Entenda por que fiz a opção de votar em Lula da Silva no dia 4 de outubro
01 outubro 2026 às 10h21

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Roberson Guimarães
Hoje à tarde atendi uma paciente da cidade de Jaraguá (GO). Ela veio encaminhada pela ginecologista para avaliação de uma alteração na mamografia classificada como suspeita para câncer de mama. Foi a primeira consulta dela comigo e após explicar quais serão os procedimentos necessários ela me perguntou se podia perguntar algo “pessoal e íntimo”. Eu concordei e ela disse que antes da consulta foi pesquisar a meu respeito e viu algumas publicações do Instagram nas quais me declarava eleitor de Lula. Ela me disse que ficou surpresa e que não conhecia nenhum médico que votasse no Lula.
Aí ela fez a pergunta que a inquietava: — Por que alguém na sua posição defende o voto em Lula?
Minha resposta foi mais ou menos assim:
Sua pergunta parte de uma ideia razoável: as pessoas geralmente votam pelo próprio interesse. Se eu fizesse isso, provavelmente meu voto seria outro. Eu ganho muito mais que a maioria dos brasileiros. Eu não preciso de governo como a grande maioria da população precisa.
Sete em cada dez brasileiros dependem só do SUS. Defender o SUS bem financiado é, para mim, parte do tratamento. É compromisso de vida
Mas eu não voto apenas por mim. Voto por quem mais precisa.
Sei quem é essa gente, porque fui um deles. Cresci em família modesta no interior de Goiás, me formei em universidade pública e toda minha formação se deu sem pagar por nada disso. Quem pagou minha formação foi o contribuinte, inclusive o mais pobre, que recolhe imposto no arroz e no feijão. Hipócrita eu seria se tivesse recebido tudo isso do Estado e, depois de chegar aqui, votasse pensando só na minha faixa de imposto de renda.

Falo de imposto porque o tema é concreto.
Lula isentou do imposto de renda quem ganha até 5 mil reais e, para compensar, criou uma cobrança mínima para quem ganha acima de 600 mil reais por ano, com alíquota gradual que chega a 10% a partir de 1,2 milhão. A regra mira a faixa em que estou. Se me alcançar, acho justo. Segundo o governo, os contribuintes atingidos pagavam uma alíquota efetiva média de apenas 2,54% sobre a renda, enquanto quem ganha até 7 mil reais por mês paga cerca de 849 reais de imposto, algo como 12% do salário.
No consultório, quem precisa tem cara bem definida. Sete em cada dez brasileiros dependem só do SUS, e é o SUS que paga o tratamento da maior parte das mulheres com câncer de mama no país: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, remédios de alto custo. A mulher que chega em mim com doença avançada muitas vezes chegou assim porque esperou pela mamografia, pela biópsia, pela consulta com o especialista. Meses de espera pioram o prognóstico. Defender o SUS bem financiado é, para mim, parte do tratamento. É compromisso de vida.
A FAO informa que o Brasil voltou a sair do mapa da fome, com menos de 2,5% da população em risco de subnutrição no triênio 2022-2024. Sim, fome é assunto de governo
Política pública muda a vida de quem precisa. O Brasil tinha saído do Mapa da Fome em 2014, voltou a ele no triênio 2018-2020 e, em julho de 2025, a FAO confirmou a nova saída, com menos de 2,5% da população em risco de subnutrição no triênio 2022-2024. Fome é assunto de governo sim senhor.

Pelo mesmo motivo defendo as cotas sociais e raciais. Eu tive uma escola que me levou até a universidade; as cotas existem para que isso deixe de depender de sorte e posição na pirâmide social. A desigualdade racial no Brasil é funda o bastante para que o critério de renda, sozinho, não dê conta dela. Por isso a importância das cotas raciais. E há um ganho que interessa à minha profissão: uma medicina que recruta em todas as classes tende a entender melhor a vida dos pacientes que atende.
Defendo a universidade pública porque sou produto dela e porque o país depende dela. Foi nela que me formei, foi na USP que aprendi o ofício que exerço há trinta anos. É nela também que o Brasil produz conhecimento: quinze universidades, todas públicas, respondem por mais de 60% da produção científica nacional, segundo levantamento feito para a Capes. Quando o governo anterior bloqueou verbas das federais em 2019, com o ministro da Educação falando em “balbúrdia” nos campi, o corte atingiu a base de quase tudo o que defendo aqui: a formação de médicos para o SUS, a pesquisa que orienta o tratamento das minhas pacientes, a tecnologia de que o país precisa para depender menos dos outros.
Defendo a ciência porque ela é a base do meu ofício. Cada conduta que proponho a uma paciente se apoia em ensaios clínicos, estatística e revisão por pares. Na pandemia, vi o governo bolsonaro (sim, em minúsculas) demorar a comprar vacinas e promover remédios sem eficácia comprovada.
Quem tem dinheiro atravessa qualquer regime. Quem não tem depende de instituições que funcionem, de imprensa livre, de eleições respeitadas, de universidade com liberdade de cátedra
Milhares de brasileiros morreram por isso. Poderiam estar por aí, votando no filho do genocida.
Democracia e liberdade seguem a mesma lógica. Quem tem dinheiro atravessa qualquer regime: contrata advogado, muda de cidade, manda os filhos estudar fora. Quem não tem depende de instituições que funcionem, de imprensa livre, de eleições respeitadas, de universidade com liberdade de cátedra. O 8 de janeiro mostrou que nada disso estava garantido. Com a soberania nacional é igual: acabamos de testemunhar um filho do ex-presidente ir aos Estados Unidos pedir sanções contra autoridades brasileiras, em meio a um tarifaço contra produtos do país.

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, cerca de 21 milhões de toneladas, 23% do total, atrás apenas da China. São elementos essenciais aos ímãs de turbinas eólicas, carros elétricos, eletrônicos e equipamentos de defesa. Mesmo assim, em 2024 o país produziu só 20 toneladas, menos de 1% da produção mundial, e vende sobretudo material bruto, comprando de volta compostos elaborados, muitos deles da China. A única operação comercial do país, a mina de Minaçu, teve sua venda concluída no início deste mês para uma mineradora americana apoiada pelo governo dos Estados Unidos; antes, já pertencia a fundos de investimento americanos e britânicos. Riqueza que sai do chão bruta e volta como ímã importado repete o velho ciclo do pau-brasil, do ouro e da borracha.
Lei sobre terras raras prevê o processamento dos minérios no Brasil. É o caminho certo, e ele passa pela universidade: a separação e o refino dependem de pesquisa da universidade pública
A lei sancionada em 16 de setembro, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras, prevê até R$ 7 bilhões para processar esses minerais no país e cria um conselho que pode barrar contratos com empresas ou governos estrangeiros quando a operação ameaçar a soberania ou o abastecimento interno. É o caminho certo, e ele passa de novo pela universidade: a separação e o refino, etapas que a China domina, dependem de pesquisa, e pesquisa, no Brasil, se faz sobretudo na universidade pública.

Sabe do acordo celebrado pelo bolsonarinho com Trump? Entregar tudo. Em troca de espelhinhos de vidro.
Mas a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão, balé. Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura no primeiro dia. Sem política pública, livro, cinema e teatro viram privilégio de renda, e quem nasceu longe dos grandes centros perde o acesso ao que poderia lhe mostrar outra vida.
Somando tudo, devolvo a pergunta: tenho outra escolha?
Roberson Guimarães, médico e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.


