Do protagonismo à irrelevância: urnas decretaram o fim do PSDB e pode-se falar no ocaso de Marconi?
07 outubro 2026 às 17h46

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Terceiro dia após as eleições de 2026. Mais de 158 milhões de brasileiros foram às urnas para escolher deputados federais, estaduais ou distritais, senadores, governadores e o presidente da República. Em 20 Estados, a eleição para o Executivo estadual terminou no primeiro turno. Em seis Estados, no Distrito Federal e na disputa pela Presidência da República, os eleitores terão que voltar às urnas no dia 25 de outubro.
Diversas mensagens dos eleitores foram dadas pelas urnas nestas eleições. Uma delas pode se referir à ruína em que se encontra o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Durante anos, o partido foi o principal antagonista do Partido dos Trabalhadores (PT), sobretudo no cenário nacional; no regional, nem tanto (exceto na disputa pela Prefeitura de Goiânia). Hoje, o que se vê é uma legenda que já não consegue demonstrar a mesma capilaridade política de antigamente. A debacle começou em 2018.
No âmbito estadual, vimos aquele que um dia foi um dos políticos mais competitivos de Goiás terminar a disputa pelo comando do Palácio das Esmeraldas em quarto lugar. Marconi Perillo recebeu 315.676 votos. Isso representa apenas 14,69% dos 2.148.218 votos recebidos por Daniel Vilela (MDB), reeleito governador e principal alvo das críticas do tucano durante a campanha.
Vale o registro de que sete candidatos a senador obtiveram mais votos do que Marconi Perillo. Entre eles figura Isaura Lemos, que conquistou 348.920 votos — exatos 33.244 votos a mais do que o ex-governador.
Marconi Perillo tentou construir uma base forte para viabilizar seu retorno, mas conseguiu aglutinar nomes que pouco somaram ao projeto eleitoral. A escolha de Jacqueline Zaiden para ser sua vice não chegou a fazer cócegas no eleitorado do agronegócio da região Sudoeste do Estado, que já estava fechado com Daniel Vilela. Diversos nomes importantes da região demonstravam grande indiferença quando se falava no nome dela e no impacto que poderia trazer para a campanha.
(Confira números devastadores: em Rio Verde, cidade de Jacqueline Zaiden, Daniel Vilela recebeu 55.409 votos — 50,99%. Marconi Perillo ficou com apenas 5.691 votos — 5,24%. Os números falam por si, acima de quaisquer interpretações.)
Quando se fala dos nomes escolhidos para compor as chapas de deputados estaduais e federais, pode-se dizer que Marconi, mais uma vez, deu um tiro no próprio pé. As grandes apostas, pelo grau de conhecimento, eram Vilmar Mariano, Gugu Nader e Gustavo Sebba para a Assembleia Legislativa e Flávia Teles, Henrique Arantes, Jeferson Rodrigues e Professor Alcides para a Câmara Federal.
Entretanto, Flávia Teles foi a primeira a anunciar a desistência, alegando motivos de saúde. Henrique Arantes não quis continuar na disputa diante da falta de viabilidade eleitoral. Jeferson Rodrigues disse que iria focar na família. O que chama atenção é que, logo após as desistências, os três apareceram apoiando outro nome da legenda: Felipe Cecílio. Este, inclusive, acabou ajudando a minar de vez o projeto do PSDB de eleger algum nome para a Câmara dos Deputados.
Aquele que dizia ser parceiro de Marconi Perillo se colocou como um lobo solitário em busca da vitória e trocou os pés pelas mãos ao bater de frente com o próprio partido. Felipe Cecílio criticou seu colega de legenda, Professor Alcides, trazendo à tona o inquérito relacionado à suspeita de estupro de vulnerável atribuída ao ex-deputado. Ao imaginar que a tática seria positiva eleitoralmente, Felipe Cecílio acabou contribuindo para enterrar de vez a possibilidade de levar o partido à Câmara dos Deputados. O fracasso foi retumbante para todo o grupo, principalmente para ele, que não conseguiu sequer 3,8 mil votos. Mas pelo menos, ao contrário do tucano-chefe, não “moitou” a história de Professor Alcides, a quem chamou de pedófilo.
Além disso, Marconi Perillo começou com uma campanha agressiva, aparentemente movida pelo ódio e, em determinados momentos, beirando um sentimento de vingança. Mesmo estando presente em praticamente todas as sabatinas e debates, o tucano parecia ter perdido sua capacidade de dialogar com diferentes setores da sociedade. Parecia que havia adotado o mau humor como ética política e de vida.
Lembro-me de presenciar uma participação de Marconi Perillo em um evento promovido pelo Fórum das Entidades Empresariais. O tucano criticou duramente a atuação do atual governo em relação à Reforma Tributária. Alegou que Goiás havia sido omisso e se rendido aos interesses de São Paulo, que, segundo ele, seria um dos maiores beneficiados com a perda dos benefícios fiscais a partir de 2032.
Entretanto, há certa ironia nessa crítica: o Estado paulista tem sido justamente sua morada nos períodos em que Marconi Perillo não obtém êxito eleitoral em Goiás. Ao fim, o tucano apresentou uma campanha morna, quase insossa, que já não demonstrava capacidade de empolgar como em outros tempos.
Com o resultado, o PSDB precisa de um milagre para voltar a ser competitivo como em seus tempos áureos. O partido que encerrou a disputa em 2026 sequer lembra a legenda que permaneceu 16 anos no poder em Goiás. Para um desfecho ainda mais melancólico, o PSDB não conseguiu eleger um deputado federal pelo Estado e conquistou apenas duas cadeiras na Assembleia Legislativa: José Machado e Gustavo Sebba. O partido foi o grande responsável pela derrota de, entre outros, Gugu Nader. Marconi Perillo puxou todo os candidatos para baixo. Enterrou-os — exceto os dois citados.
Mas o baixo desempenho do PSDB não foi exclusividade em Goiás. O presidente nacional do partido, Aécio Neves, terminou em sétimo lugar na disputa pelo Senado em Minas Gerais. O tucano não chegou a receber 1 milhão de votos no terceiro maior colégio eleitoral do Brasil. Para se ter uma ideia, o candidato do Novo conhecido como Superman, que terminou em sexto lugar, obteve cerca de 1 milhão de votos a mais que o neto de Tancredo Neves.
Outro caso em que o PSDB ainda tinha certa “relevância”, mas saiu derrotado, ocorreu no Ceará, com Ciro Gomes (que, por sinal, começou sua carreira política no PDS, o partido da ditadura). Ele, inclusive, foi pivô de uma das crises entre integrantes do clã Bolsonaro, com direito a exposed de todos os lados.
Michelle Bolsonaro acusou Flávio Bolsonaro de desrespeitá-la e praticamente não participou de sua campanha. Em seguida, deixou o PL Mulher e chegou a ameaçar sair da legenda. No centro da crise estava a articulação de uma aliança entre PL e PSDB no Ceará para apoiar a candidatura de Ciro Gomes.
A ex-primeira-dama era contrária à composição, sob o argumento de que Ciro Gomes havia atacado Jair Bolsonaro na campanha de 2022 e, portanto, não faria sentido buscar o apoio do partido quatro anos depois. Em resumo: Ciro Gomes perdeu, enquanto Michelle Bolsonaro saiu das urnas como senadora eleita pelo Distrito Federal. E mais: os candidatos a senador apoiados por Ciro Gomes foram derrotados.
Até o momento, o PSDB conseguiu eleger apenas um governador: JHC, em Alagoas. Na Câmara dos Deputados, viu sua bancada diminuir de 18 para 11 parlamentares. No Senado, apenas dois nomes foram eleitos: Marina JHC, por Alagoas, e Plínio Valério, pelo Amazonas.
O desempenho pífio demonstra que o partido não tem conseguido conversar nem com a velha nem com a nova geração de eleitores. Nas redes sociais, a presença tucana deixou de ser expressiva, espaço que tem sido amplamente aproveitado por partidos de extrema-direita, como o PL, que passa a contar com uma bancada de 28 senadores e 121 deputados federais. Foi a legenda que mais ganhou espaço e que assumiu o lugar antes ocupado pelo PSDB como principal antagonista do PT.
Os números mostram que o PSDB pode estar caminhando para o completo desaparecimento? Ainda é cedo para dizer. O que se pode afirmar é que o partido já não se mostra tão competitivo quanto antigamente, resultado também de decisões tomadas por velhos nomes da política que, muitas vezes, não parecem aceitar a evolução na forma de se comunicar com o eleitor.
A narrativa envelheceu, a história passou a ser sempre a mesma e os eleitores deixaram de comprar o modelo de país vendido pelo PSDB como ideal. Enquanto o eleitorado migrou para outras siglas, o partido permaneceu preso ao passado. E talvez esteja justamente aí o maior recado das urnas: o PSDB ainda tenta descobrir como voltar a ser protagonista em um cenário político que aprendeu a viver sem ele.
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