Enfrentamento ao Covid-19 não pode paralisar atendimento de outras doenças

Não deveríamos somente criar mais hospitais de campanha para atender às vítimas da pandemia. Deveríamos separar completamente o atendimento dos pacientes

Alessandro Rios Stival

Especial para o Jornal Opção

Após dois meses de envolvimento intenso no enfrentamento à pandemia do Covid-19, seja observando as ações adotadas no mundo, seja na minha atuação na chefia de um pronto-socorro de um renomado hospital privado e na direção clínica de uma unidade hospitalar pública de grande porte, tenho chegado a algumas conclusões que gostaria de dividir com a sociedade.

Neste momento de luta contra uma situação que abala a saúde pública em todos os continentes, e por consequência abala as estruturas econômicas e sociais de quase todas as nações do globo, torna-se imperioso pensarmos “fora da caixinha”, avaliarmos todos os prismas da situação. Muitas das ações e medidas adotadas no início foram tachadas de insanas e alarmistas, mas com o tempo foram tomadas como regras e colocadas em primeira escolha. Outras, que eram a regra, foram abandonadas e ditas proscritas.

Há semanas venho minimizando meus julgamentos de certo ou errado, de loucura ou perspicácia, quando me deparo com ações ou medidas tomadas por esse ou aquele governante, ou esse ou aquele “especialista na área”. Tenho tentado aprender e tentar captar o que de bom ou mal posso observar em determinada atitude relacionada ao enfrentamento do Covid-19. Muita coisa nos é repassada como dado cientificamente embasado, mas pouco ainda pode ser avaliado de forma realmente científica.

Digo isso de forma tranquila porque aprendi muitas coisas durante os quase cinco anos em que estive envolvido com pesquisas científicas de alto nível nos Estados Unidos (Research Fellowship). Aliás, diga-se de passagem que o laboratório de pesquisa da universidade que eu frequentava ficava a menos de 500 metros da sede do CDC (Centers for Disease Control and Prevention — EUA), no mesmo campus. Aprendi que trabalhos científicos são apenas publicações do ponto de vista ou da experiência de um ou mais autores até que sejam avaliadas e escrutinadas de forma intensa e racional pelos seus pares. Trabalhos científicos de peso e que realmente fornecem respostas objetivas têm que ser feitos com muitos critérios, afastando-se os fatores “confundidores”, o viés, o erro sistemático ou tendenciosidade. Isso é quase impossível de ser realizado em uma análise de curto prazo ou com metodologia não padronizada.

Não é culpa dos pesquisadores em si. É um fato que ocorre simplesmente porque não tivemos tempo suficiente para fazer as análises de uma forma que se minimize o viés, pois no momento analisamos dados de países muito diversas umas das outras, ou de capacidade hospitalar e tecnológica muito diferentes, e ainda com líderes locais que implementaram ações diferentes em tempos diferentes… ufa! Isso só para citar alguns fatores que interferem na capacidade de interpretar os artigos e análises cientificas produzidas neste curto período de tempo entre o início da epidemia e o estágio atual da pandemia que vivemos.

Consultas e cirurgias eletivas estão suspensas,ou parcialmente

suspensas, indefinidamente. É preciso repensar tal decisão

E isso falando de publicações sérias, com bons fundamentos literários e previamente avaliados por notórios grupos editoriais médicos. Fora as publicações e notícias espalhadas pela imprensa baseada em achismos ou opiniões de ditos “experts”. Longe de mim parecer irônico, mas neste tipo de pandemia que vivemos não existe nenhum “expert”, pelo simples fato de ninguém ter passado por situação similar. Muitos até já passaram por epidemias ou pandemias, porém nenhum passou por nada com apelo e com um “viés” social de tamanha envergadura — é a pandemia social — alastrada e conectada simultaneamente em todo mundo pelas redes sociais, além da forma massacrante que nos é passada pela mídia tradicional. E esse simples (ou na verdade complexo) fator está fazendo dessa pandemia uma coisa jamais vista.

Vivemos a realidade de outros como se fosse a nossa própria. Sentimos a dor da perda sem ao menos estarmos com entes queridos doentes. Reagimos em Goiás como se estivéssemos em São Paulo ou em Milão. E não me entendam mal, não é crítica, até porque muitas das boas medidas tomadas foram feitas por ver o que estava ocorrendo em outros lugares e reagir de forma antecipada para conter uma situação pior. O que quero dizer é que a partir de agora, ou de daqui a pouco, teremos que tomar as nossas próprias decisões, baseadas na nossa realidade, pois no momento a doença já está na nossa comunidade ou região. O vírus já está por aqui. Já temos nossa história com ele. Estamos chegando em um momento de ter que tomar atitudes baseadas em nossos próprios estudos e avaliações, pois a realidade do outro pode não ser a mesma que a nossa.

Nós médicos, que lidamos na prática com os doentes acometidos pelo vírus, até que podemos nos dar ao luxo de continuar analisando as condutas médicas tomadas por outros colegas distantes, em outros países e cidades. Mas os administradores de instituições de saúde pública ou privada, os líderes e governantes, e porque não dizer os grandes pensadores e influenciadores do nosso tempo, precisam começar a agir de forma mais objetiva em cada local ou região. E vou além: devemos pensar em cada seguimento da sociedade e da produção. Pois na minha opinião já passamos da fase de discutir se a doença é séria ou se matará muitos por aqui ou não. Temos sim que pensar todos em como sair dessa situação já instalada, como criar ou implementar soluções.

Não vejo isso como tarefa fácil, porque o Brasil tem dimensões continentais e por consequência tem realidades muito diferentes em diversas unidades da Federação. Por isso a dificuldade em unificar o discurso, ou na verdade, a dificuldade em segmentar o discurso. Recorramos à filosofia quando nos ensina que temos que tratar de forma desigual os desiguais, pois se tratarmos todos da mesma forma, com certeza estaremos incorrendo em grandes erros. E nesse momento, mais que em vários outros, devemos tentar errar o menos possível.

Foto: Reprodução

Vou partir aqui para uma visão em minha área de atuação, a saúde. Mas fiquem tranquilos que não vou tentar passar uma cura milagrosa. Vou falar sobre a minha visão da reação que o sistema de saúde público e privado poderia ter para minimizar os vários e pesados problemas relacionados ao enfrentamento da pandemia.

Estamos com consultas e cirurgias eletivas suspensas, ou parcialmente suspensas, indefinidamente (alguns órgãos reguladores já se pronunciaram suspendendo até pelo menos 31 de maio). Serão pelo menos mais dois meses pela frente, fora o mês de março que já acabou e que foi comprometido pelo início da suspensão de atendimentos e procedimentos. Estamos falando, então, de no mínimo três meses sem receitas e com gastos grandemente elevados. Além do que, tudo indica, a abertura posterior será gradual e levará tempo indeterminado para voltar ao ritmo normal.

Vejo que precisamos de atitudes hoje para colher frutos em médio prazo, pois nem penso em falar longo prazo, já que nenhuma instituição sobreviverá ao longo prazo do jeito que estamos levando as coisas. E não é somente por conta da parte econômica. Pois tão importante quanto o sofrimento da economia será o desfecho das agruras de saúde que vivem aqueles que precisam de tratamento ou consulta que hoje estão rotuladas como “eletivas”, e por isso coibidas pelas autoridades.

Sou defensor e incentivador do estabelecimento de unidades hospitalares e clínicas especificas para o tratamento e avaliação de pacientes portadores de sintomas gripais/respiratórios, os suspeitos de Covid-19. São os já falados “hospitais de campanha”. Mas o conceito que defendo vai um pouco além. Não deveríamos somente criar mais hospitais de campanha ou simplesmente escolher unidades de saúde já existentes para atender às vítimas da pandemia. Deveríamos separar completamente o atendimento desses pacientes. Isso para poder cuidar da saúde de todos os outros doentes que sofrem de todas as outras doenças que circulam pelo mundo e afligem 100 vezes mais a população do que esse famigerado vírus.

Hospital de campanha para atender doentes de Covid-19 | Foro: Reprodução

Essas pessoas não estão sendo adequadamente tratadas neste momento e isso irá piorar a qualidade de vida ou o risco de sequelas ou mesmo de morte. Para terem uma ideia melhor, com as sanções a quase todo tipo de atendimento em vigor no momento, para se realizar uma cirurgia o tramite é tão burocrático e inseguro para as instituições e profissionais (com risco de multas ou glosas), que muitos estão sendo postergadas e adiadas. Atrasos estes que em muitos casos pode significar sequelas graves ou mesmo uma evolução fatal. Isso não é algo que pode esperar tempo de isolamento social ou de provável “lockdown”. Tempo é um “patrimônio” que milhares de pessoas doentes (não covid-19) infelizmente não tem.

Falemos em “patrimônio de tempo” também sobre as instituições privadas de saúde: A saúde financeira da grande maioria dos hospitais e clínicas pelo Brasil é algo preocupante. Adiciona-se a isso o fato de serem grandes empregadores. Para se ter uma ideia, um hospital de médio porte (com cerca de 250 leitos) necessita de cerca de 1000 trabalhadores entre funcionários e terceirizados. São três a quatro mil pessoas dependentes direta ou indiretamente.

Precisamos colocar essas instituições para funcionar. E como seria isso? Precisamos criar “hospitais de campanha” também no setor de saúde privada. Isto é, definir qual hospital atenderá os pacientes suspeitos de Covid-19 e deixar os outros para atender os pacientes de todas as outras enfermidades. Nos hospitais “livres” de possíveis infectados e suspeitos poderíamos atender, operar e tratar a maioria da população. Gerando assim segurança para o paciente (que tem medo de ir a hospitais que atendem casos de Covid-19 e também aos profissionais). E dessa forma haveria como argumentar com as entidades públicas reguladoras e Ministério Público para que permitam que seja restabelecido os tratamentos “eletivos”.

O poder público está em vantagem, pois já definiu alguns “hospitais de campanha”, mas precisa evoluir nisso. Precisa ir se organizando para separar instituições só para suspeitos da Covi-19 e as outras deveriam ir gradativamente sendo abertas e direcionadas para receber os outros pacientes, realizar cirurgias e atendimentos, que também estão paradas no setor público de saúde.

No setor de saúde privada, as mudanças devem ser implementadas o quanto antes. É irreal, nada eficiente, contra produtivo e maléfico obrigar todas as instituições de saúde e hospitais a atender pacientes suspeitos de Covid-19. Está sendo exigido por mandados vindos de diferentes órgãos do Judiciário e por operadoras de saúde que todos os hospitais das redes credenciadas se preparem de “forma adequada” para receber pacientes confirmados ou suspeitos de Covid-19. E isso com equipe preparada e treinada, áreas de acolhimento especificas nos prontos-socorros, áreas de isolamento de enfermarias ou apartamentos, área de tratamento semi-intensivo e unidades de terapia intensiva dedicadas e separadas para esses pacientes.

Isto está gerando gastos muito significativos com obras dentro dos hospitais, além de custos que estão exorbitantes dos equipamentos de proteção individual (EPI´s) e de treinamento das equipes, que aliás estão desfalcadas pelo pânico de poder atender um paciente Covid-19. Aliado ao fato principal de os hospitais não estarem realizando cirurgias eletivas e nem consultas eletivas, e as próprias consultas em pronto-socorro caíram em cerca de 80%.

Traduzindo, o ganho das unidades diminuiu cerca de 80% e os custos aumentaram muito. A conta não fecha. Mas essa máxima de “a conta não fecha” não é restrita somente aos hospitais, claro, pois toda economia está afetada e todos os setores produtivos e de prestação de serviço estão em risco. Porém, falar de “conta não fecha” em hospitais é sem duvida mais assustador do que em outros setores neste momento, pois a crise está relacionada a uma pandemia em saúde, que precisa ainda mais dos hospitais e dos profissionais de saúde para atender as pessoas doentes.

Mas essa realidade poderia mudar de forma significativa se fossem definidos hospitais de atendimento de pacientes suspeitos e hospitais de atendimento geral.

Alguns podem questionar: mas isso seria factível? Sim, eu digo, de uma forma bem objetiva. Vamos tomar por exemplo Goiânia e a rede de hospitais privados de alta complexidade na capital. São entre 15 e 20 unidades. Caso se juntem e decidam formar uma unidade hospitalar especifica para tratar e diagnosticar pacientes covid-19 (hospital de campanha privado) tenho a convicção que não hesitariam em tomar algumas atitudes:

– Emprestar kits UTI – respiradores, monitores e demais insumos e equipamentos (só com esse empréstimo, o tal hospital de campanha privado teria entre 75 e 100 leitos de UTI);

– Doar insumos que usariam nos seus próprios leitos “covid-19” em suas próprias unidades para a unidade de campanha;

– Disponibilizar medicamentos para uma farmácia central criada para de lá sair os medicamentos necessários aos cuidados dos pacientes no hospital de campanha;

– Disponibilizar 10% do seu quadro de funcionários e médicos para prestar serviço no hospital de campanha – isso diluiria o tempo de exposição dos profissionais em local de maior risco, o que seria muito bem vindo no meio dos profissionais;

Tudo isso ainda apoiado no elo mais forte dessa união, que seriam as operadoras de saúde (Unimed, Bradesco, Amil, Sulamérica etc.), pois as operadoras são as que detêm os recursos financeiros próprios em grande volume e a capacidade de negociar nas altas esferas administrativas e políticas. Feito isso, os hospitais poderiam estar livres para tratar e operar todos os outros pacientes. E assim a saúde voltaria a andar em um certo trilho no meio dessa pandemia, tanto em termos de tratamentos aos que precisam em todas as áreas, quanto para a saúde financeira dos hospitais e clínicas, evitando um mal maior logo ali na frente.

Alessandro Rios Stival é médico-cirurgião, pesquisador e escritor. É membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, membro da Sociedade Americana de Gastro-Cirurgiões Endoscópicos, chefe clínico do pronto-socorro do Hospital Neurológico e diretor clínico do Hospital Municipal de Aparecida, HMAP. E tem certificação médica no Brasil e nos EUA.

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