Por Demóstenes Torres
Antes quem crescia 8% ao ano era o PIB, agora, é a dívida pública que bate recordes a cada semestre
O país chegou a esse piso de poço, desprestigiado a ponto de um anão da economia global nos aplicar um passa-moleque
Envolver jovens com a cultura, oportunidades profissionalizantes e chances de empreender são a saída para a segurança pública
Os autores do Manifesto Comunista se orgulhariam de ver que as ideias propostas no livro foram ou estão sendo postas em prática
Narrativa de golpe não cabe em um embrulho de padaria; é preciso anistiar os brasileiros que merecem voltar para casa
Estado omisso, penas leves e mercado bilionário consolidam o comércio ilegal de bebidas, cigarros e combustíveis como principal fonte de renda do crime organizado
Governos ricos, como os da França, da Alemanha, do Japão e da Inglaterra, pregam metas climáticas, mas passam por cima de suas próprias poluições
Já viajei mais de 100 vezes à Amazônia, tendo a floresta como destino ou parte da viagem. Aliás, a melhor parte de qualquer viagem.
De avião, são 7 milhões de km² de esmeraldas vivas para deliciar a vista. De carro, pelas estradas que os ambientalistas tanto odeiam e de que todos, inclusive eles, necessitam, é como abrir os verdes mares mansos de minha terra.
De barco, no Amazonas, Juruá, Negro, Madeira, Purus, Roosevelt, Tapajós, Xingu, que abastecem 15% das águas dos oceanos, a Starlink nos ligando ao mundo quando a meta é se desligar do mundo. O máximo de tecnologia que a gente quer ali são as pálpebras para dormir no leito do rio, indicar a vitória do sono sobre a apreciação dos peixes, das correntezas, do pôr do sol inefável a anteceder o luar igualmente duplo, o dos pássaros e o dos botos.
Alguns governos e ONGs estrangeiras e nacionais supõem que desprezamos essa bênção. Que azulejaremos a Amazônia só para que o visitante não a belisque. Que desejamos destruí-la. Ou seja, somos idiotas do ponto de vista econômico e ingratos com Deus. A cada ano, essa turma se reúne na Conferência das Partes, a COP, o lado visível de um órgão estranhíssimo cuja sigla em inglês é UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima).
Em novembro, de 10 a 21, haverá em Belém, no Pará, a 30ª edição. A 1ª foi em Berlim, em 1995, e a partir de então rodou o globo. Logo na 3ª, no Japão, elaborou-se o famoso Protocolo de Kyoto prometendo reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
França, Japão, Alemanha e Itália, aos quais as demais nações se uniram para libertar e reconstruir durante e depois da Segunda Guerra Mundial (139-1945), são entusiastas desses conclaves, arrumando para os outros tarefas que eles mesmos não cumprem.
Os Estados Unidos, que salvaram (junto com a Inglaterra de Winston Churchill) tais Estados do nazismo e do comunismo, são considerados vilões porque abominam lacração como o Protocolo de Kyoto. Frise-se: não foi um presidente republicano, tipo Donald Trump, xingado pelas ONGs, que dificilmente virá à COP30. Pular fora coube ao democrata Bill Clinton, que, com sua mulher, Hillary Clinton, forma o casal queridinho dos copistas.
Como os norte-americanos protegem sua indústria, os modinhas viraram os berros na direção do Brasil, especialmente para o — vejam só! — pum das vacas. Empesteiam o ar com automóveis e aeronaves e a culpada pelos gases é a pecuária, quer dizer, as vacas. Bifes e laticínios consumidos por esses “degenerados” nascem nas gôndolas dos empórios. Nenhum vai andando ou pedalando de sua casa à COP, mas queimando combustíveis fósseis.
O blábláblá anual se equipara a cantiga de grilo, não agrada e não acaba. Houve três na Alemanha (que conserva 33% de florestas), três na Polônia (38%), um na Holanda (8%), um na Itália (35%), dois na Argentina (10%). Todos menores que o Brasil em área e ainda menos em mata preservada (60%). E onde autoridades e entidades internacionais vêm bater bumbo?

Confira 3 detalhes cruciais
1
Dados europeus enganosos — os percentuais europeus consideram até aos plantios de pinheiros, em substituição à vegetação nativa, malandragem estatística comparável a inflar os índices de nossos biomas com eucaliptos no Cerrado;
2
Maiores poluidores — este jornal mostrou, com dados do Global Carbon Project, os maiores poluidores desde a Revolução Industrial, em 1850, e o Brasil fica atrás de Coreia do Sul, Irã e Austrália;
3
Onde tem poluição, não tem COP — no mesmo levantamento, os quatro maiores poluidores: EUA (emitem 23 vezes mais gás carbônico que o Brasil), China (14 vezes), Rússia (7 vezes) e Índia (3 vezes). Pode ser coincidência, porém, em nenhum deles houve COP.
Não compõe a pauta da 30ª conferência devolver às antigas colônias as riquezas tomadas pelos europeus, barulhentos por cotas e reparações no território de outrem, silenciosos embolsando os bens expropriados.
Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Portugal e Inglaterra fingem que nada levaram dos demais continentes.
O Japão não move um músculo para entregar o que tirou da China. E são rapidíssimos para organizar farras na pátria alheia, regurgitando exigências.
O negócio é dar despesa para quem está com as finanças a sofrer refluxo de más notícias.
“Um aluguel milionário por menos de duas semanas? Em Belém, imóveis chegam a custar R$ 3 milhões no Airbnb durante a COP30”, publicou o jornal “Folha de S. Paulo”.
“Tenho cobrado com insistência para que nós possamos, em vez de ficarmos numa agenda de se justificar, apresentar as soluções que existem e que foram planejadas e construídas”, disse Helder Barbalho, governador do Pará, numa entrevista ao portal do “Poder360”.
Locação diária de R$ 200 mil? Óbvio, a conta vai ser quitada pelos cofres públicos.
O governo de São Paulo vai despoluir 1.100 km do Rio Tietê com R$ 5,6 bilhões. A COP30 deve custar o triplo sem limpar sequer 1 metro de córrego. R$ 7,2 bilhões em obras contrariando o propósito original, impermeabilização para fazer isso, aterro para erguer aquilo. Não é culpa do governador Barbalho, mas do modelo de eventos da turma do fumacê, que adora drenagem, mas de verbas oficiais.
Os estrangeiros são bem-vindos à maravilhosa Amazônia. Tragam suas indústrias. Venham a turismo. Promovam aqui os seus negócios. Invistam. Se quiserem ser úteis à floresta, enviem na moeda local o equivalente ao que gastam com furdúncios tipo a COP. Paguem pelas árvores que carregaram daqui ou derrubaram aí, pois para o planeta respirar conservamos de pé os verdes mares que verão quando se deslocarem a Belém. Será a melhor parte da viagem.
Ideia de José Eli da Veiga pra COP não se tornar um fiasco
O presidente reflete sobre o passado enquanto caminha por Brasília, rodeado por símbolos do poder e da política... é o outono do patriarca que escreve ao Poste mas não ao coronel
Organizações drenam recursos públicos enquanto impedem produção e desenvolvimento na Amazônia
Enquanto Lula tergiversa, o Ibama decide o que o país pode ou não explorar e atrasa o desenvolvimento
O governador distrital reforça a segurança com integração, preparo e ações sociais, reduzindo a criminalidade
No centenário de sua visita, o gênio alemão encontra um Brasil onde o tempo passa, mas os vícios de poder se repetem
Gestão está de tal maneira desastrosa que a mendicância é autêntica
Abril de 80 anos atrás colocou o Brasil na história dos fortes, dos vencedores, dos que fazem a cobra fumar. No mês seguinte, a Alemanha capitularia, acabando na Europa a 2ª Guerra Mundial, que continuaria na Ásia até o Japão se render, em agosto. Fiquei próximo do embate, com delay de década e meia, dentro de casa, ainda na infância. Tinha um parente queridíssimo, Tio Laurindo, marido de uma familiar da minha mãe, com quem a meninada adorava conversar. Na verdade, entrevistar. A gente o enchia de perguntas e ele, pacientemente, respondia com detalhes sobre sua participação como pracinha da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, para livrar a Itália do nazifascismo. Era minucioso, falava devagar e pedíamos para repetir, de tão saborosas as narrativas.
Depois de conquistarem em fevereiro o Monte Castelo e La Serra Cota, e em março Castelnuovo, logo mais, em 9 de abril de 1945, tio Laurindo e seus colegas despedaçaram as linhas alemãs defensoras do que ainda restava do eixo na terra do já derrubado Benito Mussolini. Era a operação Encore, que uma semana depois chegaria ao apogeu com nossos conterrâneos quebrando outras duas etapas da contenção nazista e libertando Montese, cidade vizinha de Bolonha e Modena.
A gratidão daquelas pessoas foi tamanha que todo abril realizam a “Festa ela liberazione”, quando são gravados os vídeos de tanto sucesso no YouTube com estudantes locais cantando em português o hino da FEB. Enchem o peito no refrão:
“Nossa vitória final
Que é mira do meu fuzil
A ração do meu bornal
A água do meu cantil
As asas do meu ideal
A glória do meu Brasil”.
Tio Laurindo nos ensinou a letra e o ritmo da Canção do Expedicionário. Os italianinhos modernos vencem a molecada do meu tempo no quesito entusiasmo, até porque eles aprendem na escola sobre o heroísmo que aqui nos chega em forma de pilhéria. Se não fosse o próprio Tio Laurindo, essa bela página do Brasil com seus feitos passaria em branco para as crianças do meu bairro.
No livro “História oral do Exército na Segunda Guerra Mundial”, o general-de-brigada Thorio Benedro de Souza Lima reclama por seu batalhão, que entre outras proezas libertou Montese, ter sido apelidado de “Laurindo”:
“Essa expressão ‘Laurindo’, que foi música de carnaval, tornou-se uma denominação pejorativa”.
Entre 1934 e 1945, 9 sambas dos maiores compositores citavam Laurindo. Qual Laurindo? Era fictício, o que a imaginação mandasse, como nessa sequência parecida com os desafios de cordel:
Noel Rosa e Hervê Cordovil, em Triste cuíca, gravada por Aracy de Almeida em 1934: “Parecia um boi mugindo/ Aquela triste cuíca/ Tocada pelo Laurindo/ O gostoso da Zizica”.
Geraldo Augusto e João Antônio Pessanha, em Sem cuíca não há samba, cantada por Isaura Garcia, 1942: “Todo mundo cantava sorrindo/ Quando ouvia a cuíca na mão do Laurindo mugindo”.
Herivelto Martins com o Trio de Ouro, Laurindo, 1942: “Laurindo sobe o morro gritando/ Não acabou a Praça Onze, não acabou.”
Em 1944, Ari Monteiro, Arnaldo Passos e Newton Teixeira responderam no feminino, Laurinda: “Depois que a Praça Onze se acabou/ Você nunca mais sambou”.
Outro de Herivelto, mas com Príncipe Pretinho, Quem vem descendo, cantada pelo Trio de Ouro, 1943: “A caravana do Laurindo/ O lamento a gente ouvindo, não pode calar/ Há no seu canto a tristeza/ De lendária beleza que o tempo guardou/ Tristeza que vive num bronze/ Que a sambar na Praça Onze Laurindo ganhou”.
Haroldo Lobo, Jorge de Castro e Wilson Batista saíram-se em 1943 com Lá vem Mangueira! cantada por Déo: “Com harmonia, lá vem Mangueira!/ Vem Laurindo na frente, da bateria/ Perguntei: Conceição, o que aconteceu?/ Laurindo foi pro front, esse ano não desceu”.
O poema seguinte revelou no título a patente, Cabo Laurindo, de Wilson Batista e Haroldo Lobo, com Jorge Veiga, em 1945, já no pós-guerra: “Laurindo voltou coberto de glória,/ Trazendo garboso no peito a Cruz da Vitória./ Oi! Salgueiro, Mangueira, Estácio, Matriz estão agindo/ Para homenagear o bravo cabo Laurindo!/ As duas divisas que ele ganhou, mereceu./ Conheço os princípios que Laurindo sempre defendeu./ Amigo da verdade, defensor da igualdade./ Dizem que lá no morro vai haver transformação. Camarada Laurindo, estamos à sua disposição!”
O carrossel de temas retratou a mágoa do general. Reuniu as várias estrofes dos diversos autores como se fossem apenas um poema e concluiu que recebeu o apelido zombando de uma manobra planejada por ele e corretamente executada por milhares de Laurindos iguais a meu tio ao descerem os Apeninos. Para ele, havia uma relação com a descida de algum morro no Rio de Janeiro. Seguiram-se outros belos sambas mencionando Laurindo, todos exaltando as vitórias de nossos bravos: o Brasil teve a única tropa da 2ª Guerra que venceu uma divisão inteira de nazistas, com mais de 20 mil prisioneiros.
Graças aos sambas e aos batalhões que libertaram cidades mais velhas que o Brasil, o número de bebês batizados de Laurindo passou de 1.644 em 1930 para 2.570 em 1940 e 2.809 em 1950. Ou seja, meu tio estava na moda. Pior aprontaram as autoridades, que simplesmente se esqueceram de nossos heróis. Nos tempos de colégio, passávamos o 1º semestre nos preparando para os desfiles de 7 de Setembro. Encerradas as férias de julho, tínhamos 5 semanas para treinar as coreografias e fazer as vestimentas.
Os meninos sonhavam chegar ao ginásio, atualmente 2ª fase do fundamental, para ter a chance de se mostrar. Os do 1º ao 3º ano iam de short; do 4º ano, de calça. E o melhor: quanto mais evoluído, mais perto dos pracinhas, que abriam o desfile. Meu grande orgulho era ver Tio Laurindo todo garboso com seu uniforme. Excelente músico, ele tocava todos os instrumentos, TODOS, com um detalhe: dos 25.834 pracinhas, 467 morreram em combate, 2.700 voltaram feridos ou mutilados, milhares sofreriam com problemas advindos da guerra. Tio Laurindo retornou são e salvo, mas tinha o hobby de pescar com bomba, uma explodiu em sua mão direita, restou o toco de braço, batia continência com uma tosca prótese de plástico. E a multidão o aplaudia, agradecida. Porém, até a comemoração da Independência rareou. Os heróis que resistem 8 décadas depois devem estar envergonhados do país pelo qual arriscaram suas vidas e o representarem tão bem.
Vivi um misto de alegria incontida de estar com uma estrela da minha infância e poder desabafar com quem domina o assunto

