Pode, numa ditadura, um de seus membros permanecer democrático e não comungar com aspectos autoritários do regime? A pergunta pode parecer retórica, mas não é. Alguns dos próceres da ditadura civil-militar, como Petrônio Portella e Marco Maciel (1940-2021), permaneceram democratas e, por isso, abertos ao diálogo com a oposição. Talvez seja possível dizer que alguns membros da Arena, dados a sua moderação e o amadurecimento político, tenham colaborado para, em certos momentos, refrear a sanha discricionária dos militares e, mesmo, de vários civis, como Gama e Silva (que queria um AI-5 ainda mais duro que o proposto pelos militares).

Marco Maciel e Mário Covas: interlocução democrática | Foto: Reprodução

A atuação da Arena na moderação — relativa moderação — da ditadura é um assunto ainda pouco estudado. Porque, sendo o partido pró-ditadura, a Arena é execrada, inclusive pelos acadêmicos. A doutora em História Lucia Grinberg, autora do livro “Partido Político ou Bode Expiatório: Um Estudo Sobre a Aliança Renovadora Nacional-Arena (1965-1979)”, contou que, quando começou a estudar o assunto, alguns de seus colegas torciam o nariz para ela.

Quando o presidente Ernesto Geisel decidiu promover a Abertura — primeiro, a distensão —, líderes da Arena, como Petrônio Portella, se colocaram a serviço da incipiente redemocratização.

No período de transição para a democracia, Marco Maciel alinhou-se com Tancredo Neves, Aureliano Chaves e, entre outros, José Sarney. Em seguida, durante oito anos, o líder pernambucano foi vice-presidente no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002.

Marco Maciel e Fernando Henrique Cardoso | Foto: Reprodução

Marco Maciel era o vice dos sonhos. Seu comportamento institucional era exemplar e não criava problemas para Fernando Henrique. Pelo contrário, com sua discrição e eficiência habituais, contribuía para a estabilidade política do governo. Era moderado, conciliador, culto e sensato. Tinha um imenso senso histórico e de seu lugar na política. Por isso, não avançava o sinal e se deu muito bem com FHC. Era tão respeitado e admirado que se pode sugerir a respeito do “Chile” que era a unanimidade inteligente da política patropi.

Os liberais brasileiros são pouco ou mal estudados, sobretudo porque vários deles, os mais importantes, se alinharam com a ditadura. Mas precisam ser analisados para que se possa entender as particularidades da política patropi. Confunde-se muito as cousas no país: liberal, por exemplo, não é sinônimo de conservador, mas fica-se com a impressão de que é — dado o debate enviesado que se trava não apenas nas redes sociais. Sugerir que o liberal é necessariamente conservador é uma maneira de “demonizá-lo”, e, claro, de não compreendê-lo. Veja-se o caso do ex-deputado federal Vilmar Rocha (PSD): é liberal, mas não é conservador. É um iluminista do liberalismo — como Marco Maciel.

O jornalista Magno Martins lança o livro “O Estilo Marco Maciel” em Goiânia na quarta-feira, 22, às 18 horas, no Salão Nobre da Assembleia Legislativa. Talvez falte à política atual um pouco do estilo do professor, advogado, deputado estadual, deputado federal, senador, governador, ministro e vice-presidente. Um estilo que incluía sensatez, moderação, serenidade, inteligência, humanismo e respeito à divergência construtiva. Em suma, um lorde. (E.F.B.)