Institutos de pesquisa que fabricam resultados são os grandes derrotados de 2020

O Ministério Público se concentrou num instituto. Mas precisa investigar outros, sobretudo depois que os resultados saírem

Há “institutos de pesquisa” que não são institutos nem fazem pesquisas. São experts em fabricar resultados favoráveis àqueles que os pagam. O Ministério Público descobriu a ponta do iceberg. A partir do dia 16 deste mês, com os resultados eleitorais nas mãos, deveria compará-los com aquilo que determinadas pesquisas mostraram. Vai descobrir, possivelmente, disparidades incríveis.

Há institutos sérios, como Serpes, Grupom, Fortiori, Diagnóstico, Epom, Verus e outros. Mas há dezenas que só “existem” em períodos eleitorais. Recentemente, um “instituto” estava fazendo pesquisas e publicando os resultados fraudulentos em jornais. A sede do “instituto” fica — se sede é — na residência de sua proprietária (ou proprietário). Em Nerópolis, o candidato que apresentava em primeiro lugar, disparado, em todos os demais levantamentos era o último colocado. A rigor, apesar dos números, não havia pesquisa.

Promotores de justiça devem observar bem o que as pesquisas diziam e os resultados das urnas. A “triagem” será importante porque os “institutos” — indústrias da não-pesquisa — voltarão em 2022, daqui a um ano e dez meses, na disputa para governador, senador, deputado estadual e federal.

Há pesquisas que, feitas, são manipuladas? É possível. A partir da margem de erro — de 4%, por exemplo —, um estatístico competente pode puxar um candidato para cima ou para baixo. Ou seja, pode favorecer um postulante e prejudicar o outro. Uma pequena manipulação, difícil de ser apurada, pode colocar, por exemplo, o candidato “X” na frente do candidato “Y”. Como se sabe, a expectativa de poder, que seduz vários eleitores, fica com quem aparece em primeiro lugar.

Posta a questão dos criminosos fabricantes de resultados, é preciso sugerir outra avaliação. Mesmo pesquisas criteriosas, sérias e bem feitas, podem errar. Mas o erro não significa, necessariamente, manipulação.

Porque a pesquisa captura o instante, como se parasse o tempo por alguns momentos — dias, por exemplo. Mas não tem como captar o movimento da sociedade e as ações dos candidatos. Um dado da realidade, que chocou a população, pode mudar o quadro eleitoral de um dia para o outro. Aí se dirá: “A pesquisa errou”. Não se trata de erro. Na verdade, a pesquisa capturou um quadro que era verdadeiro num momento, mas o quadro mudou — e, nos últimos dias de campanha, muda muito rápido — e o resultado passa a ser outro.

Veja-se a situação de Anápolis. Em sua primeira pesquisa, o Serpes mostrou Antônio Gomide, candidato do PT, bem à frente. Na segunda pesquisa, houve uma virada, com Roberto Naves, do partido Progressistas, em primeiro lugar. As duas pesquisas estão certas, mostrando quadros variáveis. O equívoco se deu na análise de “O Popular”, talvez por falta de experiente da redatora, que, fiando-se unicamente na primeira pesquisa, ignorou o quadro político de Anápolis, no qual há mudanças e viradas históricas.

Pesquisas ajudam a ganhar a eleição? Ajudam, sobretudo quando contribuem para desanimar os apoiadores do candidato que não aparece bem. Mas o que realmente ajuda a vencer um pleito é um trabalho intenso de convencimento dos eleitores de que o projeto “A” é melhor do que o projeto “B”. Os eleitores observam, inclusive, como os candidatos apresentam seus programas de governo. Querem saber se o postulante é crível. Verificam também sua história pessoal.

Em suma, há pesquisas sérias que erram, e erram até muito. São, digamos assim, “traídas” pelo movimentar dos eleitores — que, quiçá na maioria, decidem seu voto nos últimos dias. Às vezes, simulam que estão indecisos, quando, na verdade, estão observando o quadro, verificando os candidatos e suas ideias. Como as pesquisas quantitativas são “dirigidas”, os eleitores que estão pensando e comparando são qualificados como “indecisos”. Em alguns casos, estão realmente indecisos. Mas, em dois ou três dias, mudam de ideia e uma nova pesquisa mostra outro resultado.

Portanto, quanto aos institutos sérios — e há vários, como os citados —, não se pode acusá-los de manipular pesquisas. Na verdade, erram e acertam. O que se deve criticar, e duramente, são os “institutos” que fabricam resultados. O Ministério Público deve ficar atento. Há mais de um — são vários — “instituto” problemático. Um só não deve virar o “Cristo” da eleição deste ano.

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