O problema é que a Globo tem um projeto para o apresentador: substituir Faustão. Luiz Henrique Mandetta, Sergio Moro e Ciro Gomes estão no páreo

Jair Bolsonaro e Lula da Silva: um está puxando o outro para a disputa | Fotos: Reproduções

O centro político precisa de um candidato que enfrente a consistência eleitoral da direita do presidente Jair Bolsonaro (quase no Patriota) e da esquerda de Lula da Silva, do PT.

Tal candidato existe? Sim, mas não no imaginário popular. Do ponto de vista da maioria dos eleitores, os candidatos reais, no momento, são Bolsonaro e Lula da Silva (que mantém um preposto, Fernando Haddad, no jogo para sugerir polarização com o postulante da direita e evitar a ascensão de um postulante do centro político).

Há ou havia Sergio Moro, mas, habilmente, sua imagem está sendo minada tanto pela esquerda, de Lula da Silva, quanto pela direita, de Bolsonaro. Dada a sua decência intransigente, avesso à indecência típica da política, é bem avaliado. Mas qualquer leigo bem-intencionado percebe que estão tentando jogá-lo na vala comum. Querem, e talvez consigam, retirá-lo do páreo de 2022. (O Podemos trabalha para conquistar o passe político do ex-ministro da Justiça, mas, até agora, ele não se dispôs a se filiar em nenhum partido.)

O que sobra? Luciano Huck, apresentador de televisão que não tem filiação partidária, e o governador de São Paulo, João Doria, do PSDB. Há também o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, do partido Democratas, e o ex-ministro Ciro Gomes, do PDT.

João Doria é “limpinho” demais

João Doria se saiu relativamente bem na questão da defesa da ciência e da vacinação. Tentou, com um marketing afiado, se postar como o anti-Bolsonaro — o político que, ante um presidente abúlico, se mostrou preocupado com a vida das pessoas.

João Doria e Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul): o governador de São Paulo começa a ser contestado no PSDB | Foto: Reprodução

Mas João Doria tem três drummonds no meio do caminho. Primeiro, é paulista demais. Falta-lhe o jeitão do brasileiro — o que sobra em Lula da Silva e em Bolsonaro. Segundo, é abusivamente almofadinha. Nas suas entrevistas, fica-se com a impressão de que acabou de sair da sauna ou do banho. É muito “limpinho”, “higienizado”. Terceiro, e mais problemático, há o fato de que não está conseguindo romper a polarização entre Bolsonaro e Lula da Silva. Os postulantes da direita  e da esquerda — aliás, frise-se que, no momento, o pré-candidato do PT não é Lula da Silva, e sim Fernando Haddad — saíram na frente e estão se convocando para a disputa. Um parece querer enfrentar o outro.

Um marketing eficiente, que mostre tanto a eficiência do combate sistemático à pandemia do novo coronavírus quanto o crescimento econômico de São Paulo, pode catapultar João Doria para o combate direto com Bolsonaro e o postulante do PT? É possível. Mas tal trabalho, de convencimento do país, precisa começar a ser feito agora, para se tornar uma espécie de “consenso”. Em cima da hora, durante a campanha eleitoral, dificilmente funcionará.

O incrível Padre Tereso de Calcutá

Há também Luciano Grostein Huck, de 49 anos. O apresentador da TV Globo é um nome forte? Parece que sim. Por quatro motivos. Primeiro, dos candidatos de centro — retirado Sergio Moro, que é de centro-direita — é o que mais se destaca. Não é de esquerda, mas também não é visto como direitista. É uma pessoa meio consensual (meio Zelig, meio Forrest Gump). Segundo, tem o apoio de grande parte do empresariado — que parece percebê-lo como capaz de derrotar tanto Bolsonaro quanto o PT de Lula da Silva. Porque, se não querem mais Bolsonaro — que, no poder, para além do maluquismo anti-vacina e anti-ciência, não criou caminhos sólidos para a retomada do crescimento econômico, inclusive torpedeia medidas sugeridas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes —, também não querem retomar o passado, com a turma de Lula da Silva. Terceiro, o apresentador projeta a imagem de que é de todos os lugares, e não apenas de São Paulo, como João Doria, e do Rio de Janeiro. Quarto, e talvez mais importante, Huck é conhecido em todo o Brasil. Numa campanha curta, de 45 dias, não precisaria se esforçar tanto para se tornar mais conhecido.

Luciano Huck: o quase-político que parece agradar ricos e pobres | Foto: Reprodução

Por ser apresentador da Globo, Huck, além de conhecido, tem uma imagem positiva — a de uma pessoa (que ainda não é avaliada como político, pois sequer tem filiação partidária) que se preocupa com os pobres, quase um “padre Tereso de Calcutá” (curiosamente, dos pobres e dos ricos). Há quem aposte que uma chapa Huck-Luiza Trajano, do Magazine Luiza, pode se tornar imbatível. Seria a união da popularidade de Huck com a experiência administrativa da admirável Luiza Trajano. Além do fato de que ambos têm uma pegada social, o que os aproxima do eleitorado de centro-esquerda.

A ressalva é que, em termos de política, é preciso ter vontade real de disputar. Huck tem? Quem convive com ele diz que tem e que estaria se sentindo “convocado” para a disputa, com o objetivo de derrotar o bolsonarismo e o petismo e criar um “caminho do meio” humanista, com ideias liberais mas sem perder de vista a socialdemocracia.

De repente, porém, teria surgido um novo drummond no seu caminho? Parece que sim. A aposentadoria de Faustão Silva, que não mais apresentará o programa dominical, a partir de 2022 — e talvez até antes —, teria mudado os planos da Globo para Huck. Os donos da maior rede de televisão do país gostariam de ver um de seus funcionários na Presidência da República — até para retirar de lá um de seus “inimigos”, Bolsonaro. Mas as tardes de domingo representam muito, em termos de audiência e faturamento, para o Grupo Globo. Por isso, a tendência é que a rede faça uma proposta milionária, na linha de Faustão (que recebe quase 5 milhões de reais, entre salário e faturamento de publicidade feita no programa).

O presidente da República recebe 31 mil reais por mês. Huck vai trocar 3 ou 4 milhões de reais por 31 mil reais? Na Globo, se aceitar ser o novo Faustão, terá toda uma equipe produzindo o programa para ele. Se presidente, enfrentará problemas gigantes — como a pandemia do novo coronavírus, que deverá persistir, em menor escala, até 2023. Não é bem uma escolha de Sofia — porque não há igualdade de condições. Se pensar no projeto meramente pessoal, nas suas finanças, Huck certamente ficará com a Globo. Se pensar como político, possivelmente será candidato a presidente — com a possibilidade de conquistar o apoio de uma grande frente política.

O moderado Mandetta e o agressivo Ciro Gomes
Luiz Henrique Mandetta, médico e ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro: o partido Democratas começa a testar sua força | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Há vários partidos querendo adquirir o passe político de Huck. O partido Democratas, do deputado Rodrigo Maia (estaria de saída da legenda) e do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, saiu na frente e quer bancá-lo para presidente. Entretanto, ante sua indecisão, o DEM repôs o nome do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta em circulação.

Mandetta, por ter sido ministro da Saúde e ter deixado o governo rompido com Bolsonaro — estava associado às pessoas da ciência no combate ao coronavírus (consta que o presidente considera a Covid-19 como “comunista”, dada sua “origem” chinesa) —, tem certo apelo popular, pois é conhecido. Resta saber se, com seu estilo moderado e cadenciado de falar, terá condições de enfrentar o discurso pedreira de Bolsonaro.

Ciro Gomes: o ex-ministro é visto como o Bolsonaro da centro-esquerda | Foto: Reprodução

Resta, por sim, o indefectível Ciro Gomes (PDT) — uma espécie de Bolsonaro da centro-esquerda. O paulista Ciro Gomes, que se fez politicamente no Ceará, tem um discurso afiado, mas fica-se com a impressão de que o espaço que poderia ocupar está devidamente ocupado tanto pelo petismo de Lula da Silva quanto pelo discurso virulento de Bolsonaro. A impressão que se tem é dará um bom vice, mas não um bom candidato a presidente. Poderia dobrar com Lula da Silva ou Fernando Haddad. Lula da Silva, ou Haddad, ficaria livre para sua pregação Lulinha Paz e Amor e Ciro Gomes se colocaria na “rinha” com Bolsonaro — atacando e revidando os possíveis ataques da artilharia pesada do bolsonarismo. (Euler de França Belém)