Espera-se que retirada de Thiago Peixoto da política seja um “até breve” e não um “adeus”

Político que é um intelectual público, o deputado federal adaptou o saber acadêmico moderno ao cotidiano, mas esbarrou na força do corporativismo

Euler de França Belém

Na década de 1950, o Brasil tinha políticos como Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, Milton Campos, Bilac Pinto. Mesmo na ditadura, despontaram Tancredo Neves — antes, havia sido ministro da Justiça do governo democrático de Vargas —, Ulysses Guimarães, Petrônio Portella, Henrique Santillo. Depois do “fim” da ditadura, pontificaram Tancredo Neves, por um brevíssimo momento, Ulysses Guimarães, Mário Covas. Em seguida, reinaram “sumidades” como José Sarney e Fernando Collor. A política piorou, durante certo momento, mas teve uma certa grandeza com Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva (trata-se de um grande político, independentemente de estar preso; e, apesar da prisão por corrupção, tem mesmo certa grandeza, que será reconhecida pela história, não pelos homens do presente, que não avaliam pela média, e sim pelos extremos). Em Goiás, entre 1982 e 2018, não se pode dizer que a safra política foi ruim. Porque não foi. Porque não é.

Thiago Peixoto, Deputado Federal

Iris Rezende, Henrique Santillo, Mauro Borges, Iram Saraiva, João Divino Dorneles, Juarez Bernardes, Irapuan Costa Junior, Adhemar Santillo, Lúcia Vânia, Nion Albernaz, Mauro Miranda, Pedro Wilson (eis um petista decentíssimo), Marconi Perillo, Paulo Roberto Cunha, Rubens Otoni, Luis Cesar Bueno, Antônio Gomide, Aldo Arantes, Eurico Barbosa, Frederico Jayme, Raquel Teixeira, Vilmar Rocha, Thiago Peixoto, Adriana Accorsi, Alexandre Baldy, Maguito Vilela, Daniel Vilela, João Campos, Darci Accorsi, José Eliton, Júlio da Retífica, Ronaldo Caiado são políticos que provam que Goiás nunca esteve mal de políticos. Pode-se não gostar de um ou de outro — de maneira racional ou idiossincrática —, mas é difícil provar que sejam políticos de má qualidade. Nem sempre acertaram — Iris Rezende não está indo bem como prefeito de Goiânia, mas sua história, no geral, é positiva —, mas a média é altamente positiva. Goiás tem, portanto, políticos de valor inquestionável.

O deputado federal Thiago Peixoto é um dos políticos de mais valor. Mas, premido pelas circunstâncias — queria ser vice do governador José Eliton, mas teria sido preterido por seu partido, o PSD —, está desistindo, se não inteiramente da política (nunca se desiste inteiramente da política), ao menos de disputar a reeleição. Se for para a Califórnia, onde estão instaladas algumas das melhores universidades dos Estados Unidos, é evidente que, do ponto de vista pessoal, o jovem político sairá ganhando. Pois estará cuidando da expansão de sua formação pessoal-profissional. Em seguida, poderá trabalhar como consultor internacional, executivo de algum think tank de primeira linha ou professor universitário. Em Harvard, mantém contato com Roberto Mangabeira Unger, que é mais valorizado no Tio Sam do que no Brasil. Deu aula para o ex-presidente Barack Obama, que o respeita.

Thiago Peixoto | Foto: Arquivo

Se Thiago Peixoto ganha, em termos intelectuais e até financeiros — um executivo internacional fatura muito mais do que políticos —, Goiás perde. A rigor, está no “meio” de uma longa e bem-sucedida caminhada. Neto de um político, Peixoto da Silveira — médico que perdeu eleição de governador para Otávio Lage, na década de 1960 —, e filho de um economista brilhante, o doutor em Economia e ex-ministro Flávio Peixoto, é talhado para o poder e, sobretudo, para a gestão. É um político vocacionado, da estirpe relatada pelo sociólogo alemão Max Weber. Mas sua vocação para a política tradicional, na qual o deputado federal é mero despachante de prefeitos, é mínima. A político do “tapismo” — o tapinha nas costas — não lhe agrada. Agasta-o. Como não há como ser moderno de maneira integral, porque não se ganha eleição só falando aquilo que é fundamental, mas às vezes não é agradável, é preciso adequar-se.

Nascido em Brasília, há 44 anos, Thiago Peixoto voltou para a Goiás, onde se tornou deputado e, secretário de uma das gestões de Iris Rezende na Prefeitura de Goiânia — brilhou tanto que desagradou aliados vagalumes do decano emedebista. O talento do político e economista sempre incomoda os que nada querem fazer, exceto adotar o discurso da mudança… para não mudar. Em seguida, foi eleito e reeleito deputado federal.

Para ganhar experiência administrativa, Thiago Peixoto aceitou ser secretário da Educação e de Gestão e Planejamento. Na Educação, empreendeu uma modernização que contribuiu para melhorar os índices de Goiás no Ideb. Não só. Tornou a administração na área tão moderna quanto participativa — o que, curiosamente, não se diz. O que é explicável. Dizê-lo seria revalorizar um administrador que deu certo, mas ficou com a imagem de que não deu certo. Crucificá-lo é repetir velhos argumentos da esquerda corporativa e não entender o que realmente fez na Educação.

Mas o setor é complexo e, se o gestor não for populista, aceitando certas pressões do corporativismo, sai desgastado. Na verdade, o desgaste de Thiago Peixoto na Educação decorre mais de seu sucesso como gestor — melhorando a escola para o aluno e, consequentemente, para todos — do que de qualquer fracasso. Como adota a tese de que é preciso “fazer”, e não apenas “discutir”, desagrada os que, na prática, não querem mudar — só debater a e sobre mudança. Mudar é, por vezes, doloroso — o que nos leva a optar, não por mudar, e sim pelo discurso da mudança, que é mais prazeroso, ainda que ineficiente.

O intelectual público realista

Há um aspecto sobre Thiago Peixoto pouco comentado. Dada sua excelente formação intelectual — está sempre lendo os melhores livros, com uma curiosidade insaciável, mas não para posar de culto, e sim em busca de informações que possam melhorar a vida de seus contemporâneos —, sempre traz novos projetos e ideias para o debate. A integração política do Centro-Oeste (o Brasil Central), que tanto agrada o ex-governador Marconi Perillo — outro político que tem vocação de estadista —, tem o dedo de Thiago Peixoto. Sim, a ideia de integração não é nova, há vários projetos a respeito — inclusive do governo federal —, mas, com o apoio decisivo de Marconi Perillo, Thiago Peixoto contribuiu para tornar a integração política uma realidade.

O brilhante sociólogo americano Russell Jacoby, autor dos livros “O Fim da Utopia — Política e Cultura na Era da Apatia” e “Os Últimos Intelectuais”, diz que os “intelectuais públicos” são vitais para a sociedade. São os intelectuais que saltam os muros acadêmicos e contribuem, de fato, para a melhoria da sociedade. Eles participam dos debates nos jornais, nas revistas e, até, na televisão — não ficam circunscritos ao meio universitário. Pois Thiago Peixoto é um dos poucos políticos que são intelectuais públicos, os que, entendendo o saber acadêmico, percebem que é preciso conectá-lo à vida real. Pode-se dizer que Thiago Peixoto qualifica a política e que a política, ao dotá-lo de realismo, o qualifica.

Espera-se que a retirada de Thiago Peixoto seja um “até breve” e não um “adeus”. O Brasil, e não apenas Goiás, perde com o seu afastamento voluntário.

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Luciano Almeida

Thiago Peixoto é a maior e melhor revelaçào na política goiana no século XXI. Deputado estadual e federal (duas legislaturas) Thiago Peixoto possui qualificação invejável e tem um comportamento politico diferenciado, alheio às praticas populistas que infelizmente vicejam no seu atual partido, o PSD. Dedicado aos estudos e comoromissado com o aperfeiçoamento – e tambem conhecedor, por sentir na pele, da dimensão maquiavélica das práticas nefastas da politicagem velhaca – Thiago Peixoto deverá retornar à política partidaria ainda mais preparado para os embates eleitorais e provavelmente será o próximo prefeito de Goiânia. Sicesso sempre, deputado Thiago Peixoto!