João Morgado

Conhecem a alegoria da caverna, de Platão? É uma alegoria de intenção filósofo-pedagógica, escrita pelo filósofo grego Platão, na obra intitulada “A República” (Livro VII). Pretendia exemplificar como o ser humano se pode libertar da condição de escuridão, que o aprisiona, por meio da luz da verdade. Em termos simples, a alegoria falava de pessoas que, acorrentadas viam nas paredes das cavernas, umas sombras provocadas pela luz de uma fogueira. Platão dizia que, para os prisioneiros, aquelas sombras eram a sua realidade, dado que não conheciam outra. E que, se um dos prisioneiros fosse libertado e forçado a olhar para o fogo e para os objetos que faziam as sombras, a luz iria ferir os seus olhos e tentaria voltar para a caverna, para aquilo a que estava acostumado, podia ver e acreditava.

Os holofotes da Comunicação Social também nos oferecem “sombras” que nós tomamos por verdades absolutas. Somos eternos “prisioneiros” e não nos damos conta.

Quando frequentei uma pós-graduação em Marketing Político, um professor da Universidade de Madrid, que trabalhara nos serviços de inteligência da NATO (já na reserva),disse-me algo que nunca esqueci: “A Coca-Cola é brincadeira. As grandes campanhas de marketing, começam, quando começam as notícias!” Depois enunciou vários acontecimentos internacionais em que ele tinha participado militarmente, e fez-nos compreender como todos tínhamos sido enganados. A invasão do Iraque, a guerra no Kosovo, e outros tantos acontecimentos… durante dois dias estive colado numa cadeira a ouvi-lo, incrédulo. Como um “prisioneiro libertado” em que a luz lhe feria os olhos, a luz do saber, do entender, do aperceber de que a realidade não eram as “sombras” que nos tinham sido oferecidas pela Comunicação Social.

Hoje, muitas pessoas continuam a não querer olhar para a luz, preferem continuar a acreditar nas versões oficiais. Preferem voltar para a “caverna” onde se sentem mais confortáveis. Querem acreditar que uns são os “bons” e os outros os “maus”. Parece-lhes mais aceitável o mundo. Como quando contamos contos de fadas às crianças, para eles poderem dormir sem medos.

Muita gente continua a ser uma criança grande, continuam a precisar que lhes contem histórias que os deixem dormir sem pesadelos. Não querem fazer perguntas com medo das respostas. Odeiam quem lhes dê uma versão diferente dessa história. Insultam quem se atreve a pensar, a dúvidar, a levantar questões.

Por mim, há muito que percebi, que a realidade do mundo não é a que nos contam. Não é, nem nunca foi. O mundo não é a preto e branco. E detesto tanto os ditadores como os hipócritas que nos contam histórias de fadas, os assassinos como os cobardes, os ditadores como os tiranos dissimulados de democratas. E detesto que, no fim, chegue sempre à velha frase: “The economy, stupid!”. É sempre a economia que movimenta o mundo, não os valores humanos, não o ambiente, não a democracia, não porra nenhuma de jeito, que não seja a economia. Somos tão estúpidos em acreditar no contrário. Já agora, acham que tudo o que se passa em torno da Ucrânia, é sobre o quê?

João Morgado – Escritor