Se o PSDB já vinha se debatendo para tentar se salvar da lenta agonia política, a decadência do tucanato paulista foi acelerada na quarta, 19, com o anúncio da saída do partido do ex-governador de São Paulo, João Doria. Depois de 22 anos no ninho tucano, ele foi a principal liderança da sigla nos últimos seis anos, tanto como prefeito de São Paulo, como governador do Estado. Por isso sua saída da legenda deixa um grande vácuo no tucanato nacional. Na carta de desfiliação, Doria afirmou que sua inspiração sempre foi no passado histórico dos fundadores do partido, como Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e Fernando Henrique Cardoso.

A marca de Doria na prefeitura e no governo paulista foi de grande dinamismo na administração pública, mas sua principal contribuição para o País, sem dúvida, foi o início da vacinação contra a Covid-19 com a Coronavac.

A derrocada dos tucanos teve início ainda em 2014, quando o candidato derrotado Aécio Neves contestou a lisura das eleições que reconduziram Dilma Rousseff (PT) à presidência da República. Em 2018, o então candidato tucano Geraldo Alckmin não conseguiu nem chegar ao segundo turno, embora o partido tenha antagonizado com o PT todas as disputas presidenciais desde 1994, ano da eleição de Fernando Henrique Cardoso. A situação se agravou bastante quando, em maio, ao desconsiderar as prévias que haviam escolhido Doria para a disputa pelo Palácio do Planalto, a cúpula do PSDB pressionou o então governador paulista a abrir mão do projeto eleitoral e decidiu apoiar Simone Tebet (MDB) já no primeiro turno das eleições. Na época, a percepção dos dirigentes tucanos era a de que o ex-governador estava estagnado nas pesquisas e que, portanto, teria poucas chances na disputa.

O partido ainda tem a esperança de se manter respirando como social-democrata, ou seja, no centro do espectro político, caso consiga eleger Eduardo Leite no Rio Grande do Sul e Raquel Lyra em Pernambuco. Por outro lado, a maioria dos 13 deputados tucanos eleitos para a Câmara é formada por bolsonaristas, o que pode levar a uma inevitável guinada à direita.

Novo nome

Tucano histórico, o prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, defende mudanças profundas para que a sigla se mantenha relevante no atual cenário político – e essas mudanças, na avaliação dele, devem passar até mesmo pela escolha de um novo nome para a legenda. “O PSDB parou no tempo e não atualizou suas pautas”, diz. “O povo brasileiro mostrou que não há mais espaço para partidos de centro”.

Além do PSDB, outros partidos vêm encarando uma verdadeira luta pela sobrevivência. Como não atingiram a cláusula de barreira nas eleições, estudam eventuais fusões entre si para se manterem de pé. Sem conseguir cumprir a regra, os partidos perdem o direito ao fundo partidário e também ao horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio a partir das eleições municipais de 2024. A cláusula, em vigor desde 2017, foi pensada para reduzir a fragmentação partidária no Congresso pela asfixia de recursos. Ou os partidos nanicos se fundem a outros, ou a tendência é que se esvaziem até a extinção.

Sem dinheiro Ligado à outrora endinheirada Força Sindical, Paulinho da Força não conseguiu se reeleger. O Solidariedade se fundiu ao Pros para tentar sobreviver (Crédito: Alan Marques)

Seguem sem rumo certo o PTB de Roberto Jefferson, o PSC e o Patriota, já que Pros e Solidariedade oficializaram fusão na segunda,17. O Pros foi incorporado ao SD de Paulinho da Força, que não conseguiu se reeleger para a Câmara dos Deputados, embora tenha sido, durante mais de 20 anos uma importante força política do sindicalismo brasileiro. Paulinho presidiu a outrora endinheirada Força Sindical, cujos cofres foram esvaziados depois que a minirreforma trabalhista de Michel Temer (MDB), em 2017, pôs fim à obrigatoriedade do imposto sindical.

Por sua vez, o Novo descarta a possibilidade de fusão com outras legendas e seu presidente, Eduardo Ribeiro, diz não temer dificuldades que o partido pode passar a enfrentar. A legenda já tinha optado por não receber recursos do fundo partidário, e, segundo Ribeiro, já não dispunha de muito tempo de propaganda eleitoral. “Sempre foi mais difícil para o Novo fazer campanha, pois nunca tivemos muito tempo de TV e rádio”, diz o presidente da sigla. “De qualquer maneira, tivemos uma boa experiência com a coligação formada em Minas Gerais, que certamente vai servir de modelo para outras candidaturas majoritárias, e o tempo de TV e rádio que conta é o da coligação”.