*Por Emídio Brasileiro, Educador, Jurista e Cientista da Religião

O Livro de Naum é o quadragésimo primeiro livro da Bíblia e o sétimo no grupo conhecido como Profetas Menores do Antigo Testamento. A expressão refere-se apenas ao tamanho dos livros. É conhecido como Naum, o elcosita. O nome “Naum” significa “consolação” ou “conforto”, e o conteúdo de sua mensagem realmente trouxe consolo para Judá, pois anunciava o fim do poder opressor da Assíria, que durante décadas havia afligido Israel e outras nações. Naum anunciou o juízo de Deus contra a Assíria como forma de consolo para Judá. É chamado de elcosita porque vinha de Elcos, local cuja identificação exata é incerta (há várias hipóteses entre Judá e a Galileia).

Tanto a tradição judaica quanto a cristã atribuem o livro ao próprio Naum, profeta do século VII a.C. que viveu provavelmente em Judá, após a destruição de Samaria (722 a.C.) e antes da queda de Nínive (612 a.C.).

O livro anuncia a queda de Nínive, capital do Império Assírio. Foi escrito antes de 612 a.C., ano da destruição de Nínive, e após a queda de Tebas (No-Amon), em 663 a.C. (Na 3:8).

O livro possui três capítulos e pode ser dividido em duas partes:

I – O anúncio do juízo (cap. 1);

II – Profecia detalhada contra Nínive (cap. 2).

Diferentemente de outros profetas, o livro não traz narrativas pessoais, mas sim oráculos poéticos contra Nínive. O texto é visto como obra unificada, sem fortes indícios de múltiplos autores.

A obra não contém exortações ao arrependimento, mas é uma profecia de juízo certo: o castigo de Deus contra Nínive, a mesma cidade que, no tempo de Jonas, havia se arrependido, mas que, posteriormente, voltou à violência e à arrogância.

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Emídio Brasileiro | Foto: Acervo pessoal

A justiça e o poder de Deus

O livro se inicia com um hino à justiça e ao poder de Deus. Naum descreve o Senhor como zeloso, vingador e cheio de força, mas também lento para a ira e grande em poder. Ele governa a natureza – domina tempestades, seca rios, faz tremer montes – e ninguém pode resistir à Sua indignação quando o mal se multiplica. O profeta ressalta que o Senhor é bom e refúgio no dia da angústia e protege os que n’Ele confiam.

Depois dessa introdução teológica, Naum anuncia o decreto divino contra Nínive. Deus decidiu aniquilar completamente o Império Assírio por causa de sua crueldade, traições e idolatria. A cidade que um dia foi instrumento do castigo de Deus para outras nações tornou-se alvo de Sua própria justiça.

A destruição de Nínive

O profeta descreve, em linguagem vívida e poética, a batalha e a destruição de Nínive: os invasores avançam com carros flamejantes, os guerreiros correm pelas ruas, os portões dos rios se abrem e o palácio se dissolve. O terror toma conta da cidade, seus habitantes fogem e seus tesouros são saqueados. Nínive, outrora orgulhosa e poderosa, é comparada a uma leoa que devorava nações, mas agora não há quem a console.

Naum enfatiza que tudo isso é obra do próprio Deus, que “vinga” o sangue inocente e põe fim à tirania. A destruição da Assíria é descrita como justiça retributiva: “Quem ouve a tua notícia bate palmas sobre ti, porque sobre quem não passou continuamente a tua maldade?” (Na 3:19).

O profeta também destaca a alegria e o alívio de Judá diante dessa notícia: o povo pode voltar a celebrar suas festas e cumprir seus votos, porque o inimigo que o oprimia foi eliminado. Assim, o juízo sobre Nínive significa, ao mesmo tempo, libertação e consolo para os fiéis.

A mensagem espiritual do livro

O Livro de Naum é uma poderosa proclamação da justiça divina na história. Ele mostra que, embora Deus possa usar impérios humanos como instrumentos temporários de Sua vontade, nenhum poder terreno está acima do julgamento divino. O mesmo Deus que um dia perdoou Nínive por meio da pregação de Jonas agora julga a cidade por ter voltado à corrupção e à violência.

O tom final do livro é de vitória moral e espiritual: a tirania cai, e a fé no Deus justo e soberano é reafirmada.

O Livro de Naum pode ser compreendido como uma reflexão a respeito da justiça divina em ação diante dos abusos e das violências persistentes. A queda de Nínive, descrita com vigor, não precisa ser vista como punição arbitrária, mas como consequência natural de ações coletivas em desacordo com a Lei de Justiça, Amor e Caridade. Os povos e indivíduos colhem, ao longo do tempo, os frutos de suas escolhas e passam por processos de reajuste que visam ao equilíbrio e ao aprendizado espiritual. Naum pode ser interpretado não como uma exaltação da destruição, mas como um alerta a respeito da responsabilidade moral e uma afirmação de que a justiça divina, embora firme, está sempre orientada para o progresso e a renovação do Espírito.

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