73 testemunhas já ouvidas sob o compromisso de dizer a verdade. Depoimentos cruzados – e certamente combinados – não substituem provas.

Nos três casos, chama a atenção que os advogados dos réus tenham feito questionamentos não para defesa dos clientes, mas com o objetivo de envolver o nome de Lula, inclusive em processos em que ele sequer é parte – caso do depoimento de hoje. O ex-Presidente foi submetido a uma devassa com a quebra de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, além de buscas e apreensões em sua casa e  na de seus familiares e nenhum ato ilegal foi identificado. Até mesmo pessoas referidas por Duque, como Pedro Barusco, quando ouvidas com o compromisso de dizer a verdade, negaram a participação de Lula.

Foram 24 audiências realizadas só na ação que trata do triplex do Guarujá e nenhuma prova foi produzida contra o ex-Presidente. Não pode ser coincidência que, nos últimos 15 dias, depois de anunciado o adiamento do depoimento de Lula, três pessoas que há muito tentam destravar uma delação para reduzir suas penas e até mesmo sair da cadeia – caso de Pinheiro e Duque – tenham resolvido falar, especialmente considerando que o processo de Duque já estava em fase de alegações finais. Merece repúdio que se aceite negociar futuras vantagens em troca de acusações frívolas, confirmando o caráter ilegítimo das denúncias contra Lula.

Cristiano Zanin Martins é advogado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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