Chega de Bolsonaro, para o bem de Goiás

Ronaldo Caiado foi o suporte com o qual o presidente contou até agora, sem que houvesse reciprocidade

Nilson Gomes

Especial para o Jornal Opção

A campanha eleitoral de 2018, em Goiás, foi inteiramente favorável a Jair Bolsonaro. Nenhum dos candidatos a governador e senador tinha raiz com o candidato a presidente oficialmente apoiado por seu partido ou coligação. E havia o caso das traições anunciadas, como o do MDB, que tinha um goiano (Henrique Meirelles) no páreo, mas o partido preferiu manter a sua tradição de abandonar companheiro — o PMDB não apoiou Ulysses Guimarães em 1989 nem Orestes Quércia com Iris Araújo de vice em 2004.

Onde estávamos? Ah, no palanque de Geraldo Alckmin em 2018, suportado por alianças fictícias com PSDB de José Eliton e Marconi Perillo e Democratas de Ronaldo Caiado. Caiado foi parceiro leal dos presidenciáveis tucanos (FHC, Alckmin e Serra) em pleitos anteriores, mais até que o tucanato local. Naquelas ocasiões, Caiado tentava a deputado e senador. Agora, não, ele era o cabeça da chapa como candidato a governador. Ainda assim, foi correto com Alckmin: resistiu à pressão de seus companheiros, 100% desejosos de acompanhar Bolsonaro, e permaneceu pessoalmente neutro. No segundo turno, entrou na campanha de seu colega de Congresso Nacional por mais de duas décadas.

Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado: o presidente não é responsável; o governador é — simples assim | Foto: Reprodução

Talvez Bolsonaro não precisasse de Caiado para vencer a eleição, mas dependeu dele para governar, ou qualquer que seja o verbo definidor do simulacro de gestão vinda de Brasília. Com sua liderança intocada no Senado e na Câmara dos Deputados, o governador de Goiás deslocou-se dezenas de vezes ao Congresso acudir o presidente da República.

Foi assim nas principais votações, como as das reformas, consideradas os maiores trunfos de Bolsonaro em um ano e três meses de muito pouco ou quase nada — veio mais a Goiás em 1/4 de mandato que Lula da Silva e Dilma Rousseff em quatro mandatos, mas trazendo o nada misturado com coisa nenhuma.

Foi assim para acalmar os governadores e os partidos.

Foi assim para segurar as bancadas.

Foi assim até internamente no DEM. Quem frequenta o 26° andar do anexo 1 do Congresso, onde se realizam as reuniões do Diretório Nacional do Democratas, já escutou ou até assistiu. Ao contrário de outras siglas, o DEM é tão transparente que qualquer pessoa pode ouvir o que se discute em sua instância máxima. As divisórias de madeirite não vedam cheiro nem som. Testemunhas auriculares relatam o esforço de Caiado para confortar e convencer os integrantes do DEM na base de Bolsonaro.

O que Goiás recebeu até agora como contrapartida do que arrecada para a União? Nada. Nem se aventa aqui o desejo de o Estado ter tratamento diferente por seu chefe de Executivo operar como um misto de líder do governo no Parlamento e ministro da Casa Civil. A referência é unicamente ao óbvio: o que Goiás manda para Brasília em impostos e vontade política volta em forma de não.

Não pode alongar dívida.

Não pode aderir ao Regime de Recuperação Fiscal, o discutido RRF

Não pode obter empréstimo, muito menos para pagar custeio.

Não tem dinheiro para pagar a restauração de estradas e sobrou só merreca para a Saúde.

Não acaba nunca a tramitação do Plano Mansueto.

Não chegarão, portanto, os R$ 780 milhões anualmente como previsto.

Não vai obter ajuda à queda de ICMS em relação ao que recolhe de FPE, tombo que vai beirar R$ 5 bilhões até o próximo dezembro e agravar um quadro que estava em vias de solução, depois de Caiado quitar 17 folhas e meia em 15 meses.

Não pode reduzir os juros de 174% ao ano pagos aos bancos públicos federais, débitos intermináveis, uma extorsão que faz os mais sanguinários agiotas parecerem ladrões de pirulito se comparados ao BNDES e ao Banco do Brasil.

Não pode resolver nada para Caiado nem nada para nada e mais nada. Nada. Nada.

O governador vai a Brasília toda semana ouvir não. Não. Não.

Os poderes goianos fizeram o esforço máximo para cumprir metas. De nada adiantou.

Ainda assim, fazendo sua parte e escutando negativas, Ronaldo Caiado permaneceu sendo o esteio institucional do presidente da República.

Algum Bolsonaro diz alguma bobagem (e o que eles disseram de besteira em 15 meses é suficiente para preencher todos os volumes da Biblioteca de Oxford), Caiado é entrevistado e releva.

Cada dia é uma agonia para pagar conta em Goiás e livrar o presidente da crise do momento.

Coronavírus e responsabilidade

E chegou a crise deste momento, a do coronavírus.

No início, o presidente da República foi inábil: sem consultar o governador, ofereceu a Base Aérea de Anápolis para anfitrionar os brasileiros vindos da China. Caiado transformou o limão num suco servido à imprensa do mundo inteiro. O planeta aplaudiu o humanitarismo que Caiado impingiu a Bolsonaro.

A crise foi se avolumando no coronavírus e, em escala mais agressiva, no bolsonavírus. E Caiado contornando. Cada asnice dita pelo chefe do governo federal era amainada por uma consideração científica emitida pelo chefe do governo estadual.

Mas tudo tem um limite.

No começo, Bolsonaro ainda fazia a Caiado referências que poderiam ser tachadas de elogiosas. Depois, e até agora, ataca os governadores sem fazer ressalvas. Para ele, são todos idiotas que creem na ciência, não em bula de garrafada, que curam de sumiço de Queiroz a impropério de filho mal-educado.

No trato com a imprensa, a fineza vocabular de Caiado contrasta com as grosserias de Bolsonaro. Ambos foram agredidos por integrantes das mídias um sem-número de vezes, mas o presidente da República não perdoa a independência alheia. Jornalista ou empresário dono de veículo de comunicação podem apoiar quem quiserem. Derrotados na eleição, podem aderir ao novo governo ou manter a foice sobre a nuca do mandatário. É da democracia.

Quem acompanhou Bolsonaro em seus mandatos de deputado, como eu em quatro deles, se recorda de um sujeito brincalhão, risonho, espalhando alegria e espanto com suas tiradas politicamente execráveis. Carregou o preconceito para os palácios do Planalto e da Alvorada, em cuja frente faz insossos stand-ups.

Bolsonaro não ficou no Exército tempo suficiente para se educar. Chegou a capitão, conservou o posto porque não encontraram provas de sua evidente participação em ação terrorista no Rio, mas não foi talhado para a representação.

Caiado passou 30 anos se preparando para ser governador. Bolsonaro não investiu um segundo sequer de seu tempo se capacitando para comandar nada. Eis o resultado.

Bolsonaro está envelhecendo em um BBB no qual já foi várias vezes ao paredão e escapa diante das defesas do líder Ronaldo Caiado.

Por mais de década, acompanhei a desenvoltura de ambos pelos corredores, comissões e Plenário do Congresso. Caiado se aprimorou como líder, Bolsonaro calcificou apenas os preconceitos. O pior é que a homofobia, o machismo e outras formas repugnantes de convivência deixaram de ser conteúdos de piada do deputado e se transformaram em políticas públicas do presidente.

Até a possível graça Bolsonaro perdeu. Aquele cara gente fina que divertia (ou horrorizava) com suas tiradas, virou um sujeito iracundo. Suas falas perderam o elemento da ironia e são recheadas somente se vingança.

E chegou o passageiro da agonia, o coronavírus.

A população, exausta do populismo e da roubalheira petistas, votou e aguentava o criminoso besteirol de trocentos Bolsonaros et caterva. Contra o PT e demais legendas chavistas valia tudo, até as fobias de alguém claramente incompatível com o cargo. Mas chegou o mamona assassina, o novo vírus chinês. É pequenino, mas torceu o pepino e pode livrar o Brasil de um abacaxi.

Não podendo mais execrar Lula da Silva & comparsas.

Não tendo mais o que dizer da Venezuela.

Não havendo mais bandido bom é bandido morto a expor que não guardasse ligação incômoda com milícia carioca.

Não tendo mais lugar nos armários para esconder tanto cadáver.

Não obtendo lucro na economia com um dos melhores técnicos do mundo e uma equipe aplaudida.

Desmoralizando em público seu maior trunfo de popularidade, o ministro Sérgio Moro.

Fazendo da Educação superior uma cartilha ideológica tão abjeta que se assemelha à elaborada por FHC, Lula e Dilma.

Destruindo tudo o que o liberalismo poderia projetar para a Nação, após meio século de ditadura, socialdemocracia e petismo.

Brigando com aliados internos e internacionais.

Atazanando artistas magistrais, inclusive a deusa Fernanda Montenegro, enquanto se cerca de toda sorte (aliás, azar) de patifes dos palcos.

Ressuscitando uma múmia astróloga ejetada para a Virgínia…

Tantos gerúndios e nãos depois, Bolsonaro já era.

Cansou.

Tchau.

O Brasil quer de volta aquele senhor que significava a esperança.

O Brasil quer um líder que não tem desde Juscelino Kubitschek, enquanto Bolsonaro venera a ditadura que perseguiu, cassou e assassinou o mineiro morador de Luziânia eleito senador por Goiás.

Os amigos mais próximos desconhecem esse Bolsonaro aí.

Aquele Bolsonaro da Câmara não é o mesmo.

Aquele respeitava as instituições, como bom soldado, ainda que as desmoralizasse com seu comportamento.

Aquele Bolsonaro não existe mais. Se existe, está nalguma praia fluminense vendendo açaí ao lado da assessora. Ou numa zona de guerra dominada por milícia. Ou na Amazônia que tentou lotear. Ou numa tribo que quis exterminar.

Aquele Bolsonaro mereceu a vitória em 2018 como opção ao cleptolulismo.

Esse Bolsonaro de agora merece o repúdio das instituições e das pessoas de bem para que aprenda a respeitá-las.

Como no enredo que levou Dilma ao cadafalso, pelo bem de Goiás, pelo bem do Brasil, chega de Bolsonaro.

Nilson Gomes é jornalista.

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