Mayara é Mendanha

Mayara Mendanha, esposa de Gustavo Mendanha nomeada para cargo na prefeitura | Foto: Instagram

Aparecida de Goiânia tem cerca de 160 mil pessoas em extrema pobreza. Um número que diz muito e em plurais aspectos. No recorte do Ipea e do Observatório de Informações Municipais é um indicador que pode ​​nortear o desenvolvimento de políticas públicas que reduzam a miserabilidade no país. No aspecto regional, faz dela, proporcionalmente, a cidade com maior número de paupéries do Estado. Na configuração política, é o potencial de clientelismo e personalismo nas mãos de Mayara Mendanha, a mulher do ex-prefeito Gustavo Mendanha, que a despeito da renúncia do marido, continua secretária de Assistência Social da Prefeitura de Aparecida de Goiânia, com as bênçãos de Gustavo e do atual prefeito Vilmar Mariano. 

Não foi por acaso que Gustavo nomeou a própria mulher e, apesar dos desgastes à época, a manteve no cargo do primeiro escalão, com salário de quase R$ 13 mil. Como atestam a trajetória do ex-presidente Lula e as últimas investidas de Jair Bolsonaro em busca de aumento de popularidade, ter Mayara Mendanha na Secretaria de Assistência Social foi uma escolha eleitoralmente estratégica. E é também por isso que Mayara continua no cargo, mesmo depois de o marido deixar a cidade administrativa para tentar chegar ao Palácio das Esmeraldas, e às favas com quaisquer críticas que isso pode e deve gerar . 

Só no ano passado a então primeira-dama-secretária geriu um orçamento superior a R$ 26,2 milhões. Mas a questão não é meramente pecúnia. Coube e cabe a ela inserir a população vulnerável no mercado de trabalho; coordenar o restaurante popular; doar alimentos, cobertores, agasalhos e brinquedos; organizar casamentos comunitários; assistir moradores de rua, idosos e, entre outros, administrar o Bolsa Família. E esse é o ponto de valor real, as Blue Chips do projeto eleitoral de Gustavo Mendanha.

Quem não se lembra do que o Bolsa Família, o Fome Zero, o PAC, entre outros programas assistencialistas, representaram politicamente para Lula? Se olhar no retrovisor, fica bem mais fácil compreender do que estamos falando. Historicamente, no Brasil, a assistência social é instrumentalizada para criação de “currais eleitorais”, de sistemas de dependência direta entre beneficiários e políticos. E é exatamente por isso que Mayara, em desdenho à necessária reflexão moral que envolve a permanência dela, continua secretária na prefeitura de Aparecida. A desincompatibilização foi pela metade. Só não foi ao acaso. 

Com destreza e um prisma acurado, é possível entender que a presença de Mayara na cidade administrativa é mais importante para a disputa eleitoral de Mendanha do que qualquer outro secretário, por mais importante que seja a pasta. É mais relevante, até mesmo, do que o palanque feito pelo prefeito que sucedeu Gustavo. Palanque, aliás, em pleno uso. Tanto, que nesta quinta-feira, 7, estavam Vilmar Mariano e Mayara em agenda política de Mendanha na cidade de Rio Verde. Detalhe: em pleno horário de expediente.

Além do clientelismo e do personalismo político, que resistem à história brasileira e que são, por meio da Semas, ferramentas utilizadas em prol da candidatura de Gustavo, a presença dela na administração é definitiva no projeto eleitoral que o ex-prefeito de Aparecida encampa porque é o sobrenome Mendanha que assinará os benefícios que serão levados à população carente. E lembrem-se, estamos falando de quase 200 mil pessoas em uma cidade com 590 mil habitantes. É Gustavo que pode estar ao lado dela, como marido, em inaugurações, entregas de benefícios e agendas públicas. Com ela, ele tem discurso plausível para continuar a frequentar, sem pudores, a sede da prefeitura. Por ela, é que a imagem dele figurará à sombra dos milhões que chegarão aos aparecidenses este ano por meio do Fundo de Assistência Social e de outras ações da prefeitura.

Mayara não é dissociável de Gustavo. Sob o bastião do carisma e da formação de um casal que se apoia profissional e politicamente, a imagem pública dos dois estará cada vez mais vinculada, como exemplifica a agenda desta quinta-feira na Tecnoshow. E exatamente por isso a atuação dela amplifica a popularidade dele, independente da moralidade dos recursos utilizados com esse fim. Porém, a atual legislação eleitoral desconsidera todas essas e também quaisquer outras variáveis, inclusive o potencial que este tipo de articulação tem para desequilibrar e, portanto, fragilizar a democracia. Assim, legalmente ele precisou renunciar ao cargo para disputar o Governo de Goiás. Ela, não. 

A presença de Mayara na prefeitura, à revelia da renúncia do marido, tem respaldo legal. Nem mesmo a nomeação dela como funcionária da cidade administrativa aparecidense, por mais criticada que tenha sido, foge às leis. Por mais estranho que pareça, e é muito sui generis quando se olha o caso com a lupa do bom senso, o judiciário não entende como nepotismo nomear a própria mulher secretária da prefeitura que o marido dela administra. E não é só. 

Nem mesmo deixar o expediente, pelo qual ela é muito bem remunerada pelos cidadãos, para atuar em favor da candidatura do marido, é ilegal. Ela pode deixar de trabalhar pelos aparecidenses para estar em uma agenda política e ainda receber normalmente pelo dia que não trabalhou na prefeitura. O próprio Gustavo Mendanha fez isso nas muitas vezes em que foi à Brasília para articulações políticas-eleitorais em dia útil e não houve redução no valor do contracheque. No final das contas, o cidadão paga pelo trabalho do prefeito e do candidato. Lembra o jargão popular, o Brasil não é para amadores. E não é mesmo.

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