Delegado diz que polícia está demorando demais a esclarecer o assassinato de Zé Gomes

O especialista em crimes intrincados pergunta: “O que está atrasando a conclusão do inquérito: tudo leva a crer que a polícia está com dificuldade de estabelecer o nome do mandante ou dos mandantes, se existem mandantes?”

José Gomes da Rocha, Vanilson Pereira e Gilberto Ferreira do Amaral: o terceiro matou os dois primeiros. Teria sido induzido ao crime?

José Gomes da Rocha, Vanilson Pereira e Gilberto Ferreira do Amaral. Por que o funcionário público matou o político e o policial militar: surto psicótico ou crime encomendado?

O assassinato de José Gomes da Rocha — que havia sido prefeito de Itumbiara, deputado federal e um dos principais líderes do PTB em Goiás — e do cabo Vanilson Pereira, da Polícia Militar, completa dois meses daqui a 12 dias, no dia 28 deste mês. Por cautela, sobretudo porque está fazendo uma investigação criteriosa — para não se cometer injustiças —, a Polícia Civil optou por não divulgar partes da apuração (o objetivo seria apresentar um quadro completo, fechado, definitivo). Informalmente, comenta-se no meio policial que o inquérito está quase concluído, com a possibilidade de três vertentes. Primeira, Gilberto Ferreira do Amaral, o Béba, teria matado José Gomes da Rocha e Vanilson Pereira — que não seria seu “alvo” principal — em seguida a um surto psicótico. Segunda, Gilberto do Amaral teria ouvido de pessoas amigas, que respeitava muito, que Zé Gomes não deveria ser eleito prefeito de Itumbiara, porque, se isto acontecesse, seria um “atraso” para o município, inclusive em “termos morais” (embora não se tenha explicitado o significado disto). Nesta hipótese, não se diz que alguém — ou mais de uma pessoa — teria convencido Béba a matar o petebista. Ele estaria fazendo um “favor”, que não teria sido pedido. Terceira, alguém que Gilberto do Amaral respeitava muito, como uma espécie de seu orientador, pode tê-lo convencido a eliminar o prefeito. Quem? Não se sabe — até agora. Fala-se em um ou dois suspeitos. Porém, por uma questão de respeito, não apenas à investigação da polícia, mas às pessoas — todos são inocentes até que se prove o contrário —, é crucial que não se mencione nomes. Até agora, não há nenhuma apresentação de suspeitos quanto mais de acusados (o caso está na polícia e, por isso, obviamente não chegou às mãos da Justiça). Se é assim, mencionar nomes, qualquer que seja, é um desrespeito às leis e aos indivíduos.

O Jornal Opção conversou com um delegado de polícia a respeito dos crimes de Itumbiara. Ele aceitou conversar, mas fez uma ponderação: “Como não participo da investigação, portanto não tenho acesso às informações, mesmo as básicas, falarei em tese. O que falarei a seguir não tem o objetivo de desmerecer a Polícia Civil de Goiás, uma das melhores do país em termos investigatórios, portanto com resultado satisfatórios. Acrescento que há mesmo casos intrincados, de difícil resolução, mas não me parece o caso de Itumbiara. Como delegado experiente, o que posso dizer, de cara, é que a investigação, a divulgação de seus resultados, está demorando muito. Não é de praxe que seja assim, ainda mais quando os dados básicos estão estabelecidos”.

Ligações políticas

“A autoria do crime está definida. O autor do assassinato é Gilberto Ferreira do Amaral. Ele é de Itumbiara, sua família mora na cidade, onde ocorreu o duplo assassinato. Portanto, levantar tudo a seu respeito — como vida financeira, contas bancárias, ligações amorosas — e dos familiares nada tem de difícil. Em 24 horas, excetuando-se contas bancárias e ligações telefônicas, que depende de burocracia e de apoio da Justiça, pode-se levantar tudo a respeito de uma pessoa que é conhecida. Acredito que o banco de dados sobre Gilberto do Amaral está montado — as possíveis variações não mudarão o quadro geral”, afirma o delegado, que, vale dizer, está aposentado.

“Gilberto Amaral tinha ligações políticas explícitas, inclusive com fotografias e vídeos como elementos comprobatórios. Isto não quer dizer, é claro, que as pessoas que eram ligadas a Béba sejam obrigatoriamente responsáveis pelo crime. Mas a polícia sabe que precisa investigar a fundo tais ligações para firmar ou eliminar uma possível tese. No caso de perícias, é preciso assinalar que, com evidências tão fortes, não se precisa de nenhuma perícia sofisticada, quer dizer, demorada. Há testemunhas de vários matizes, por exemplo, sobre as ligações de Gilberto do Amaral. Ele era maluco? As testemunhas podem dizer se, algum dia, cometeu alguma maluquice grave. Havia um padrão de ‘loucura’, de problemas psíquicos? É relativamente fácil determinar isto, tanto com consultas aos médicos de Gilberto do Amaral quanto ouvindo vizinhos e colegas de trabalho. Alguém, algum dia, percebeu algum surto psicótico?”, disserta o delegado, que dirigiu distritos policiais-delegacias importantes da capital. “A polícia goiana tem material humano e técnico de alta qualidade para fazer uma investigação como a do crime de Itumbiara. Não sei exatamente, mas parece que não há nenhum laudo pendente. Ou há?”

Crime como favor?

“Qualquer delegado de polícia, quando investiga um assassinato, arrola, de imediato, critérios objetivos e subjetivos. O objetivo de Gilberto do Amaral era matar Zé Gomes. Era e conseguiu seu intento. Mas por que ele queria matar Zé Gomes? Se não havia um motivo pessoal, a polícia parece ter descartado a tese de que o ex-prefeito lhe havia dado um tapa na cara, qual seria o motivo que teria para matar o político? Se não havia ‘raiva’, no sentido pessoal, o que aconteceu precisamente? Parece não se tratar de pistolagem, porque Gilberto do Amaral não teria histórico neste campo. Então, se não é assim, teria sido feito como ‘favor’ a algum amigo muito íntimo e respeitado? Alguém teria incentivado, direta ou indiretamente, um homem comum, um supostamente pacato funcionário público, a, de repente, aparecer na frente de uma carreata atirando em direção a um veículo no qual está parte da nata política de Goiás, como o vice-governador José Eliton (PSDB), o deputado federal Jovair Arantes (PTB), o senador Wilder Morais (PP), o ex-deputado Vilmar Rocha (PSD), o candidato a vice-prefeito Gugu Nader (PPS), o deputado estadual José Antônio (PTB), entre outros? Policiais sabem que é preciso muita coragem, e até certo sentimento de que se está protegido, para se cometer um crime desta natureza. Coragem e, até, falta de sensatez mínima. O atirador sabia que dificilmente escaparia, sobretudo que dificilmente escaparia com vida? Ele teria tentado fugir?”, pontua o delegado.

Por experiência, o delegado sugere que a polícia já deve ter uma conclusão a respeito do caso — ainda que não esboçada no inquérito. “Ouvi falar em surto psicótico. Não acredito nesta tese, porque há sintoma de premeditação, mas alerto que não participo da investigação. Pode ser que não se queira admitir o resultado que se obteve? A tese do surto psicótico certamente, se apresentada, vai desagradar quase todo mundo. A tese de crime político vai provocar polêmica e debates tanto exaustivos quanto improdutivos. Um delegado me perguntou: ‘A polícia estaria procurando chifre em cabeça de cavalo?’ Não sei, mas insisto que a revelação da motivação real do crime está mesmo demorando muito a ser divulgada. Em três dias, costuma-se resolver casos até mais intrincados. Insisto num ponto: não há uma quadrilha sofisticada, o crime não foi cometido por mafiosos altamente especializados. Trata-se de um crime cometido numa cidade do interior, com o autor definido, e o autor é um funcionário público que sabia atirar porque supostamente era caçador de animais silvestres e teria treinado com uma pistola durante alguns dias.”

Atirador eficiente

Pode-se falar que Gilberto do Amaral era um grande atirador e que estava preparado para matar? “Não há dúvida de que sabia atirar e atirava bem. Não só. Ele teve calma suficiente para atirar, de maneira letal, no seu principal alvo, que era Zé Gomes. O alvo estava num veículo em movimento, ainda que com velocidade baixa. Portanto, o assassino não era um atirador qualquer e, insisto, teve calma suficiente para, no meio de uma multidão que rapidamente ficou assustada, acertar seu principal alvo, Zé Gomes, matando-o. A pistola 0.40 é um caso à parte. Trata-se de uma arma sofisticada, usada por policiais do mundo inteiro. Sua utilização, seu uso de maneira eficaz, mostra que, em termos de atirar, Gilberto do Amaral não era um ‘zé mané’. Não é qualquer um que atira com eficiência com a 0.40. Trata-se de uma arma leve, mas potente — seu impacto é maior do que o de um revólver. É uma arma tremendamente segura. E, insisto, é preciso saber usá-la. É uma arma de repetição. Se a pessoa não sabe atirar com ela — e por isso é provável que Gilberto do Amaral tenha treinado mesmo durante algum tempo —, ‘vomita’ todos os tiros de uma vez, o que por certo reduziria sua eficácia. A 0.40 custa mais do que um revólver e não é fácil adquiri-la. Até sua bala custa muito. O número da arma indica a origem. Quem vende armas em Itumbiara? Por que vendeu tal arma para Gilberto do Amaral?”, alonga-se o delegado.

Ao final da conversa com o repórter, o delegado fez uma pergunta que considera crucial: “O que está mesmo atrasando a conclusão do inquérito: tudo leva a crer que a polícia está com dificuldade de estabelecer o nome do mandante ou dos mandantes, se existem mandantes?” O delegado frisa que está passando da hora de a polícia apresentar uma satisfação à sociedade de Itumbiara e de Goiás. Ele ainda faz uma pergunta: “Quem matou Béba? Era preciso mesmo matá-lo? Não poderia ter sido imobilizado? Pergunto isto porque os jornalistas não falam do assunto”.

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