História fará justiça a Joaquim Roriz, o governador que fez uma reforma urbana em Brasília

Morto nesta quinta-feira, o ex-governador do Distrito Federal deve ser incluído entre os políticos progressistas do país. Ele chegou a ser filiado ao PT

Jarbas Silva Marques

Embora desde 1989 eu tenha votado em Lula e Joaquim Roriz, pelo fato de votar em Roriz fui rotulado de direitista, alienado por via de consequência de ter recebido um lote, ou estar recebendo leite ou uma cesta básica. Esse é o gueto invisível que me enclausuraram com mais de meio milhão de eleitores do Distrito Federal. O fato de continuar votando em Lula não retira de mim a adjetivação que os encarnados impingiram ad infindum.

Como não me julgo merecedor desses adjetivos, creio que devo referenciar porque votei em Joaquim Domingos Roriz.

Joaquim Roriz foi nomeado governador do DF pelo ex-presidente José Sarney | Fotos: divulgação / Fotos Públicas

Em 1964, quando foi instalada no Brasil uma Ditadura Civil e Militar, nos primeiros dias da repressão política no Distrito Federal — além evidentemente de parlamentares e lideranças políticas nacionais que aqui residiam — as lideranças locais mais procuradas na sanha repressiva, eram Geraldo Campos – fundador da Associação dos Funcionários da Novacap —, Adelino Cassis — presidente e fundador do Sindicato dos Bancários —, Fábio Bruno — Fundador da Associação dos Professores —, Albino Toffanetto — presidente do Sindicato dos Taxistas —, o líder camponês Perseghini e Lúcio Rezende da Fundação Zoobotânica.

Lúcio Rezende viveu clandestino entre Belo Horizonte e Governador Valadares até 1979, quando houve a Lei de Anistia.

Mas o que fez Joaquim Domingos Roriz, além dessa não alardeada solidariedade?

A sabedoria popular diz que “depois que a onça está morta, aparece sempre muitos valentes”. Os encarnados de hoje vendem a imagem de que são eles os únicos construtores das liberdades democráticas e da autonomia política do Distrito Federal.

Antes que o Distrito Federal tivesse autonomia política, um longo caminho foi percorrido e todos aqueles que nele moravam e queriam votar contra a Ditadura iam votar nos municípios goianos que circundam o DF. Luziânia se tornou uma cidadela emblemática nesta luta.

Joaquim Roriz e sua mulher, Dona Weslian | Foto: Facebook / Liliane Roriz

E para que ela se tornar o símbolo dessa resistência democrática, devo lembrar a ação de Walter José Rodrigues, José Roriz Tormin e Gilson Roriz que a percorreram casa por casa apanhando assinatura para fundar o Movimento Democrático Brasileiro – MDB – em Luziânia.

Assim também o fizeram Joaquim de Paiva e Zé Gordo em Cristalina, Francisco Campos Guimarães – o Sinhõ – em Planaltina de Goiás – ao qual se juntaram Edenval Vaz e Viriato Bragança, e o deputado federal cassado Antônio Magalhães e Zezito Saad em Formosa.

O vigor da luta democrática no Entorno do Distrito Federal se consolida em 1978 com a eleição de Joaquim Roriz como o deputado estadual mais votado e de Fernando Cunha como deputado federal.

Na reestruturação partidária, Joaquim Roriz, Henrique Santillo, Walter José Rodrigues e Onofre Quinan, participaram da fundação do Partido dos Trabalhadores em Goiás. Henrique Santillo foi o primeiro senador do PT no Senado Federal.

Começa então o patrulhamento encarnado. Os donos da verdade ressuscitam o “obreirismo” vivido quarenta anos antes nas fileiras comunistas. Onofre Quinan – embora tenha sido o financiador e mecenas da resistência democrática a ditadura em Goiás – e Joaquim Domingos Roriz são homens ricos e portanto não podem fazer parte do Partido dos Trabalhadores.

Iris Rezende, governador de Goiás, Joaquim Roriz, governador do DF, em 1993 : aliados políticos| Foto: arquivo pessoal / Jornal Opção

Discriminados, retornam a grande frente democrática que se estruturou no Partido do Movimento Brasileiro – PMDB -, sucessor do MDB, e passam a lutar pelas eleições diretas.

Joaquim Domingos Roriz elege-se deputado federal e além de ser vice-líder na Câmara dos Deputados, passa a coordenar a mobilização no Entorno do Distrito Federal.

No dia 15 de junho de 1983, saem lotados de Luziânia, Formosa, Planaltina de Goiás e Cristalina, 120 ônibus para garantir a realização do primeiro comício no Brasil pelas eleições diretas, que ocupou a praça dos esportes na Universidade Católica de Goiás, em Goiânia, encerrado com o discurso do presidente do PMDB, deputado Ulysses Guimarães.

Em Brasília, Lindberg Aziz Cury, na Associação Comercial e Maurício Corrêa, na OAB, dão sequência a luta iniciada por Terezinha de Jesus Zerbini no Comitê Feminino pela Anistia e por Pompeu de Souza, Antônio Carlos Sigmaringa Seixas, José Oscar Pelúcio e Geraldo Campos no Centro Brasileiro Democrático – CEBRADE – fundado por Oscar Niemeyer.

Mas isto é história. Voltemos ao meu gueto. Em 1988 Joaquim Domingos Roriz é nomeado Governador do Distrito Federal pelo presidente José Sarney, e herda toda a reivindicação e expectativa gerada a partir da década de 70, quando o Banco Nacional de Habitação – BNH – iniciou a construção de grandes conjuntos habitacionais. No Distrito Federal foi criada a Sociedade de Habitação de Interesse Social – SHIS – para fazer frente a grande migração que ocorreu de brasileiros que vinham para o DF em busca de habitação, migração esta, maior que a gerada inicialmente na construção de Brasília.

Joaquim Roriz assume o governo do Distrito Federal com três mil casas prontas em Samambaia e 125 mil inscritos na SHIS, milhares deles pagando prestações mensais.

As passeatas com milhares de inscritos na SHIS – que infernizaram o governo de José Aparecido – voltaram a acontecer na frente do Palácio do Buriti, e no dia 04 de outubro de 1988, Joaquim Roriz em vez de receber apenas uma comissão dos organizadores dos inquilinos de fundo de quintal de Taguatinga e Ceilândia, desceu de seu gabinete e, contrariando a segurança, foi à frente do Palácio para se reunir com os manifestantes no Eixo Monumental.

Ouviu os pedidos e as reivindicações e disse-lhes que se organizassem em associações onde moravam que ele iria pessoalmente discutir com eles, Chama o arquiteto José Eustáquio, diretor da SHIS, e determina a confecção de um cadastro dos inscritos que tivessem uma maior quantidade de dependentes e a menor renda.

A realidade objetiva põe fim a sua utopia social; o agente financeiro do Governo Federal deseja o contrário.

Chama então o engenheiro Newton de Castro, a arquiteta Ivelise Longhi, e o diretor-técnico da Terracap José Pinheiro, para encontrar a solução para os milhares de inscritos na SHIS e as 61 invasões na área tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, conseguida pelo governador José Aparecido de Oliveira no dia 7 de setembro de 1987 em Paris, e que corria perigo de ser revogada face as invasões em todas as áreas de Brasília.

Em razão dessa realidade objetiva e inadiável, decidiu-se pela remoção das invasões de Brasília procurando reassentá-los não em casas, como foi feita na Campanha de Erradicação de Invasões na década de 70 que gerou a Ceilândia.

Assim nasceram os assentamentos, já que as terras eram de propriedade do governo e não de especuladores imobiliários.

Joaquim Roriz sem empunhar uma bandeira reformista — e a mobilização popular pelas Reformas de Base foi uma das razões alegadas para o Golpe Militar de 1964 — iniciou uma “reforma urbana” na capital da República.

Começa aí a ser erigido o gueto em que estou aprisionado. Ao iniciar essa política pública, Joaquim Roriz tem a sua imagem espalhada por todo o país como o “Produtor de Favelas”. E, se inicialmente esses assentamentos tinham água de chafariz ou de caminhões tanques, luz elétrica e ruas sem pavimentação, hoje são cidades com infraestrutura básica superior a maioria das capitais dos estados e cidades com população superior a 300 mil habitantes.

Esses brasileiros que antes viviam em condições sub-humanas, hoje tem apenas parte da cidadania. A cidadania política lhes é negada porque ainda são pobres, alienados e consequentemente fazem parte do gueto azul. Não importa se aqui chegaram em 1957, para na condição de “candangos” construírem a capital do País, e removidos da Candangolândia, Velhacap, Lonalândia, Morro do Urubu, formaram a Ceilândia, Samambaia e as cidades que estruturaram uma conturbação urbana que em 43 anos tem a população de um país latino-americano como o Uruguai, por exemplo, e que além de interiorizar o progresso, impediu a internacionalização da Amazônia e do Centro-Oeste, garantindo a continentalidade do Brasil.

Nem tudo são flores, o gueto dos encarnados – aqueles que não são alienados, analfabetos, pobres ou miseráveis – gerou o tanatos social do Distrito Federal. Ele começa em 1973 com o assassinato de Ana Lídia, envolvendo filho de ministro de Estado da Ditadura Civil e Militar, onde drogas, atavismo e o incêndio do corpo daquela pequena linda mártir da desagregação social que se iniciava. Segue-se a promiscuidade da repressão política com policiais corruptos e criminosos no assassinato de Mário Eugênio, para em seguida configurar o produto mais perigoso do gueto social e econômico que não está no território dos “azuis”: a amoralidade, a desumanidade e o niilismo que dita a impunidade de se matar a pontapés o jovem Marco Antônio Pontes.

Essa patologia social fez que mendigos, pobres e índios se prestem a serem vítimas de brincadeiras piromaníacas ou essa última de um pobre garçom morto a cadeiradas e pontapés.

Quando Roriz, ainda no início da década de 90, pensou na construção do Metrô, o gueto insinuava o perigo que representava as levas e levas de marginais sociais e econômicos que ele poderia despejar em Brasília.

Temo por isto. Em 1980, como jornalista, testemunhei uma reunião na Associação de Moradores do Novo Gama em que moradores pediam a construção de um muro de mais de seis metros para os protegerem dos pobres do Pedregal. Nessa época o tanatos social já começa a ser produto de exportação.

Mas, de todos os rótulos que recebi como “azul”, o que mais me feriu foi de ser chamado de amigo dos grileiros. Ora, no gueto dos azuis foram dados lotes como uma política social de governo, e lá não tem grileiro, tem no máximo um outro tipo de criminoso social; o profissional de invasão que recebe um lote e depois vende indevidamente.

Quem é o verdadeiro amigo do grileiro? Concordo com o professor da UnB, Argemiro Procópio, o amigo do grileiro é todo aquele que compra lote em condomínio feito em terras públicas. Todos dois são criminosos, quem compra e quem vende.

As terras do Distrito Federal desde o dia 30 de abril de 1955, quando o governador de Goiás, José Ludovico de Almeida, criou a Comissão de Cooperação da Mudança da Capital Federal, presidida pelo doutor Altamiro de Moura Pacheco e que promoveu as compras e as desapropriações das terras para a edificação da Capital da República, só tem duas origens cartorárias: Luziânia e Planaltina.

Ora, quem dá liminar para grileiro fazer condomínio? Não é o Poder Executivo, é o Poder Judiciário. Quem reconhece a cessão de direito ou uma procuração passada em cartório diante do Distrito Federal de mais de 500 quilômetros, quando a cadeia dominial das terras se inicia nos cartórios de Planaltina e Luziânia? Quem reconhece escritura passada em cartórios distantes de Brasília três décadas depois do proprietário estar morto e enterrado?

Por que a Advocacia da União só descobre que tem condomínio clandestino em terras da União três dias antes da eleição?

Parece que há anos nenhum membro do Ministério Público ou da Advocacia Geral da União não vai à Taguatinga. Se algum deles tivesse ido, veria que a 500 metros do centro de Taguatinga se inicia talvez o maior condomínio do Brasil em terras da União, e que atende pelo nome de Vicente Pires e está quase chegando no Setor de Indústria.

Como diria Stanislaw Ponte Preta: “ou restaure-se a moralidade ou todos se locupletem”.

Será que não tem nenhum membro do Poder Executivo, do Legislativo ou do Judiciário que tenha lote ou mansão em condomínio?

Quem são verdadeiramente os amigos dos grileiros?

Lembro-me da sentença de Pitigrilli: “Atrás dos falsos moralistas se escondem os velhacos”.

Queria — finalmente — como penta eleitor de Lula fazer alguns pedidos e poucas recomendações. O primeiro pedido é para que ele construa dois grandes hospitais públicos, um no Estado do Tocantins e outro no oeste do Estado da Bahia, evitando assim que nossos irmãos do norte e do nordeste tenham que se deslocar mais de 3.000 quilômetros para virem em busca de saúde no Distrito Federal.

O segundo pedido, é para não se contaminar com o fel dos derrotados na última eleição. Brasília é patrimônio do povo brasileiro e da humanidade, e depois dos estados nordestinos e de São Paulo, o Distrito Federal é a terceira maior colônia de nordestinos.

Por último, presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, se o senhor quiser voltar as suas origens, não precisa viajar a Pernambuco para comer uma “Buchada de Bode”, ali no Mercado Diamantino, na Cidade Livre desde 1957 tem initerruptamente. E, para povoar os sons da sua infância, se o senhor quiser ouvir embolada, desafio, galope a beira-mar e cantigas é só ir no território dos “azuis”, o Zé Aparecido fez a “Casa do Cantador” na Ceilândia.

Joaquim Roriz morreu na quinta-feira, 27. A história lhe fará justiça, ao avaliá-lo pelo conjunto do que fez.

Jarbas Silva Marques é professor e jornalista. Foi preso político da ditadura militar de julho de 1967 a maio de 1977.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.