Líder do MDB autêntico na ditadura, o ex-deputado Alencar Furtado morre aos 95 anos

Deputado federal posicionado e corajoso, o cearense (eleito pelo Paraná) foi cassado pelo governo supostamente moderado do presidente Geisel

O ex-deputado federal Alencar Furtado morreu na segunda-feira, 11, aos 95 anos, devido a problemas renais e cardíacos (não tinha Covid), em Brasília, no seu apartamento.

José Alencar Furtado nasceu no Ceará, em Araripe, em 11 de agosto de 1925 (portanto, ao contrário do que assinala a revista “Veja”, não tinha 96 anos). Em Fortaleza, estudante de Direito, aderiu à Esquerda Democrática e foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Ele e sua mulher, Míriam Cavalcanti, mudaram-se para Paranavaí, no Paraná, onde constituíram uma competente banca de advogados. Fez mais de 400 júris populares.

Alencar Furtado: um político de fibra, que não tinha receio de enfrentar a ditadura | Foto: Reprodução

Candidatou-se a deputado estadual no Paraná, em 1962, e ficou como suplente. Em 1966, filiado ao MDB, foi eleito deputado estadual.

Em 1970, durante o governo do general-presidente Emilio Garrastazu Médici, foi eleito deputado federal, pelo MDB. Destacou-se com um dos parlamentares mais combativos e fundou o grupo dos “autênticos” no MDB, ao lado de Marcos Freire, Fernando Cunha (de Goiás), Fernando Lira, Chico Pinto, J. G. de Araújo Jorge, Freitas Nobre, Alceu Colares. Getúlio Dias e, entre outros, Paes de Andrade.

Opositor visceral da ditadura, Alencar Furtado denunciou torturas de presos políticos e criticou a política econômica da dupla Médici-Delfim Netto, o então czar da economia. Por sua atuação incisiva, foi guindado ao cargo de primeiro vice-líder das oposições.

Em 1974, foi reeleito para a Câmara dos Deputados, com mais de 86 mil votos (46 mil votos a mais do que na disputa anterior). Logo, com a ida de Marcos Freire para o Senado e a cassação de Lisâneas Maciel, assumiu a liderança dos autênticos, tornando-se um dos mais firmes combatentes da ditadura, com um discurso sempre afiado. Assumiu a segunda vice-presidência do Legislativo e o comando da CPI que investigou as ações das multinacionais no Brasil.

Alencar Furtado teve o mandato de deputado federal cassado na ditadura | Foto: Reprodução

Em 1977, como líder da bancada do MDB, criticou, de maneira dura, o anteprojeto de reforma do Judiciário proposto pelo governo do presidente Ernesto Geisel. O governo perdeu no Congresso e, por isso, Geisel colocou o Legislativo sob recesso e impôs a reforma e aprovou o Pacote de Abril. O Congresso ficou fechado por 14 dias.

Em junho de 1977, o governo de Geisel cassou o mandato de Alencar Furtado, com base no AI-5, mostrando intransigência. Segundo o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da Fundação Getúlio Vargas, o deputado foi cassado por causa de seu pronunciamento num programa de rádio e televisão concedido ao MDB pelo Tribunal Superior Eleitoral.

“Durante o programa”, Alencar Furtado “rendeu homenagem a parlamentares cassados, presos e exilados, bem como aos demais cidadãos atingidos pela repressão política do regime originado do movimento político-militar de março de 1964 e reforçado pela edição do AI-5. Na ocasião em que perdeu o mandato, estava desenvolvendo a ideia de formação de um conselho de Estado que, além dos ministros militares, contaria com a participação de representantes do Legislativo e do Judiciário, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da OAB e Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Com essa fórmula, pretendia contribuir para romper o impasse institucional do regime político brasileiro”, sublinha o verbete da enciclopédia da FGV.

Alencar Furtado liderou o grupo dos Autênticos na Câmara dos Deputados | Foto: Reprodução

Retirado à força da política, Alencar Furtado retomou a profissão de advogado, atuando ao lado do senador Francisco Leite Chaves, do MDB, em Brasília.

Em 1978, como não podia disputar, bancou a candidatura de seu filho, Heitor Alencar Furtado, que foi eleito, pelo MDB.

Em 1979, lançou o livro “Órfãos do Talvez” e, com a Anistia, filiou-se ao PMDB e foi eleito deputado federal (seu filho, que era candidato a deputado estadual, foi assassinado por um policial militar).

Em 1984, votou pela aprovação da emenda Dante de Oliveira, que propunha Diretas Já. Com a derrota da emenda, apoiou Tancredo Neves para presidente, no Colégio Eleitoral.

Em 1986, rompido com o PMDB, disputou o governo do Paraná numa coligação formada pelo PDT, pelo PFL, pelo PMB e pelo Partido da Juventude. Perdeu para Álvaro Dias.

Em 1994, filiado ao PTB, disputou mandato de deputado federal, mas não foi reeleito. Ele passou a escrever livros, como “Salgando a Terra” e “A Posseira e o Doutor”.

Alencar Furtado era um político raro — um apóstolo da democracia. Decente, posicionado e corajoso. Foi cassado porque não aceitou a tutela da ditadura, não quis fazer parte do MDB que dizia “sim, senhor”. Integrava a bancada dos que diziam “não, ditador”. Os obituários publicados na imprensa, como o da revista “Veja”, não fazem jus ao grande político que foi, sobretudo em tempos tão difíceis, quando falar, de maneira crítica, era praticamente um crime, punível, por vezes, com a perda do mandato. (Euler de França Belém)

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