Herberth nasceu no dia da abolição da escravatura. Aprendi muito do que sei de amar bem as pessoas com ele

Marcelo Brice (direita), em brinde com o amigo e compadre Herberth Santos | Foto: Arquivo pessoal

Marcelo Brice*
Especial para o Jornal Opção

O Herberth é meu amigo máximo. Nos conhecemos há mais de 30 anos na República Autônoma do Itatiaia e somos amigos há 30 anos. Inclusive, raridade eu ter amigo com menos de década de relação.

Eu queria escrever uma crônica/ensaio em homenagem a nossa amizade e ao Herberth, mas não dei conta de selecionar todas as memórias. Pensei até num livro depois dessa vontade. E quando me veio o ensaio do Montaigne sobre amizade, a dele com o La Boétie, vi que essa nossa amizade merece e senti inveja de não ser um dos maiores escritores franceses.

Meu amigo é o meu pior conselheiro amoroso; sempre me dou mal quando considero a sugestão dele e sempre considero. Em contrapartida, é o meu melhor conselheiro para todo o resto. Sou o melhor conselheiro amoroso dele, e o pior para todo o resto; o que já explica nosso vínculo.

Apoiei irrestritamente a paixão dele pela Germana, sai fazendo “escada” para ele, que é tímido inicialmente. Fui seu bobo da corte, no sentido positivo dessa arte.

Aprendi muito do que sei de amar bem as pessoas com ele. O Herberth nasceu no dia da abolição da escravatura, que apesar da falsa liberdade e da idolatria à Princesa Isabel, foi fruto de muita luta; por isso o tenho como o Zumbi do meu Palmares, o Luiz Gama que tive a sorte de ter como amigo eterno.

Marcelo Brice (centro), com os amigos Herberth e Roberto Ruivo, ainda na adolescência | Foto: Reprodução

Numa conversa, lamentei que não tivesse filhos, e ele: “Pô, você é padrinho dos meninos; eles te adoram, fica só com a melhor parte”. Comecei dando um livro para o mais velho, que a mãe censurou a leitura porque era muito aterrorizante. O moleque leu e contou. Edgar Allan Poe.

Sempre fomos menos talentosos do que nossos irmãos imediatamente mais velhos. Também mais espertos. Para embalar o começo da noite na esquina da rua, ele aprendeu um grande repertório de no máximo 20 músicas, já que os irmãos estavam em outra e só davam uma palhinha às vezes. Quando acabava as 20, repetíamos.

Nossa amizade sempre foi saudável e nos tornaram melhores, eu acho, e porque o Herberth é um dos caras mais inteligentes e fortes e sensíveis da minha vida.

Cantávamos Raul e era assim:

“Baby, essa estrada / é comprida / Ela não tem saída / É hora de acordar / Pra ver o galo cantar / Pro mundo inteiro escutar”.

Com ele, ouvi e vimos, ouvirei e veremos os galos cantarem. Quando decidi a data de minha viagem à Lisboa, após a morte do meu irmão e tudo que isso movimentou, ele disse: “Vamos juntos. Vou com você, passar uns dias juntos e te ajudar a se estabelecer”. Cheguei em casa e contei, meu pai feliz disse: “É… que amizade!”; minha irmã logo emendou: “Hich’ts! Eles são irmãos. Minha mãe dizia: “Eles são irmãos de barrigas diferentes”.

Feliz aniversário, “nego”!

* Marcelo Brice é doutor em Sociologia pela UFG e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).