A disputa eleitoral de 2022 está desenhando a disputa eleitoral de 2020

Os partidos de Ronaldo Caiado, Daniel Vilela, Jânio Darrot, Vanderlan Cardoso e Alexandre Baldy trabalham a remontagem das bases para a próxima sucessão estadual

Ronaldo Caiado: governador de Goiás | Foto: Reprodução.

A disputa eleitoral de 2022 começa a desenhar a disputa eleitoral de 2020. À primeira vida, pode parecer estranho — e, de fato, é. Entretanto, se para as lideranças municipais o importante é mesmo a disputa para prefeito e vereador, para as cúpulas estaduais crucial é a estruturação ou reestruturação de bases político-eleitores para o pleito seguinte, daqui a dois anos e dois meses (a desincompatibilização será daqui a um ano e oito meses).

Em termos políticos, o que vai mesmo acontecer em Goiás em 2022? Ainda não se sabe. Mas, com as informações atuais, dá para sugerir um, dois ou mais cenários. A tendência é que o governador Ronaldo Caiado dispute a eleição, porque está bem avaliado — ancorado na sua imagem de gestor rigoroso e honesto (isto tem pesado nas pesquisas. Os que cobram “obras” parecem não perceber que os eleitores associam “grandes obras” com corrupção). Desde já, quase sempre nos bastidores, está trabalhando para fortalecer suas bases, ampliando-as.

As oposições terão de dois a três candidatos a governador.

Rubens Otoni, deputado federal do PT | Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

O PT pode bancar o deputado federal Rubens Otoni ou o deputado Antônio Gomide. Mas também pode compor com o ex-deputado federal Daniel Vilela, possivelmente o postulante do MDB. O partido perdeu força em todo o país, inclusive em Goiás. Mas tem tradição política no Estado. A tendência é que se alie com alguém que se coloque como oposição ao presidente da República, Jair Bolsonaro, que deve ser candidato à reeleição. O MDB se tornou um partido relutante em termos nacionais, deixando o barco correr livre, até porque, no geral, não lança candidato presidencial. Isto desagrada o PT, que gostaria de ter seu apoio para presidente, o que, no Cerrado, levaria ao apoio ao emedebismo.

O senador Vanderlan Cardoso já informou à direção do PSD que pretende disputar o governo do Estado. O partido, liderado pelo ex-deputado federal Vilmar Rocha, endossa seu projeto político. Mas quer trabalhar para a formatação de uma ampla frente política, porque considera que, se Ronaldo Caiado foi eleito governador estando fora do governo, será muito mais difícil derrotá-lo estando no governo.

Vanderlan Cardoso: senador pelo PSD | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Vanderlan Cardoso queria apoiar Maguito Vilela, do MDB, para a Prefeitura de Goiânia. Porque ficaria selado um acordo para 2022. Tendo recebido o apoio do PSD, o veterano emedebista hipotecaria apoio ao senador para a disputa do governo, indicando, possivelmente, seu filho, Daniel Vilela, presidente do MDB, para vice ou para o Senado.

O MDB deve lançar Daniel Vilela ou Maguito Vilela para governador, com a possibilidade de composição com Vanderlan Cardoso — no primeiro ou no segundo turno. Daniel Vilela tem feito um trabalho diário com o objetivo de remontar as bases do partido no interior. O partido está se renovando em vários municípios.

Daniel Vilela, principal aposta do MDB para 2022 | Foto: Jornal Opção

O principal objetivo de Daniel Vilela não é lançar vice de Vanderlan Cardoso ou um emedebista disputar mandato de senador. Seu propósito é lançar candidato a governador. Mas o que vai definir o projeto será o quadro político que se encontrará em 2022. Se Ronaldo Caiado estiver muito bem, a tendência é que se forme uma frente ampla para enfrentá-lo, até para tentar impedir que seja reeleito no primeiro turno. Se o estiver apenas razoavelmente avaliado, o mais certo é que vários políticos queiram disputar.

Há uma incógnita no jogo: o ex-ministro Alexandre Baldy, presidente estadual do partido Progressistas. Em 2018, era aliado do MDB de Daniel Vilela e de Vanderlan Cardoso. Agora, é aliado do governador Ronaldo Caiado. A linha de seu partido, que não é ideológica, é de um pragmatismo absoluto. Por isso, para o Progressistas, 2022 é uma obra aberta, até abertíssima. A tendência é que caminhe com Ronaldo Caiado, mas as portas ficarão abertas para outras alianças. Baldy quer ser confirmado como candidato a senador; se não for, sai da base do governo, não agora, mas em 2022. A ele agradaria ser vice do líder do Democratas? Não é seu projeto neste momento, mas a vice não o desagradaria.

Alexandre Baldy: projeto é disputar mandato de senador| Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O PSDB é presidido por Jânio Darrot, mas o político que mais articula é mesmo o ex-governador Marconi Perillo. Como está desgastado, em virtude de ter perdido a eleição para senador em 2018 e dos processos judiciais, articula mais na sombra. Ele está fazendo pesquisas para avaliar se sua aprovação melhorou e se a rejeição caiu. Ainda é muito rejeitado, e a imagem não é das melhores. Mas um líder da Associação Goiana de Municípios (AGM) disse a um ex-prefeito que as pesquisas já indicam que os eleitores não o consideram o maior “pecador” da história de Goiás — o que não significa que esteja bem avaliado. Os números obtidos nos levantamentos indicam que, se disputar para governador, enterra o PSDB de vez — o partido está dentro da cova, mas ainda não foi enterrado. Se o veterano disputar o governo em 2022, será a pá de cal. Aí os eleitores enterrarão o partido em definitivo. Portanto, Marconi Perillo deve disputar mandato de deputado federal.

Jânio Darrot: a aposta do PSDB para 2022 / Foto: Divulgação

O candidato a governador do PSDB tende a ser Jânio Darrot. Há outra possibilidade: o prefeito de Trindade pode ser “oferecido” para uma chapa majoritária de composição política. Pode ser o vice de Vanderlan Cardoso ou candidato a senador. Seria rejeitado? Não. Na verdade, o PSDB é mais rejeitado, por possíveis aliados, do que Jânio Darrot — um político sem máculas e considerado um gestor eficiente.

O PSDB tomou uma decisão, recentemente, que mostra que só rejeita alianças com Ronaldo Caiado, ou seja, com o DEM. Candidatos do partido podem se aliar, na eleição de novembro deste ano, com quaisquer partidos — menos o Democratas. É um sinal de que o PSDB — leia-se Marconi Perillo, o homem que decide nas sombras tucanas — está pensando mais em 2022 do que em 2020. Como se sabe, as eleições municipais costumam não ser ideológicas nem radicalizadas. Integrantes do DEM e do PSDB, em algumas cidades, são ou foram aliados tradicionais durante várias eleições. Agora, rompendo tratos locais antigos, o tucanato proíbe toda e qualquer coligação com postulantes do DEM. É um sinal dos mais claros de que a cúpula não está pensando nas eleições municipais, e sim, insista-se, nas eleições para o governo em 2022. O interior está sendo sacrificado em prol de uma eleição que é considerada mais importante e decisiva.

Marconi Perillo articula nos bastidores e deve disputar mandato de deputado federal em 2022 / Foto: Reprodução

Já o DEM trabalha para conseguir novos aliados, em todas as regiões de Goiás. No Entorno, onde Marconi Perillo bancar candidatos fortes a prefeito, a tendência é que as tropas governistas caminhem com aquele que possam derrotá-los. Em cidades onde o candidato do MDB tiver de chance de ser eleito, e o principal adversários não for do DEM ou de um partido da base governista, e sim do PSDB, o governismo vai optar pelo candidato anti-tucano.

Marconi Perillo está operando no Entorno de Brasília, tendo como principal aliada a deputada estadual Lêda Borges — que é pressionada para disputar a Prefeitura de Valparaíso, mesmo com a popularidade em baixa. O governismo vai trabalhar por uma aliança que eleja um candidato que não seja a tucana — que, repita-se, só vai disputar, se disputar, por causa ds pressões do tucano-chefe.

A “volta” de Iris Rezende ao jogo — dizia que não seria candidato à reeleição — tem muito a ver com o jogo de 2022. Se Iris não disputar, o MDB vai bancar a candidatura de Maguito Vilela. Este, disputando e se eleito, fortalece a oposição, toda ela, pois retira um elemento de apoio a Ronaldo Caiado na maior cidade do Estado — além dos recursos financeiros (Goiânia é um Estado dentro do Estado), tem quase 1 milhão de eleitores. Se Iris Rezende for candidato, possivelmente com Wilder Morais, do PSC, na vice, é sinal de que o prefeito e Ronaldo Caiado estão jogando juntos para 2022. Se não disputar, o prefeito estará se omitindo, e, indiretamente, fortalecendo os adversários do governador.

Portanto, 2022 já chegou, e antes de 2020. O que mostra, de certo modo, que o Brasil é sempre surrealista.

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