Motivo de grande revolta na semana passada foi o anúncio de aumento salarial para presidente da República, senadores e deputados federais. Como sempre, haverá o efeito cascata e também nas esferas estaduais e municipais os políticos se darão seus próprios reajustes.

A opinião pública reage indignada. E tem razão. Além dos altos vencimentos em relação ao todo da população, os políticos gozam de outras benesses inacessíveis aos “meros mortais”: um grande número de assessores, verba de gabinete, auxílio-combustível, subsídio para material gráfico, apartamento funcional, carro oficial e cota de passagens aéreas, entre outros.

A esfera do alto poder no Brasil é também o mundo do conforto e, pode-se dizer, até do luxo. E isso não vale só para políticos: semanas atrás, uma subprocuradora da República ganhou notoriedade por lamentar, em sessão do Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF), que não haja mais um motorista para cada membro da PGR e reclamou que teve de pegar um Uber (pago, claro, com verba do Ministério Público) para se deslocar ao trabalho, porque o serviço de transporte do órgão estava indisponível.

Ao contrário de países como os escandinavos, como Suécia e Finlândia, em que políticos e altos servidores públicos praticamente não têm regalias nem altos salários, o Brasil tem tradição secular de dar a eles uma corte.

Isso não vai mudar do dia para a noite. Nem Jair Bolsonaro (PL) nem Luiz Inácio Lula da Silva (PT) podem ser culpados por algo que, na verdade, eles mesmos nem votam. Legislativo e Judiciário têm seu porcentual “carimbado” do erário, com o qual podem dar uma “vida melhor” aos seus do que o Executivo proporciona, por exemplo a professores, policiais e enfermeiros de seus quadros.

Todo esse gasto seria levado pouco em consideração se houvesse, da parte dos políticos, um retorno profícuo à sociedade. Porém, o que ganham por mês se torna irrisório diante daquilo que obtêm – falando, obviamente, dos corruptos – em negociatas e verbas desviadas, seja do próprio gabinete (as “rachadinhas”) ou do orçamento.

É possível, e até necessário, criticar aumentos a quem já ganha bastante, enquanto servidores públicos federais estão há anos e anos sem reajuste. Mas é preciso, por outro lado, saber que o buraco institucional nesse aspecto é, infelizmente, muito mais embaixo.