Um tributo literário aos 25 anos de “Nevermind”, clássico do Nirvana

Coletânea de contos estará disponível para download gratuito em 24 de setembro. Autoras participantes comentam sobre influências e inspirações para a criação de seus textos

Foto: Divulgação

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Yago Rodrigues Alvim

Moema Vilela se lembra de ter trocado, na sex­ta série, sua primeira fita cassete com uma colega da escola. Naqueles anos 90, quando não existiam mp3 e streaming, a maneira de se apresentar uma banda para um amigo era gravando uma fita com as melhores músicas — as chamadas “mixtapes”.

“Coloquei no rádio do carro da minha mãe na saída da escola e achei que não parecia com nada que eu conhecia. Aquilo que ela me deu começava com ‘Pais e filhos’, do Legião Urbana. Não lembro se foi a primeira vez que ouvi Nirvana, mas lembro, numa volta para a casa da escola, de ouvir ‘Nevermind’ em uma dessas fitas cassetes e pensar em como aquele som fazia muito sentido”, conta a escritora sul-mato-grossense. Esse é o primeiro sinal da grandeza de um álbum: o impacto transformador da primeira audição.

Lançado em setembro de 1991, “Nevermind”, segundo trabalho de estúdio do Nirvana, catapultou a banda norte-americana do anonimato ao mainstream em quatro meses. Embalado pelo single “Smells Like Teen Spirit”, o disco chegou ao topo das paradas da Billboard, chegando a vender 300 mil cópias por semana, nos Estados Unidos. Mais que a qualidade artística, havia uma potência nos riffs de guitarra e nas letras que contagiavam os jovens. Moema recorda-se da experiência:

“Era uma expressão que dava voz às necessidades gritantes que eu tinha por dentro e que não saíam por conta daquele laconismo adolescente bem específico de uma passagem ali no meio do meu ensino fundamental”.

Foi também nessa faixa etária que a catarinense Patrícia Galelli ouviu pela primeira vez o álbum e da mesma forma teve vontade de gritar. Apesar de ter quatro anos à época do lançamento, a escritora aponta a audição do primeiro single de “Nevermind”, 10 anos mais tarde, como um momento transformador num período de transformações.

“Comecei a ouvir Nirvana lá pelos 13 ou 14 anos, numa época em que tinha muito a gritar mas pouco a dizer. Ouvi ‘Smells Like Teen Spirit’ jogando basquete com os meninos e saquei na hora que queria gritar daquele jeito, embora nunca tenha conseguido gritar o suficiente. Acho que também me sentia ‘estúpida e contagiosa’, como na letra dessa música. Além disso, Kurt Cobain [vocalista, guitarrista e letrista] gritava bem e era possível controlar o volume dele nos momentos em que preferia o silêncio — isso causa simpatia a qualquer um.”

Está aí o segundo sinal da grandeza de um disco: ser produto de seu tempo, ao mesmo tempo em que é atemporal. 25 anos depois, o trabalho máximo do Nirvana, cuja formação ainda inclui o baixista Krist Novoselic e o baterista Dave Grohl, segue motivando edições comemorativas e relançamentos, num total de 30 milhões de cópias vendidas, em todo o mundo. Um clássico que perpassa gerações e chama atenção para além do conteúdo musical. Eleito um dos melhores álbuns de todos os tempos, “Nevermind” é um ícone da cultura pop, imantado por afeto e nostalgia na memória coletiva.

Prova mais recente é a coletânea “Cobain”, composta por contos inspirados nas faixas originais do disco e outras retiradas dos demais álbuns da banda, as chamadas “bonus track”. As narrativas são assinadas por um grupo de autores brasileiros, do qual fazem parte Moema Vilela, que escreve sobre a canção “Lithium”, e Patrícia Galelli, cujo conto “Dre­nar, transitivo direto” tem como ponto de partida “Drain You”.

“Minha ideia não foi escrever sobre a música, preenchendo os espaços fragmentados da letra com uma espécie de continuação da história. Propus mais uma história dentro da música, com elementos que ela me deu. A história que inventei tem um cunho intimista e fragmentado sobre o fim de um relacionamento entre dois homens. Basicamente um acerto de contas interno, íntimo, em que o corpo, assim como na música de Cobain, é um canal por onde drenar história, memória, desejo, dor, o amor e o ódio — sempre tão juntos”, revela a escritora catarinense.

E-book gratuito

De acordo com Sérgio Tavares, idealizador e um dos organizadores do projeto, ao lado de Alessandro Garcia e André Timm, a proposta é comemorar os 25 anos de “Never­mind” e prestar uma homenagem ao legado deixado por Cobain. Para tanto, a coletânea estará disponível no formato digital (e-book), para download gratuito, nas plataformas Android e IOS, e ainda em PDF. O livro estará disponível no dia 24 de setembro, data do lançamento.

Helena Terra, que se inspirou na canção “Love Buzz” para compor uma narrativa que ronda o ponto de vista do personagem, ressalta o valor do projeto em também promover um diálogo entre duas diferentes formas de expressão artística.

“Entre a música e a literatura, o diálogo não é tão recorrente como, por exemplo, é entre o cinema e a literatura. Na música, ele traz uma intimidade e uma vibração que me fascina. Esse tipo de iniciativa, além do prazer do desafio para quem escreve, aciona as lembranças e a imaginação dos leitores que compartilham dos mesmos gostos”, diz a escritora porto-alegrense.

A aproximação entre as formas artísticas também é valorizada pela paulista Marcia Barbieri: “Essa iniciativa é ótima porque coloca a arte musical e a escrita lado a lado, e acaba por diluir essas fronteiras invisíveis”. A escritora que conheceu o Nirvana aos 13 anos, por meio da irmã mais velha, com quem passava as tardes no quintal de casa, olhando os encartes e traduzindo as letras, inspirou-se na canção “Dive”, do disco “Inces­ticide”, para compor o conto “O cadáver”.

“Sempre tive uma relação bem íntima com a loucura e isso me aproximou de Cobain e, para criar o conto, deixei que essa voz meio maníaca se manifestasse”, relata Barbieri.

A coletânea conta, ao todo, com a participação de 25 escritores de diversas partes do país; alguns iniciantes e outros já reconhecidos, com livros traduzidos e distinções literárias de prestígio. A pernambucana Débora Ferraz, que venceu o prêmio Sesc e o São Paulo de Litera­tura com seu romance de estreia, o intitulado “Enquanto Deus Não Está Olhando”, observa que o tributo dá a medida da relevância do Nirvana não só como uma banda dos anos 90, mas como algo que permanece atual, válido; “que é honesto, perigoso e cosmopolita”.

“Particularmente, sempre me interesso pelas variadas relações que as pessoas têm com um mesmo objeto e quando este objeto é uma música — e as pessoas guardam relações muito íntimas com músicas —, então, isso é melhor ainda.”

Débora, que se recorda, na adolescência, das incontáveis tentativas de “tirar” “Come As You Are” na guitarra, teve como inspiração a música “School”, do primeiro álbum da banda. A autora relata que a ideia para seu conto surgiu quando estava hospedada a trabalho, num hotel.

“Primeiro pensei na música. Na forma dela. São só quatro versos e, basicamente, cada um deles se repete em looping, e a própria situação sobre a música já sugere uma repetição de algo: a experiência da liberdade tolhida (‘You’re in high school again/You’re nothing again’). Eu fiquei com aquilo na cabeça: a forma da música, a mesma frase se repetindo, as mesmas experiências se repetindo. Pensei no mote de uma conferencista que viaja muito, que quer deixar o hotel, mas que, por um motivo ou por outro, ela sempre acaba sendo mandada de volta para o quarto. A parte da violência grunge, por assim dizer, foi o detalhe que fez todo o resto se encaixar.”

­Memória afetiva

Sérgio Tavares explica que, além da qualidade do texto, um dos requisitos para a escolha do autor era ter uma ligação afetiva com a banda e transferir este sentimento para o conto. “Algo que sempre deixei claro era que o texto deveria trazer uma conexão com a música, fosse direta ou indireta. E cada autor, a sua maneira, cumpriu este pedido, transitando pelos mais variados gêneros e estilos. Para se ter uma ideia, a coletânea tem contos mais intimistas e insólitos e, ainda, aqueles que recorrem ao humor e ao nonsense”, declara o organizador.

A carioca Flávia Iriarte, cujo texto partiu da canção “Pennyroyal Tea”, defende a mesma opinião de que não existe terreno mais fértil para a reflexão e para o pensamento construtivo do que aquele que começa na partilha afetuosa de alguma coisa. “Acho muito legal que uma geração possa compartilhar suas memórias afetivas sobre determinado fato, momento ou artista. Sinto que a energia do projeto é semelhante àquela que encontramos numa mesa de bar entre amigos do colégio que sentam juntos para relembrar os velhos tempos”, considera.

A editora e escritora salienta que, além das letras e do ritmo, o imaginário suscitado por Cobain tem um apelo dramático-narrativo muito grande. “Tenho certeza de que, assim como aconteceu comigo e com os outros integrantes do projeto, suas canções e sua história contribuíram para a construção da subjetividade de milhares de jovens dessa geração”.

Do afeto que guarda das lembranças de ouvir aquelas fitas cassetes, na adolescência, Moema busca, na coletânea, uma maneira de se relacionar com as canções num desafio que ultrapassa a experiência da sonoridade.

“Nessa arte do diálogo, acho que sempre a literalidade é o melhor pedido, ao mesmo tempo que fico muito entusiasmada quando posso reconhecer a obra primeira de que o artista homenageador partiu. Numa antologia assim, os escritores realizam o diálogo de forma muito diferente entre si, o que para mim é muito interessante. Estou curiosa para ver como cada um cumpriu seu desafio”. Em 24 de setembro, todos os fãs do Nirvana terão essa oportunidade.

“Árvores do cerrado não dão sombra”, inspirado na canção “School”, por Débora Ferraz

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Não é a primeira vez que tento deixar esta cidade. Este hotel. A conferência foi cancelada por falta de público. Chove, o ar pesa e o hotel fica na beira da pista, perto do rio. Não tenho mais nada pra fazer aqui, mas é claro que isso não tem importância. Que horas são? Eu não saberia responder. Meu relógio ficou maluco com o fuso horário. E estamos sem rede e sem energia para que ele regularize sozinho. Tentei, claro, acertá-lo por conta própria. Não consegui. Eu poderia me basear na direção das sombras, mas está nublado. E quando falei nisso, em adivinhar a hora pela sombra das árvores, a moça da empresa, que me recebeu aqui e que mora aqui, riu de mim. Riu e falou: árvores do cerrado não dão sombra. Me senti tão idiota.

“Chá de poejo (ou) antropofagia”, inspirado na canção “Pennyroyal Tea”, por Flávia Iriarte

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Todo casal escolhe suas próprias metáforas (ou será que são elas que nos escolhem?). Eu sabia desde o início, você era o meu chá de poejo. Lindo e sóbrio como um rei no momento da ordem, como um leão satisfeito. Eu te consumiria ao meu modo e então fabricaria uma espécie de fim; você também me devoraria, ó sim, com a violência de um ódio cego, de um Pasolini raivoso, de uma serpente perfurando o ovo. E então cairíamos, cada um ao seu modo personalíssimo, pois não há nada mais íntimo e verdadeiro em um homem do que a sua maneira de morrer.

“Nick na sombra”, inspirado na canção “Lithium”, por Moema Vilela

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Quando pessoas que se amam desistem, não tem explicação. As explicações oferecidas para os curiosos são desleais, feridas de morte pela mentira. Os amigos de verdade sabem que não é possível explicar de todo, então eles ficam em silêncio em torno do nome de uma pessoa que partiu, de uma separação de inseparáveis. As pessoas que amaram são assim, meio assombradas. É o cansaço, a decepção, a esperança. É o incansável.

“Drenar, transitivo direto”, inspirado na canção “Drain You”, por Patrícia Galelli

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eu fecho os olhos, como se a insônia não fosse minha única relação com as pessoas, e a estrutura que aporta nosso tempo-que-crio se abre. a partir dessa brecha, vetorizo teu corpo com a ponta da língua; no correr desse escâner eu transformo cada pedaço de ti em representação numérica. decifro a volta do teu pescoço, o fim dos teus dedos, a curva da tua orelha, a tua nuca; um ponto atrás do outro, calculo com exatidão o teu prazer. a localização exata do nosso encontro. sempre fiz isso.

“O vazio dos espetáculos”, inspirado na canção “Love Buzz”, por Helena Terra

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Depois que o vazio e o vaso testemunharam o show, forçando o protagonista a entrar em cena para recolher os restos, tanto o suor quanto as retinas, revelaram os coadjuvantes e seus detalhes cada vez mais e mais irrevogáveis. E ele e o vaso e o vazio e os discos de vinil e a natureza dela e as toalhas e sua camisa e a solidão da verdade, todos misturados, caíram a seus pés, alvos brancos de outros leites derramados.

“O cadáver”, inspirado na canção “Dive”, por Marcia Barbieri

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Quando eu tinha uns oito anos, minha vó contava as histórias de nossos parentes loucos, a mim eles pareciam de uma árvore genealógica longínqua e inimaginável… Eu escutava passivo e deslumbrado, acreditava que havia certa genialidade incompreensível na loucura. Contava do seu irmão João que enterrava o rádio e no outro dia desenterrava, voltava a enterrar e depois desenterrar num movimento incessante e contínuo e foi a única coisa imprescindível que ele fez na vida. Depois completava dizendo que talvez aquela alienação tivesse sido herança do tio epiléptico.

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