Goiânia chorou ao perder o prefeito. Imagine Daniel, que perdeu o pai…

Restam somente os agradecimentos a Maguito pelo que fez pelos goianos, sobretudo os pobres, e a Deus pela satisfação pessoal de ter tido a oportunidade do perdão de Maguito ainda cheio de vida.

Nilson Gomes

Daqui, de longe, lia os boletins médicos acerca da saúde de Maguito Vilela imaginando a reação de seu filho Daniel.

Como Daniel se sentiu ao saber do diagnóstico do pai com Covid?

Certamente, pensou que seria um adversário a mais na campanha. Logo estaria bem, percorrendo as ruas, acenando a quem saía para vê-lo.

A internação em Goiânia deve ter trazido mais segurança que preocupação.

A ida para São Paulo também não seria motivo de temores, pois se manteria entre excelentes profissionais, cercado dos melhores equipamentos.

Daniel pode entender muito pouco ou quase nada de coronavírus, mas de Maguito ele entende tudo.

Gostaria demais de ter com meu pai a proximidade que Daniel teve com Maguito. Meu pai até quer, mas me falta sacrificar compromissos para estar com ele — nesse mundo invertido, preferimos sacrificar o convívio com quem a gente ama para gastar horas no celular.

Maguito não era qualquer pai: era o ídolo de Daniel.

Maguito amava futebol — Daniel, idem.

Daniel Vilela e Maguito Vilela | Foto: Reprodução

Maguito foi atleta profissional — Daniel, também (vestiu até a mais bela das camisas, a do Atlético Goianiense: já o xinguei e o aplaudi enquanto ostentava o manto rubro-negro).

Maguito saiu da política para o esporte se mantendo em ambos — mesma carreira de Daniel.

Maguito foi vereador em Jataí — Daniel foi vereador em Goiânia.

Maguito foi deputado estadual e federal — Daniel, também.

Por tudo isso, Maguito se orgulhava imensamente do filho.

O mais abençoado dos trabalhos de Maguito, o que fazia externando satisfação, era o de articular — e seu ápice como articulador foi na pré-candidatura de Daniel a governador.

Chegaram nele com todo tipo de proposta, mas nem prestava atenção se Daniel não estivesse na cabeça da chapa.

Dizia que Daniel era mais eficiente do que ele como parlamentar e seria mais eficaz como gestor — lembrando que Maguito deixou os cargos de governador e prefeito com aprovações superiores a 90%.

A relação do coordenador de campanha Maguito com o candidato Daniel foi digna de constar nos manuais de convivência em tempos de guerra, pois é o verdadeiro sinônimo de campanha eleitoral.

Em 2020, a guerra foi suja.

Não gosto nem de pensar em como Daniel ficava quando filhos da maldade duvidavam do estado de saúde de seu pai.

Maguito pelejando pela vida na UTI e pessoas produzindo ofensas para espalharem em redes sociais, aplicativos e entrevistas.

Inventaram até um significado para estelionato eleitoral: quando a vítima apanha inerte, intubada, ainda assim as pessoas a tornam vencedora e os algozes é que reclamam.

Dizia-se que Maguito liderava por não haver debate. Era o contrário. Ele era bom de debate.

Poderiam estar ali quem gritasse alto, quem atingisse a honra alheia, quem tivesse propósito estranho ao ambiente, mas nenhum que superasse Maguito.

Quem já debateu com os graúdos da política nacional em oito campanhas majoritárias ia afinar?

Mas os “críticos” acertavam em cheio num alvo: a paz do eleitorado de Maguito, tentado a crer nas maldades.

Ao lado de Rogério Cruz e outros companheiros, Daniel tinha de cuidar da rotina da campanha sem o principal em uma rotina de campanha: o candidato.

Por isso, quando Daniel voltava de São Paulo, era como um enviado trazendo luz para afastar as trevas das fakes.

Daniel portava esperança. E a gente se multiplicava na campanha.

Os maledicentes acham que Maguito vai perder? Vou ligar pra mais cem pessoas pedindo voto.

O banner apócrifo espinafra o vice? Vou passar zap pros meus amigos crentes dizendo que Goiânia terá um vice com a mesma religião sua.

No primeiro e segundo turnos, anunciaram várias vezes a morte de Maguito. Pense como deve ser para um filho ter de desmentir a morte do pai…

Após a eleição, queriam forçar um terceiro turno.

Pra cada oração que as pessoas de bem faziam suplicando a Deus pela cura de Maguito, bolavam uma informação falsa de que ele estava morrendo.

Sabe-se agora que Maguito esteve sempre como Daniel falava. E que piorou apenas nas 72 horas antes da partida.

Ouvi a entrevista de Daniel num jornal local. Alguns trechos, várias vezes. E me emocionei em todos.

Daniel e os irmãos ouvindo a médica anunciar que seu pai estava partindo…

Meu Jesus!

Daniel a afagar a mão e o rosto do pai, momentos antes de ele ir…

Meu Deus!

Maguito lutando com as últimas forças, adiando a viagem adiantada pelos especialistas à custa do amor por quem estava ficando…

Maguito subvertendo os aparelhos que despencavam junto com sua pressão, numa batalha inglória entre o que está ligado na tomada e quem está se desligando da vida…

Quanta força tem um homem de bem!

Mesmo não sendo filho, mesmo não tendo estando lá, mesmo não sendo de chorar, a gente tenta inutilmente segurar o pranto, pois o tom da narrativa de Daniel traz as imagens para a cabeça ainda revoltada com o chamado. E as lágrimas irrompem…

No início, silenciosas.

Depois, a revolta com os que duvidavam da doença.

Por fim, a quietude do perdão. Maguito perdoaria todos.

Daniel herdou tudo do comportamento do pai, até a capacidade de perdão.

A última homenagem a Maguito não é secar o rosto com as mãos que o afagaram e o apedrejaram — minha última homenagem a Maguito é perdoar quem tanto o ofendeu em Goiânia, a cidade que chorou a perda de seu líder.

Restam somente os agradecimentos a Maguito pelo que fez pelos goianos, sobretudo os pobres, e a Deus pela satisfação pessoal de ter tido a oportunidade do perdão de Maguito ainda cheio de vida.

Nilson Gomes é advogado e jornalista.

Uma resposta para “Goiânia chorou ao perder o prefeito. Imagine Daniel, que perdeu o pai…”

  1. Trabalhei em Aparecido deGoiania ,no mandato dele foi muito ótimo.

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