Cepa europeia do coronavírus é muito mais contagiosa que a original, revela nova pesquisa

Pesquisadores dos Estados Unidos descobriram que a mutação do vírus pode levar a mudanças no tratamento de pacientes e na confecção de vacinas

O jornal espanhol “ABC” publicou uma importante reportagem — “A cepa europeia do coronavírus, muito mais contagiosa que a original” —, assinada por José Manuel Nieves, na quarta-feira, 6.

O diário rememora que, há poucos dias, havia sido publicado um estudo da universidade chinesa de Zhejlang que concluíra que “o vírus SARS CoV-2 adquiriu mutações suficientes para modificar sua patogenicidade”. Os pesquisadores descobriram que “algumas cepas, precisamente as que chegam primeiro à Europa e depois aos Estados Unidos, podiam ser até 270 vezes mais virulentas que as que proliferaram durante as primeiras semanas na China, onde se originou a pandemia”.

Agora a informação mais preocupante. “Uma equipe de cientistas do Laboratório nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, corrobora” o estudo feito pelos chineses “e afirma haver identificado uma nova cepa do coronavírus que está se tornando dominante em todo o mundo, muito mais contagiosa que as versões que se propagaram durante os primeiros dias da pandemia”. A pesquisa ainda não foi revisada por outros cientistas, mas, dada sua relevância, os pesquisadores decidiram divulgarsuas descobertas e conclusões no servidor “biorXiv”. Neste momento, compartilhar pesquisas é uma maneira de encontrar uma maneira de tentar “barrar” o vírus e, claro, chegar à produção de uma vacina (ou vacinas).

Os cientistas escrevem que “a nova cepa fez sua aparição na Europa em fevereiro e migrou rapidamente à Costa Leste dos Estados Unidos. Desde meados de março, é a variante do vírus dominante em todo o planeta”.

Bette Korber e os demais cientistas responsáveis pelo estado “advertem que, além de propagar-se mais rápido, esta cepa do vírus é capaz de fazer com que as pessoas fiquem mais vulneráveis a uma segunda infecção depois de ter superado a enfermidade”.

Os pesquisadores enfatizam “o fato de que, em sua maior parte, as pesquisas dos cientistas que trabalham no desenvolvimento de tratamentos e vacinas são baseadas nas primeiras sequências genéticas do vírus, obtidas pouco depois de seu surgimento”. Portanto, sublinham, “podem não ser efetivos contra a nova versão do Sears Cov-2”.

Bette Korber: um alerta para os médicos e para os cientistas que estão pesquisando vacinas: todos precisam se manter atualizados sobre a mutação do coronavírus| Foto: Facebook

Segundo a nova pesquisa, “a mutação que caracteriza esta cepa se centra, precisamente, nas espículas¹ que sobressaem da superfície do vírus e que lhe permitem acoplar-se às células humanas”. Os autores da investigação “sentiram a necessidade urgente de dar uma alerta”, sobretudo para que as vacinas e medicamentos que estão em desenvolvimento em todo o mundo levem em conta a mutação. Porque corre-se o risco de produzir uma vacina e medicamentos que não combatem o vírus — que é uma espécie de novo do novo coronavírus.

O estudo informa “também que, em todos os lugares onde a nova cepa aparecia, infectava a muito mais pessoas que as versões anteriores do vírus saídas de Whuran”, na China, “até o ponto de prevalecer em muitos países em questão de poucas semanas. Esse domínio sobre as cepas anteriores demonstra, segundo os pesquisadores, que é muito mais infecciosa, ainda que não se saiba muito bem por quê”.

Os cientistas estudaram, com o apoio de programas de computadores, 6 mil sequências de coronavírus de todo o mundo, recopiladas por uma iniciativa alemã para compartilhar todos os dados de Influenza. Em todas as ocasiões, os pesquisadores comprovaram como a nova versão terminava por converter-se na dominante”. A equipe “identificou 14 mutações diferentes no genoma do coronavírus, composto por uns 30 mil pares de base de ARN, mas se centraram na chamada D614G, que é precisamente a responsável pelas mudanças nos picos do vírus”.

Bette Korber frisa que ela e os pesquisadores estão divulgando “uma notícia difícil”. “Nossa equipe conseguiu documentar a mutação e seu impacto na transmissão graças a um esforço global massivo de pessoas, clínicas e grupos experimentais que possibilitam que as novas sequências do vírus estejam disponíveis tão rápido quanto possível”.

O estudo, com 33 páginas, “detalha quando surgiu a nova cepa do vírus, como se distribuiu pelo mundo e quanto demorou a converter-se na versão dominante”. A Itália foi um dos primeiros países a ter contato com o novo vírus, “durante a última semana de fevereiro, quase ao mesmo tempo que a cepa original, a qual foi substituída rapidamente. No Estados Unidos, a cepa original chegou a Washington no final de fevereiro, mas a partir de 15 de março já havido sido suplantada pela nova versão. O mesmo ocorreu em Nova York”.

Vacina contra a Covid-19 e novas informações

A reportagem anota que, “se o vírus seguir sofrendo mutações, inclusive nos meses de verão”, os tratamentos médicos deverão ser, ainda que em parte, revistos. As vacinas não poderão ser produzidas de acordo as primeiras versões do vírus. Porque, se não for mais abrangente, contemplando a variação do vírus, o combate será limitado. E as pessoas poderão pensar que estarão totalmente imunizadas — o que não será verdadeiro. Mas a tendência é que os laboratórios se adaptem às novas descobertas dos cientistas.

“O estudo não indica especificamente que a nova versão do vírus seja também mais letal do que a original. O que está confirmado é que as pessoas infectadas com a cepa modificada têm uma maior carga viral que o restante. E que o novo vírus se propaga com muito mais velocidade que o original. O qual, segundo os pesquisadores, poderia ser suficiente para que as pessoas que já tenham contraído a doença e se tornaram imunes podem voltar a infectar-se com a nova versão”, afirma a reportagem.

Nota

¹ Espículas — “Pequenas espigas”, segundo o “Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”.

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