Alguém precisa dar um jeito no roubo de carros em Goiânia

Alô, PF, MP e papa Francisco: é vital combater o roubo de carros em Goiânia, que tem até uma cidade interna para os produtos de crime, a Robauto, e as autoridades fingem não ver

Nilson Gomes

Toda pessoa em Goiânia já foi vítima de ladrões de carro ou tem parentes e amigos que passaram por esse tormento.

Assim como no caso do tráfico de drogas, as polícias enxugam iceberg o tempo todo: pegam os bandidos e daí a poucos dias estão mais soltos que Arroz Cristal, beneficiados pela legislação frouxa.

O índice de recuperação de delinquentes é baixíssimo no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia, em qualquer lugar.

Goiânia é uma cidade escura, com 70% de seu território ocupado por terrenos baldios da máfia dos loteamentos.

Junte as três regalias: leis que favorecem o crime, ressocialização que só existe na cabeça de ingênuos e ambiente propício ao banditismo. Resultado: de volta às ruas, os marginais vão fazer o que sabem, cometer novos delitos debaixo do quepe das autoridades.

Já ao volante do produto do crime, o assaltante geralmente tem uma de três atitudes com o carro:

1 – Usa-o para fazer outras vítimas e depois o abandona depenado;

2 – Vai direto ao Paraguai sem ser parado sequer nas fronteiras;

3 – Leva para um desmanche por aqui mesmo, o que acontece na maioria dos casos.

São várias as consequências, entre as quais:

  1. a) o motorista, quando escapa, fica traumatizado pelo resto da vida;
  2. b) as crianças, pois bandido costuma ser muito destemido diante de mães que vão levar os filhos à escola, precisam passar por tratamento psicológico e, às vezes, são levadas reféns pelos monstros;
  3. c) o coitado não tem condição de pagar seguro e fica sem o único bem de valor, com dezenas de prestações em aberto;
  4. d) com a modalidade sempre em alta, as apólices sobem e as seguradoras chegam a desistir de determinados modelos, como caminhonetes e motos, tamanha a incidência.

O menor prejuízo é o patrimonial. Um assalto destrói uma família. Em geral, por muito pouco, pois os bandidos dão valor zero à vida – à deles e à alheia. O crime é tão organizado que obedece à tabela Fipe: os receptadores pagam 10% do valor real. Ou menos. Os assaltantes compram drogas, fazem farra, enquanto a vítima agoniza, seus parentes a velam, enterram-na e sofrem indefinidamente. Dezenas de vítimas depois, a quadrilha é presa ou morta em confronto e seus integrantes se transformam em santos. Os policiais respondem a processo, são tirados da corporação, vistos como algozes.

Em resumo: como o crime compensa, as vítimas se sucedem, sejam anônimas ou famosas.

Morte de um delegado e da filha de um senador

O delegado Célio Cassimiro Tristão, após décadas de excelentes serviços prestados à comunidade, estava numa casa em obras conversando com pedreiro e servente. Bandidos o assaltaram para levar-lhe o Cobalt — e levaram-lhe a vida. Mataram o dr. Célio. Ele não havia reagido, talvez para evitar que os demais presentes se envolvessem. Mesmo assim, mataram o dr. Célio.

Num período de seis meses em 2012, a tragédia alcançou o agora senador Luiz do Carmo em duas oportunidades: em abril, teve a filha assassinada; em outubro, seu carro foi assaltado e um segurança, sargento da PM, teve de matar o bandido.

Assaltar motorista de aplicativo ficou tão comum que nem sites e blogs de poucos acessos noticiam.

Lula está preso, foi condenado por dois fatos corriqueiros e é aplaudido por seu crime maior: a despenalização do uso de drogas. Não se advoga que o usuário seja enjaulado junto com traficante por estar fumando a erva maldita. Porém, na prática, a ausência de previsão de reprimenda liberou as drogas. As Polícias e a Guarda Civil veem os noiados transformando os parques de Goiânia em cracolândias. O que as autoridades fazem? Nada. Por quê? Porque nada podem fazer. Ai do militar, do agente ou do guarda que prender um maconheiro no pleno exercício de suas funções de cliente de traficante…

Sem a internação compulsória do usuário e com as fronteiras do País e do Estado escancaradas ao tráfico, as ruas estão povoadas de zumbis. Só na região Central de Goiânia, no Triângulo dos Três Poderes, há dezenas de mocós com centenas de farrapos humanos destroçados pela obra de Lula, a universalização do uso do crack.

Se não trabalham, como os usuários compram a droga? Levando carro para receptador.

Este texto é um emaranhado de obviedades. Todo policial sabe de que tudo isso. Por que não age? Age, mas de toalha na mão para acariciar geleira no Ártico.

Diante disso, o crime tomou conta das ruas. Furto e roubo de veículo não são mais notícia e está se deixando até de notificar às autoridades. Ninguém se importa de topar com cidadãos em andrajos pelas vias de Goiânia, inclusive nas esquinas próximas ao Tribunal de Justiça, à Assembleia Legislativa e ao Palácio Pedro Ludovico, sede do governo do Estado – cidadãos em andrajos perambulando pelas ruas? Se está em andrajos e perambulando é porque lhe foi negada a cidadania. Nem se fala mais em cracolândia. Não é novidade um cadáver bater à janela do carro pedindo moedas para comprar pedra de crack, pois não possui mais força nem arma para mandar descer e assumir a direção.

O motorista não precisa ser policial para ter certeza do local em que seu carro estará daí a poucas horas: abandonado numa rua escura, atravessando o Mato Grosso ou, em 90% das ocorrências, fatiado na Robauto.

Onde? Na Robauto.

Até ela deixou de ser notícia. Foi incorporada à rotina. Encara-se como folclórica o que é uma aberração.

Comerciantes de peças e outros componentes são honestos, mas alguns receptadores se misturam aos lojistas e mancham o bom nome da categoria.

O problema é crônico e não surge quem o combata. Quando aparece exceção, logo desiste, pois se sente inútil. Resta apelar à Polícia Federal, aos Ministérios Públicos, ao arcebispo, ao Papa Francisco, à funkeira Anitta, ao Trump, ao Olavo de Carvalho, ao pistoleiro Luizito Suárez, do Barcelona. Não sei. A alguém. Algum de filho de Deus haverá de resolver, pois o mal se banalizou.

Se as autoridades têm conhecimento de que na região da Vila Canaã é possível montar uma caminhonete nova só com peças usadas, conforme já foi mostrado em diversas reportagens, o que estão esperando?

O que falta às autoridades? Coragem? Vivemos num Estado de covardes? O crime venceu a guerra das ruas? O poder público capitulou e somos apenas butim nas mãos leves de ladrões de veículos, traficantes e receptadores?

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