Halley Margon

Da Espanha

“Quase todos serviam obedientemente à ‘propaganda de guerra’…”. — Stefan Zweig, em “El Mundo de ayer – Memorias de un europeo”

I

O pó da Faixa de Gaza

A frase do primeiro-ministro israelense proferida com a autoridade absoluta de um messias e a frieza de um policial ressoa como num pesadelo que assombra a consciência do mundo. “Este é apenas o começo. Este é apenas o começo.” O Estado de Israel não tem o hábito de deixar pela metade suas missões, e a história do país é uma farta demonstração disso.

Mas nenhuma até aqui teve a dimensão do que estamos testemunhando. No curto espaço de uma semana, os sete dias da criação do mundo, está literalmente fazendo virar pó o que há de sólido naquele território chamado Faixa de Gaza e onde se espremem mais de 2 milhões de palestinos.

II

Judeus: “Deixem Gaza viver”

Há um grande esforço das mídias da Europa e, naturalmente, dos Estados Unidos para normalizar as insuportáveis condições dos que vivem em Gaza desde que o exército israelense determinou o corte no abastecimento de água e energia e o deslocamento da população para o sul da faixa.

O gancho do momento é a permissão ou não para a entrada de 20 caminhões de abastecimento. A distração oferecida pelo presidente americano na recente visita ao sócio israelense lembra a frase do capitão Willard (Martin Sheen) no “Apocalipse Now: “Vocês cortam ao meio os corpos dos caras com rajadas de uma metralhadora e depois oferecem um band-aid”.

Benjamin Netanyahu e Rishi Sunak: caçada aos Hamas, como quer o primeiro-ministro inglês, se tornou uma caçada implacável e letal aos palestinos | Foto: Reprodução

Apesar disso, o que se viu nesses últimos dias foi que as manifestações contra o massacre israelense cresceram em número e em tamanho e, o mais importante, alcançaram o coração do império.

Do ponto de vista simbólico, a manifestação de um grupo de judeus na capital dos Estados Unidos é mais que relevante. Segundo noticiou o UOL, “ao menos 100 manifestantes judeus ocuparam um prédio do Capitólio, onde fica o Congresso dos Estados Unidos, para exigir que o governo americano pressione por um cessar-fogo…”.

A mesma notícia dizia que vestiam camisetas onde se podia ler “não em nosso nome” e levavam faixas exigindo que “deixem Gaza viver”. Idêntica relevância pode ser creditada a declarações como a do historiador Avi Shlaim, de 77 anos, um árabe judeu nascido de uma família judia de Bagdá, que numa longa entrevista ao jornal “El País” afirmou: as “potências ocidentais serão cúmplices do ataque de Israel a Gaza”.

Mas dizer que as vozes e manifestações opositoras estão crescendo e que são importantes não significa garantir que serão capazes de fazer cessar a cadeia de cumplicidade com o massacre. Significa apenas, e dadas as circunstâncias atuais isso já é muito, que nem tudo é indecência e servilismo na sociedade em que vivemos.

III

Lemkin, genocídio e Israel

Em menos de um mês, precisamente no dia 15 de novembro, se cumprirá 80 anos desde que um judeu polonês chamado Raphael Lemkin dava por terminado seu livro “O Domínio do Eixo na Europa Ocupada”.

Assim o relata Philippe Sands em Rua Leste-Oeste: “Lemkin agradecia a ajuda de um pequeno círculo de amigos, não fazia nenhuma dedicatória, e registrava a data de 15 de novembro de 1943”. O livro “não era precisamente uma leitura fácil”, escreve Sands, e no capítulo nove “Lemkin descartava a ‘barbárie’ e o ‘vandalismo’ e criava uma palavra nova, uma mescla do termo grego genos (tribo ou raça) e cídio (do latim cidere, matar). A esse capítulo deu o título de ‘Genocídio’”.

Ao contrário do que muitos poderiam pensar, a palavra é ainda muito jovem. Quando foi criada, em plena campanha de “destruição dos judeus europeus” (a expressão é também o título do clássico de Raul Hilberg), trazia quem sabe a esperança de que servisse como uma forma de interdito ou ao menos de inibição, que atuasse na consciência dos homens (supondo que ainda exista ou existisse uma tal entidade) como um tabu, uma linha sagrada que dissesse: não a partir daqui e, não, nunca mais.

Desgraçadamente não foi o que ocorreu. Quantas mais vezes teve que ser utilizada desde que Lemkin a cunhou? Quantas mais vezes daqui para diante será teremos que recorrer ao termo para descrever ações humanas?

É genocídio o massacre que o Estado de Israel está agora mesmo levando a cabo contra os palestinos da faixa de Gaza? É genocídio nos exatos termos em que Lemkin o definiu?

Sands conta que Lemkin teve várias dúvidas antes de finalmente optar pela palavra. Finalmente, sem mais explicações, se decidiu.

“A palavra escolhida representava uma reação contra o ‘gigantesco plano’ da Alemanha de realizar uma mudança permanente na biologia dos territórios ocupados. O ‘extermínio de nações e grupos étnicos’ requeria acabar com a intelectualidade, destruir a cultura e transferir a riqueza. Seriam despovoados territórios inteiros mediante a inanição ou outras formas de matanças massivas. (O itálico é por minha conta.) Lemkin descrevia as distintas etapas da destruição, com exemplos, como um promotor que apresenta sua acusação.”

Olaf Scholz e Benjamin Netanyahu: o chanceler da Alemanha poderia ser uma voz moderada, mas está altamente afinado com o primeiro-ministro de Israel | Foto: Reprodução

IV

Não é política. É castigo, é vingança

A arrogância (a hybris) do Estado de Israel ou em qualquer caso do governo israelense é de tal dimensão que ao seu primeiro-ministro e às forças armadas do país pouco importa que a desproporção da sua reação ao ataque do Hamas já tenha jogado na lata do lixo e na névoa do esquecimento a brutalidade, a repulsa e a empatia mundial provocada por ele.

Não se trata mais apenas de exterminar o Hamas. Não é mais política. É de represália que se trata, de castigo e de vingança.

De punição também contra a população de Gaza, porque na missão algo religiosa ou pelo menos mística na qual se veem investidos os que planejam e executam a reação contra o grupo terrorista, todos merecem e tem que ser castigados.

Ninguém mais fala daquele mais que desprezível ataque terrorista do dia 7 passado. E foi Israel o único responsável por, em pouco mais de uma semana, termos deixado para trás o ato infame que jamais deveria ser esquecido.

V

Subserviência da Europa aos EUA

A tibieza geral da Europa frente ao massacre (ou genocídio) que Israel está cometendo talvez encontre entre suas razões.

Primeiro, a qualidade das vítimas: os palestinos não são pretos, como os africanos que agora mesmo tentam fugir das guerras que dilaceram o continente africano, mas, como eles, e à diferença dos refugiados ucranianos, são pobres. E isso é importante.

Outra das possíveis explicações para o estrondoso silêncio europeu pode quem sabe ser encontrada na quase que eterna (pelo menos desde o final da Primeira Guerra Mundial) subserviência europeia à voz tonitruante de Washington.

VI

Social-democracia e o Departamento de Estado

São pelo menos curiosas as reações das forças políticas da Espanha ao ataque de Israel contra os palestinos.

Os da extrema-direita… lembram-se da extrema-direita, não é? Exatamente aqueles que nutrem simpatias, disfarçadas ou não, por gente como os que tentaram exterminar os judeus europeus, e, no caso espanhol, são herdeiros do franquismo.

Pois não é que são justamente esses nostálgicos do hitlerismo os que mais incondicionalmente se alinham com Benjamin Netanyahou e suas políticas contra a própria existência do povo palestino. Não será mero acaso. Logo a direita tradicional. Logo o suposto centro ou o que restou dele.

Quanto à social-democracia… bem, a social-democracia vai para onde o vento a mandar ir — ou o Departamento de Estado.

VII
Resistência ao genocídio em Gaza

A brutalidade dos acontecimentos, do ataque terrorista do Hamas e do terrorismo do Estado de Israel contra os palestinos, acabou por produzir como efeito secundário um amplo, acirrado e muitas vezes sério debate sobre o conflito.

Para além dessa profusão de análises havia, desde o primeiro momento, uma questão política e ética que se colocava acima de qualquer nuança, por mais importantes que sejam essas nuanças.

Do que se tratava, e muitos o compreenderam assim, era de criar uma vasta onda de resistência moral contra as ações de represália do governo do ultradireitista primeiro-ministro israelense.

O tamanho da mortandade e da destruição será amenizado pelo crescimento dessa onda de resistência? A considerar o que ocorreu durante a semana, para não nos referirmos às últimas cinco ou seis décadas da história na região, e a manchete publicada pelo “El País” (domingo, 22)m definitivamente não: Israel intensifica os bombardeios em Gaza e golpeia a Cisjordânia e o Líbano. Além disso, o suporte incondicional dos americanos é o mesmo de sempre. Toda a vã esperança que os mais ingênuos pudessem eventualmente ter de que a viagem de Biden a Israel tinha propósitos apaziguadores se desfez antes mesmo que o americano decolasse de volta ao conforto da Casa Branca.

Halley Margon, escritor, mora na Espanha.