Crise gerada pela pandemia abre espaço para conciliações ao centro

Dos elogios de Lula a Doria às pesquisas de aprovação de Mandetta: o vírus que acabou sendo politizado por bolsonaristas, aparenta, até aqui, ter criado espaço para reduzir a polarização política  

A dualidade que tomou conta do jogo político não só no Brasil, como no mundo, pode perder força em razão da crise do novo coronavírus. Desde o início da pandemia, sem – ou com menos – personalização de inimigos de carne e osso, o mundo político, que chegava ao topo da escalada na montanha chamada polarização, dá sinais de abertura ao diálogo.

Com uma crise ainda não dimensionada e que muda dia-a-dia, seria, por óbvio, impreciso apontar um panorama para o futuro da política. Mas, até aqui, em território nacional, há mudanças de comportamento substanciais que demonstram a possibilidade da costura de um amplo campo de centro, esse desejado e que pode ser capaz de acabar com os extremos.

Embate insustentável

Apesar da politização da crise frente ao vírus, que, por exemplo, divide, à margem da ciência, os favoráveis e contrários à utilização de cloroquina no combate à Covid-19, as pesquisas de aprovação de governos e recorte de falas de figuras importante mostram que há demanda na sociedade para que se cesse o cenário tóxico de embates não construtivos dentro da política.

É pouco provável que a tese bolsonarista de que há exageros e que a crise gerada pela Covid-19 é um complô contra o presidente Jair Bolsonaro se mantenha de pé por muitas semanas. As apostas arriscadas do presidente até aqui foram se reconfigurando, passando do negacionismo sobre a transmissão do vírus no país à atual tese de que há tratamento eficaz contra a doença e, claro, devem seguir se modificando.

Essas mudanças de versões podem significar ao líder do Executivo, inclusive, perda de apoio na própria base fiel, caso chegue ao ponto de ser obrigado a assumir erros que resultem em mortes. Foi o que aconteceu em países como a Itália, que chegou a divulgar campanhas pela não paralisação das cidades e, um mês e meio depois, registra mais de 20 mil mortes.

Aprovação de Mandetta tem significado

Nas duas primeiras pesquisas realizadas pelo instituto Datafolha após o início da crise, os números revelam o crescimento de figuras como a do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e de governadores que trabalham desde o inicio da crise para mitigar a doença. O agora ex-ministro da Saúde registrou na última avaliação 76% de aprovação entre a população. E explico porque esse número pode significar tanto.

A pesquisa foi realizada entre os dias 1° e 3 de abril, exatamente o período que sucedeu os dois primeiros pronunciamentos em rede nacional do presidente Jair Bolsonaro. Enquanto, em seu primeiro discurso, atacou governadores e falou em encerramento da quarentena, no segundo usou tom interpretado como mais moderado. Apesar disso, um dia depois, o presidente fez novas investidas no embate, divulgou vídeo com relato falso sobre desabastecimento na Ceasa de Minas Gerais, alimentando a rede bolsonarista a seguir com carreatas e até protestos de rua contra o isolamento.

Já não havia dúvidas sobre a politização do coronavírus. À margem das críticas ao ministro, que já eram latentes na base do governo devido ao posicionamento conflitante com o presidente, a maior parte da população, entretanto, aprova Mandetta pelo tom moderado e técnico ao tratar da doença.

E aonde chego com isso? Não só os oposicionistas a Bolsonaro aprovam as posições reflexivas do médico; 76% de apoio significa, a grosso modo, que, dos 30% que Jair mantém de aprovação desde o ano passado, pelo menos um terço disseram aprovar o trabalho Mandetta. Nesta altura do campeonato não é possível dizer que se concorda com as teses do ministro e do presidente ao mesmo tempo, elas são antagônicas. Há nos 30% do presidente quem não está feliz com a forma que ele tenta conduzir a crise.

Acenos ao centro?

Além da publicação do ex-presidente Lula elogiando o trabalho do governador João Doria (PSDB), outras figuras, como o governador Ronaldo Caiado (DEM), também ilustram a possibilidade do crescimento de diálogo na política. O governador ganhou destaque nacional após romper com o presidente, ao qual era aliado desde as eleições de 2018, devido aos posicionamentos de Bolsonaro diante da crise. Na redes sociais de Caiado, apesar de haver comentários que o criticam, outros se destacam: pessoas que se identificam como não eleitores, mas que passaram a admirá-lo:

Futuro próximo

Não se trata, por hora, de mudanças de pensamentos e ações capazes de modificar  agendas econômicas e ou de costumes dos vários espectros. O que há exposto é a possibilidade de um diálogo produtivo entre os campos pensantes, isolando o extremismo. A crise como temos enfrentado tornou nítido que o embate pelo embate se mostra descartável, afetando a economia e, nesse caso, perigando afetar a própria saúde da população.

Essa abertura de diálogo pode promover crescimento do centro político, observando a necessidade de conciliar as diversas preocupações sociais. Essas conciliações, sim, podem afetar diversas pautas. É bem difícil que o fim do Sistema Único de Saúde (SUS), debatido pela extrema direita e que chegava a ganhar notoriedade, volte a ter espaço, por exemplo.

Na população já há sinalização de enjoo por posições extremadas, expostas pelas pesquisas, falas e, claro, pelas sonoras batidas de panelas em todo o país, registradas por duas semanas seguidas, sempre às 20 horas, contra Bolsonaro.

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