Há muito mais políticos insatisfeitos com o gestor estadual. Mas não querem assumir a crise agora. Delegado Waldir, José Nelto e Major Araújo não temem manifestar discordância

Há uma série de políticos que estão insatisfeitos com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). Mas insatisfação, ao menos neste momento, não é sinônimo de rompimento. Porque políticos dificilmente rompem com gestores que estão no início do mandato. Há também os muito e os mais ou menos insatisfeitos. Entre os que estão mais insatisfeitos e têm coragem de expressar a insatisfação — porque “não” precisam de Ronaldo Caiado — estão os deputados federais José Nelto e Delegado Waldir Soares e o deputado estadual Major Araújo. Eles se sentem boicotados tanto pelo governador, que não nomeia seus aliados nem atende seus pleitos, quanto pela legião estrangeira que controla o secretariado. O secretário de Saúde, por exemplo, não aceita indicados por deputados. Ele faz uma espécie de “concurso” e contrata quem quer, desde que não tenha vínculos partidários. É mais republicano, mas certamente custo político-eleitoral para o líder do Democratas.

Há mais insatisfeitos. Mas, como alguns ocupam cargos no governo, preferem não propalar a insatisfação. “Veja-se o caso do ex-prefeito de Inhumas e ex-deputado estadual Zé Essado. Ele é um político de valor, mas ganhou um cargo no qual, longe de auxiliar o governo, se tornou um aspone. Mas pelo menos não é um asponerino”, afirma um deputado. Mas o que é um “asponerino”?, pergunta o repórter. O parlamentar responde: “Assessor de p… nenhuma interino”. E deu uma gargalhada. “O Zé Essado merece respeito, assim como o Lívio Luciano.”

Adid Elias e Ronaldo Caiado: o prefeito não conseguiu indicar aliado para a Goinfra | Foto: Reprodução

1 — Adib Elias (ex-sem partido) — O prefeito de Catalão foi um baluarte na campanha de Ronaldo Caiado para governador. Porém, quando convidado a assumir a poderosa Goinfra, rejeitou a missão e tentou indicar um aliado para o cargo. O governador vetou, e Adib não gostou. Não está na lista dos muito insatisfeitos. Pelo contrário, continua apoiando Caiado. Mas avalia que é preciso indicar um secretariado mais vinculado ao Estado de Goiás e que é necessário prestigiar os companheiros. O governador o aprecia, mas hoje Samuel Belchior mantém ligação mais forte com o gestor estadual do que Adib.

Deputado Álvaro Guimarães (DEM) não conseguiu ser presidente da Assembleia por falha da articulação política de Ronaldo Caiado | Reprodução

2 — Álvaro Guimarães (DEM) — O deputado estadual é caiadista e aprecia o governador. Figura na lista dos menos insatisfeitos. Mas avalia que só não se tornou presidente da Assembleia Legislativa porque faltou empenho de Ronaldo Caiado. O governo articulou mal com os deputados e Lissauer Vieira foi eleito presidente. E, hoje, Lissauer é mais importante para o governador do que Álvaro. Este ficou “menor” na Assembleia.

Doutor Antônio se sentiu abandonado mas retomou diálogo com Ronaldo Caiado | Foto: Reprodução

3 — Doutor Antônio (DEM) — Preterido na disputa para presidente da Assembleia, o deputado e médico passou a articular a candidatura de Lissauer Vieira. Deixou Ronaldo Caiado “chocado”. Voltaram a conversar, são aliados, mas pintou certa desconfiança — de parte a parte.

Delegado Waldir Soares (PSL): Ronaldo Caiado não quis contemplar seus indicados | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

4 — Delegado Waldir Soares (PSL) — Quando poucos apoiavam Ronaldo Caiado para governador, o deputado federal pôs a boca no trombone e dava declarações favoráveis ao líder do DEM. Uma vez eleito, o governador esqueceu do Delegado Waldir, não nomeando nenhum de seus aliados para o governo e, para piorar, dá mais atenção aos deputados estaduais do PSL, que é dirigido em Goiás pelo parlamentar federal. Caiado também estaria tentando se apresentar como “o” representante do presidente Jair Bolsonaro no Estado — quando, até o momento, o principal representante é Delegado Waldir. Dificilmente o parlamentar subirá no mesmo palanque de Caiado em 2022.

Flávia Morais, deputada federal, indicou George Morais para secretaria, mas ficou a ver navios | Foto: Divulgação

5 — Flávia Morais (PDT) — A deputada federal tentou emplacar o marido, George Morais, na Secretaria de Cidadania. Nem foi ouvida. Ronaldo Caiado colocou lá um aliado de primeira hora, o ex-prefeito Marcos Cabral.

Ronaldo Caiado apoiou Iris Rezende para prefeito em 2016, mas não obteve seu apoio direto em 2018 | Foto: Divulgação

6 — Iris Rezende (MDB) — Na campanha de 2018, o prefeito de Goiânia convocou dois de seus mais fieis seguidores, Samuel Belchior e Lívio Luciano, e disse que deveriam apoiar Ronaldo Caiado para governador. Os dois apoiaram. O próprio Iris Rezende, para não ser expulso do MDB, subiu no palanque de Daniel Vilela (MDB), o que não agradou Caiado. Mesmo assim, o alcaide acreditou que teria mais espaço no governo. Acabou vendo Lívio Luciano “humilhado”, num cargo subalterno sem nenhuma importância — e ele sabe mais de Secretaria da Fazenda do que Christiane Schmitd. Procede que Caiado sugeriu Samuel Belchior para a Secretaria de Governo, mas o “rei dos loteamentos” não quis, alegando que poderia prejudicar seus negócios. Nos últimos dias, Caiado e Iris encenaram uma reaproximação. Mas auxiliares do prefeito garantem que, em termos de apoio financeiro e obras, o governador nada fez para Iris e Goiânia. Só há promessas.

Iso Moreira reaproximou-se de Ronaldo Caiado, mas é visto com desconfiança | Foto: Divulgação

7 — Iso Moreira (DEM) — Era considerado o chateado-mor, mas está se reaproximando de Ronaldo Caiado. O governador postula que Iso Moreira foi um dos principais articuladores da campanha de Lissauer Vieira para presidente da Assembleia Legislativa — impedindo que a eleição de Álvaro Guimarães, do DEM. Iso Moreira chegou a ser chamado de “traidor” por caiadistas. Ele e Ernesto Roller, o secretário de Governo, não se gostam, mas se toleram.

Kajuru até pediu ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que ajude o governo de Ronaldo Caiado, mas o governador e o senador podem se enfrentar em 2022 | Foto: Divulgação

8 — Jorge Kajuru (PSB) — A rigor, não está chateado com Caiado, porque são amigos. Mas, em termos políticos, estão se distanciando. Em Goiânia, Kajuru não subirá no palanque do candidato de Caiado a prefeito — possivelmente Wilder Morais. Em 2022, é provável que Kajuru seja um dos principais adversários do governador, porque, segundo o deputado Elias Vaz, deverá ser candidato a governador. Kajuru tem sugerido que Caiado dê mais atenção ao presente e ao futuro do que ao passado. Noutras palavras, o gestor estadual precisa se livrar da obsessão com o ex-governador Marconi Perillo.

José Nelto: o deputado federal diz que “basta” de apoiar e não ser apoiado por Ronaldo Caiado | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

9 — José Nelto (Podemos) — O deputado federal começou falando mal de Ronaldo Caiado com moderação. Agora, as críticas passaram a ser mais duras, sem meias palavras. O líder do Podemos na Câmara dos Deputados frisa que Caiado precisa governar, e com os recursos disponíveis em Goiás, sem ilusões de que o governo de Jair Bolsonaro vai “salvá-lo”. O parlamentar sublinha que o Podemos não fez nenhuma indicação para o governo de Caiado. “Lívio Luciano e o Professor Manuel estão no governo por conta própria. São escolhas de Caiado, não do partido.” Na opinião do podemista, “Caiado ganhou a eleição com políticos goianos, mas só governa com estrangeiros. Em 2022, quando precisar dos goianos, entenderá que não poderá contar com os estrangeiros, que nem votam em Goiás”. O fato é que a base de Caiado ganhou a eleição, mas não “levou” o governo — que é exclusivo de Caiado.

Major Araújo, deputado estadual: Caiado está se tornando Marconi Perillo rapidamente | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

10 — Major Araújo (a caminho do Patriota) — O deputado estadual apoiou Ronaldo Caiado e tinha esperança que fizesse um bom governo. Mas decepcionou-se rapidamente. Hoje, faz mais oposição do que certos oposicionistas (como Diego Sorgatto, que, na Assembleia Legislativa, é conhecido como “Caiado Júnior”). O parlamentar frisa que Marconi Perillo “demorou” 20 anos para se tornar Marconi Perillo, mas Caiado está se tornando Marconi Perillo — no sentido de não ouvir os deputados, os segmentos organizados e a sociedade — em menos de quatro meses. Frise-se que a posição de Major Araújo não tem a ver com fisiologismo.

Nailton Oliveira: líder do MDB, municipalista e irista, mas desprestigiado

11 — Nailton Oliveira (MDB) — Ligado ao prefeito de Goiânia, Iris Rezende, o ex-prefeito de Bom Jardim de Goiás é um municipalista respeitado, “mas acabou tratado por Ronaldo Caiado como um cidadão de segunda categoria”, segundo um emedebista.

Paulo do Vale, prefeito de Rio Verde, hoje tem menos importância para Ronaldo Caiado do que Lissauer Vieira | Foto: Reprodução

12 — Paulo do Vale (sem partido) — O prefeito de Rio Verde pagou com a expulsão do MDB por ter apoiado Ronaldo Caiado para governador. Mas não conseguiu indicar nenhum aliado de peso para o primeiro escalão do governo de Goiás. Lissauer Vieira era cotado para líder do governo na Assembleia, mas Paulo do Vale vetou. O deputado acabou eleito para presidente da Assembleia Legislativa e hoje é mais importante para o governador Ronaldo Caiado do que Paulo do Vale. Este, a rigor, não vai romper com o administrador estadual, mas, apesar dos salamaleques gerais, não está inteiramente satisfeito.

Renato de Castro, prefeito de Goianésia, conseguiu nomeações no seu município, mas, do governo estadual, não participa | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

13 — Renato de Castro (MDB) — O prefeito de Goianésia, Renato de Castro, conseguiu cargos que o governo estadual tem no município para seus aliados. No entanto, não emplacou ninguém no primeiro escalão nem nos melhores cargos do segundo escalão. Está insatisfeito, mas não entre os mais insatisfeitos. Até porque vai precisar de Ronaldo Caiado na disputa da reeleição — já que não terá mais o apoio do MDB no município. Ele deve se filiar ao DEM ou a outro partido para ser candidato à reeleição.