2º turno é outra eleição em Anápolis. Quem leva o 1º turno pode não levar o 2º turno

Pesquisa não decide eleição. O que decide é campanha e apoios sólidos. Roberto Naves conta com apoio local e externo (Bolsonaro e Caiado)

A cidade de Anápolis tem algumas peculiaridades que escapam àqueles jornalistas que se fiam em única pesquisa para sustentar que “fulano de tal” deve ganhar no primeiro turno. Esquecendo-se, por vezes, que a campanha, e não as pesquisas, é que decide eleições.

Veja-se o exemplo das eleições de 2016. O prefeito João Gomes, então filiado ao PT, “venceu” o primeiro turno, tendo obtido 29,92% dos votos. Roberto Naves, então no PTB, obteve 21,56%. O que diria a lógica do jornal “O Popular” — cujo lema para-oficial é: “O primeiro a chegar atrasado” — sobre o resultado? Claro: João Gomes seria eleito e Roberto Naves, derrotado.

Roberto Naves, prefeito de Anápolis, e Antônio Gomide, ex-prefeito | Foto: Jornal Opção

Pois bem: a eleição terminou com outro resultado. Roberto Naves foi eleito prefeito de Anápolis, no segundo turno, com 51,23% (88.730 votos). João Gomes ficou com 48,77% (84.475 votos). O que mudou o quadro eleitoral?

A campanha. No segundo turno, com maior capacidade de aglutinação de novas forças e uma campanha mais criativa — no sentido de se tornar assimilado por todos —, Roberto Naves convenceu os eleitores que era o melhor para reordenar o desenvolvimento de Anápolis.

Portanto, antes de alardear vitória no primeiro turno, com base numa única pesquisa, é preciso examinar as características intrínsecas ao processo eleitoral do município.

A seguir, vamos observar outras características da política da cidade.

Os eleitores de Anápolis não apreciam políticos da esquerda, notadamente os mais radicais. Na campanha deste ano, Antônio Gomide faz questão de esconder duas coisas: o vermelho e o número 13 do PT. É, como se na cidade, o PT, o 13, e o vermelho, sua cor símbolo, não existissem. O PT estaria se transformando no PAG — Partido do Antônio Gomide. Na verdade, Gomide é candidato pelo PT e o amplo tempo nos programas de televisão e os recursos financeiros de sua campanha têm a ver com o fato de o PT ter uma grande bancada federal (em Goiás, pelo contrário, só tem um deputado federal, Rubens Otoni). Portanto, não dá para esconder um “elefante”, sugerindo uma moderação que, na prática, não existe.

Aquele eleitor que votar em Gomide se torna, diretamente, um eleitor do PT — e, até, uma espécie de petista honorário. Claro, como se vive numa democracia, o eleitor tem o direito de ser o que é, inclusive petista ou comunista.

Ronaldo Caiado, como Jair Bolsonaro e Roberto Naves: o presidente e o governador de Goiás tem força política em Anápollis | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Se a esquerda não agrada os eleitores de Anápolis, o que força Gomide a se apresentar como moderado, um político praticamente de centro — o que não é —, pode-se falar, por outro lado, que políticos como o presidente Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado, do partido Democratas, são muito bem avaliados na cidade.

A popularidade de Bolsonaro em Anápolis é alta, até altíssima. O motivo é prosaico: o eleitorado da cidade não tem simpatia pela esquerda, representada pelo PT, quer dizer, por Gomide. Portanto, o presidente tem influência no pleito local.

Ao dizer que, se votasse em Anápolis, não apoiaria o candidato do PT — Gomide —, Bolsonaro provocou polêmica na cidade. Foi o assunto da semana. A lógica sugere: se não apoia o PT-Gomide, logo o presidente apoia Roberto Naves. Primeiro, Roberto Naves apoia o governo de Bolsonaro. Segundo, quando o presidente pediu para Roberto Naves ajudar no acolhimento de brasileiros que viviam na China, e estavam fugindo da Covid-19, o prefeito se apresentou, de imediato, numa atitude colaborativa.

A declaração de Bolsonaro terá influência no pleito? Terá, certamente. Tanto que, no KG de Gomide, o assunto foi discutido com atenção. Trata-se, concluíram os petistas, de uma pedra no caminho. Quiçá uma montanha. Uma visita de Bolsonaro a Anápolis, no segundo turno, pode decidir a eleição.

O peso político de Ronaldo Caiado em Anápolis talvez seja até maior do que o de Bolsonaro. Por vários motivos.

Primeiro, o governador nasceu em Anápolis, portanto tem vínculo estreito com a cidade.

Segundo, os anapolinos sentem orgulho de tê-lo no governo. Na eleição de 2018, Ronaldo Caiado obteve 67,57% dos votos dos eleitores de Anápolis (o segundo colocado, Daniel Vilela, conquistou 14,43%. A candidata do PT, Kátia Maria, cunhada de Gomide, obteve apenas 8,96%).

Terceiro, dada a eficiência de seu governo, além da decência pessoal do gestor, os eleitores anapolinos mantêm a aprovação de Ronaldo Caiado. O governador é muito bem avaliado em Anápolis.

Quarto, como governador, Ronaldo Caiado poderá ajudar Anápolis de várias maneiras. Primeiro, o apoio do governo em si. Segundo, no contatos com o governo do presidente Jair Bolsonaro, de quem é próximo. Bolsonaro tem o hábito de dizer aos ministros e aliados que Ronaldo Caiado é, de fato, um político republicano — só pede apoios pra assegurar e ampliar o desenvolvimento de Goiás.

Em suma, Ronaldo Caiado e Bolsonaro, unidos em prol de Roberto Naves, tendem a fortalecer Anápolis. Isto vai pesar na campanha, especialmente no segundo turno, quando a campanha fica mais concentrada e o eleitor se torna mais realista.

Veja-se outra questão: Roberto Naves, se reeleito, terá uma bancada federal muito forte para apoiar sua gestão na questão das emendas parlamentares. Já Gomide conta tão-somente com um deputado federal, seu irmão, Rubens Otoni. Conta mesmo?

Conta, sim. Porque o que une Gomide e Rubens Otoni é o PT, não precisamente os laços familiares. Os dois só conversam em períodos eleitorais, e quase sempre por meio de prepostos. São brigados, há quem os considerem como inimigos. Para disfarçar, durante as campanhas, aparecem juntos e fazem fotografias. Depois das eleições, cortam os laços e não mais se encontram. Aliados de Rubens Otoni, ao menos em off, dizem que Gomide não agrega; ao contrário, desagrega. Recentemente, Rubens Otoni impediu que Gomide se tornasse presidente estadual do PT e bancou Kátia Maria para o comando.

Se eleito, terá apenas um aliado em Brasília, exatamente o irmão-inimigo Rubens Otoni. Ele certamente colocará emendas para Anápolis, mas também terá de colocá-las para outas cidades. Já Roberto Naves contará, se eleito, com uma bancada forte, composta de vários deputados (com presença inclusive no Senado), além do apoio, decisivo, do presidente Jair Bolsonaro e do governador Ronaldo Caiado.

Há, por fim, a questão do eleitorado evangélico. Costuma-se dizer que Gomide é católico, mas, como se sabe, a maioria dos políticos de esquerda é ímpia — não acredita em Deus. Um vereador costuma dizer, em tom de blague, que paga 10 mil reais para quem apresentar um vídeo de Gomide rezando numa igreja. Não frequentando, mas rezando. Menosprezados pelo PT, os evangélicos são fortes em Anápolis, e estão, em larga medida, apoiando a candidatura de Roberto Naves. Os eleitores evangélicos terão um peso decisivo em Anápolis.

A campanha de Anápolis mal começou. Os dados estão sendo lançados. É provável que o vencedor será aquele que agregar mais apoios tanto locais (candidatos a vereador, líderes partidários, comunitários e empresariais) quanto externos (Bolsonaro e Caiado).

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