Cíntia Dias            
Especial para o Jornal Opção

O princípio do liberalismo é a noção de liberdade do indivíduo. De acordo com o dicionário, o liberalismo é uma corrente política e moral baseada na liberdade e igualdade perante a lei. Portanto, o liberal, racionalmente, preza pela liberdade de escolha do indivíduo (moral) e do mercado (sistema). Mas, o sujeito social é complexo: sem desenvolvimento cognitivo crítico, tende a agir irracionalmente com bandeiras as quais ele próprio não assume.

Crianças com o uniforme de suas escolas públicas nas ruas que acompanharam uma manifestação sobre opressão dos corpos, realizada em Goiânia na quinta-feira, 18, relataram que estavam lá porque “valia ponto” na nota final. Essa condição é a máxima da doutrinação violenta de jovens e crianças. Porém, a hipocrisia não se revela só na compra de números para a manifestação, ela se reforça no discurso. Ora, deputados eleitos com a pauta da moral e do bons costumes acompanham a manifestação “pela vida” em suas redes sociais, mas em qualquer outro lugar defendem a morte de jovens pobres e, principalmente, pretos.

Goiás lidera o ranking de mortes violentas de pessoas trans. Isso quer dizer que pessoas não têm liberdade de escolha sobre seu corpo. O Estado disputa ranking no alto também com morte de jovens pretos; ou seja, mais uma vez a periferia e a negritude não têm escolha de ser livres, são suspeitos desde que nascem. Este Estado, que assume a defesa da bala, tira diariamente a vida de mulheres como se elas não fossem gente – ou como a vida não fosse um direito das mulheres, da negritude e dos LGBTs.

Uma sociedade que não importa com as pessoas vivas ou mortas é uma sociedade doente. Quem defende o direito à vida matando pessoas avaliza uma sociedade hipócrita. E sujeitos que veneram a violência e opressão dos corpos de outros não são liberais. Estão muito mais próximos a assassinos cruéis e sem moral para caminhar entre crianças e adolescentes.

Ninguém é livre no liberalismo, porque as condições materiais nesta sociedade mercantilista definem o limite da liberdade de cada um. Ninguém é livre se não tem oportunidades. E, privado de conhecimento, o sujeito não é capaz de ser livre para escolher. Falácias que até aglutinam e elegem farsantes, mas que são desmontadas pelas estatísticas oficiais dos próprios “governos” liberais.

A única forma de mudar essa vida miserável é reapropriação da riqueza social. O sujeito histórico tem acesso à riqueza do seu trabalho e da produção das mercadorias que ele produz. Trabalho comunitário, cooperativo, educação humana, esses são princípios para garantir liberdade e direito de recuperação do poder de decisão sobre suas vidas e histórias. Sem mordaças e, com conhecimento, dias melhores virão.

Cíntia Dias é socióloga, feminista e presidente do PSOL em Goiás.