Ex-integrante da CUT ficou milionário ao operar dinheiro do FI-FGTS para a Odebrecht

Delatores da Odebrecht dizem que André Luiz de Souza recebia propina para intermediar recursos do FI-FGTS e diretamente do FGTS

André Luiz de Souza: o ex-integrante da CUT que faturou milhões de reais com negócios envolvendo o FI-FGTS | Foto: Ana Paula Paiva/Valor Econômico

A repórter Carolina Mandl, na reportagem “Ex-sindicalista operava para Odebrecht em Conselho” (“Valor Econômico”, quarta-feira, 26), traça um breve perfil dos negócios de André Luiz de Souza, ex-sindicalista que mantém ou mantinha ligação com a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Segundo o jornal, ele teria intermediado negócios de 3 bilhões de reais do FI-FGTS para o Grupo Odebrecht. É o que sustentam delatores da empresa nos processos da Operação Lava Jato. O FI é o fundo de investimentos em infraestrutura que usa recursos do FGTS. O advogado do ex-sindicalista, Angelo Bellizia, afirma que seu cliente não vai se manifestar agora.

André Luiz de Souza criou empresas de consultoria e alavancou negócios da Odebrecht e de outras empresas, como Andrade Gutierrez. “Era a ele que, de acordo com oito delatores, a empresa recorria e pagava quando precisava liberar recursos do FI-FGTS para os setores de transportes, saneamento, energia e incorporação imobiliária”, relata o “Valor”. “Por seus trabalhos, Souza recebeu algumas dezenas de milhões de reais”, anota Carolina Mandl.

O “Valor” sustenta que, além de facilitar negócios com o FI-FGTS, André Luiz de Souza teria articulado negociação direta de recursos do FGTS para a Odebrecht.

O ex-sindicalista da CUT atuou na área de aconselhamento e decisão do FGTS de 1995 a 2011 — durante os governos do PSDB e dos petistas Lula da Silva e Dilma Rousseff. Mesmo atuando na Caixa Econômica Federal, André Luiz de Souza contribuía para a Odebrecht captar recursos do fundo. O ex-sindicalista usava as empresas de consultoria Contrathos e Nova Advisors. Havia conflito de interesse, mas ninguém, até certo momento, havia apontado o problema.

A Controladoria-Geral da União constatou conflito de interesse na liberação de 3 bilhões de reais para incorporadoras imobiliárias. A CGU investigou André Luiz de Souza, então “sócio de sete empresas de consultoria no ramo habitacional parceiras” da Caixa Econômica Federal, por conflito de interesse. Dois outros ex-membros do Conselho Curador do FGTS, Celso Petrucci (sócio de Souza) e Paulo Eduardo Cabral Furtado, também foram investigados. As empresas do ex-integrante da CUT trabalharam para seis incorporadoras. A Odebrecht era uma das clientes.

Num e-mails, Marcelo Odebrecht aponta André Luiz de Souza como “nosso parceiro do FGTS e do FI-FGTS”. A Ask Capital, empresa do consultor, prestou serviços para a OAS, Odebrecht e UTC na criação de um polo industrial na Bahia. Os delatores da Odebrecht se dividem em relação ao ex-membro da CUT. Uns dizem que seus serviços eram técnicos. Outros sugerem que recebia propina para facilitar os negócios da empresa. Henrique Valadares, ex-executivo da Odebrecht, prefere o termo propina para qualificar seu “trabalho”. A empresa recebeu um empréstimo de 1,5 bilhão de reais e pagou, segundo Henrique Valadares, 10 milhões para André Luiz de Souza. Fernando Santos Reis, da Odebrecht, fala em apoio técnico.

Em 2009, a Odebrecht Ambiental conseguiu um empréstimo de 650 milhões de reais, via FI-FGTS, e teve de pagar, segundo delação de um executivo, 8 milhões de reais para André Luiz de Souza. A propina foi intermediada por Newton Azevedo, diretor de relacionamento institucional. Parte do dinheiro foi depositada no exterior. Os dois tinham um esquema e ficaram com o dinheiro. A conta no exterior está no nome de Newton Azevedo. O Ministério Público da Suíça impediu o repatriamento do dinheiro.

André Luiz de Souza foi decisivo na criação ou consolidação da Odebrecht Transport, ao conseguir um financiamento de 1,3 bilhão de reais. A propina teria sido de 20 milhões de reais. O consultor participou de outros negócios da Odebrecht, segundo o “Valor Econômico”.

Mesmo com irregularidades tão flagrantes, a Caixa disse ao “Valor” que as “decisões de investimento do FI-FGTS revestem-se de conteúdo exclusivamente técnico e de transparência”.

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