Iris sai da política por não saber lidar com novos desafios impostos por ela

O anúncio da aposentadoria do líder peemedebista é o ocaso melancólico de um homem dos mais importantes na história de Goiás, mas que passou toda a vida pública sem saber se renovar

Iris Rezende, diante de filiados do PMDB em seu escritório: necessidade em ser aclamado permeou sua vida pública

Iris Rezende, diante de filiados do PMDB em seu escritório: necessidade em ser aclamado permeou sua vida pública | Foto: Rodrigo Estrela

Foi na sexta-feira, dia 1º de julho, em uma palestra no Fórum Goiânia 2020, organizado pelo publicitário Marcus Vinicius Queiroz. A 8ª tinha como tema “Discutindo o Espaço Público” e uma voz bastante conhecida fez ecoar um discurso igualmente já bem assimilado pelos presentes àquela sala de cinema. “Não adianta planejamento se o administrador não tem pulso forte. O povo quer alguém que governe a cidade batendo a mão na mesa.”

Sua fala era uma resposta à intervenção anterior, da urbanista Maria Ester de Souza, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) e professora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Momentos antes, ela havia pontuado a necessidade de um planejamento que contemplasse o direito de uma mesma cidade “para todos” e não uma cidade para a periferia e outra para os condomínios fechados. Uma crítica bem direta, embora sutil, aos prefeitos da capital, incluindo aquele que falaria depois, que não se esforçaram para reverter a extrema desigualdade social de Goiânia.

A provocação foi perfeitamente entendida assim dessa forma por Iris Rezende, o dono daquela voz, tão familiar nas eleições goianas e, principalmente, as últimas da capital. Em 2008, no auge de sua popularidade como prefeito e já então candidato natural à reeleição — quando venceria folgadamente no primeiro turno, passando como um trator sobre seus adversários —, ele se recusara a engolir um dado bastante desfavorável a seu estilo cheio de coisas boas a vender sobre si mesmo: um relatório do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), baseado no índice Gini, coeficiente mais utilizado pelos economistas para mensurar diferenças entre ricos e pobres, apontava Goiânia como uma das cidades com maior desigualdade social em todo o mundo. Para o peemedebista aquilo era uma “piada de mau gosto”. “Isso foi uma gafe. Desafio a ONU a conhecer Goiânia, uma cidade sem favelas e que tem ótima qualidade de vida”, respondeu à época.

Não ter favelas não significa necessariamente não ter uma grave desigualdade social, a qual se reflete, por exemplo, nos índices de violência, que na cidade subiram assustadoramente na última década. Mas esse sempre foi Iris Rezende como político: um simplificador (minimizador?) de problemas, para o bem e para o mal. O mesmo Iris que, na quarta-feira, 6, anunciou sua aposentadoria da vida pública foi quase o mesmo durante toda a sua trajetória por ela. A política é a arte do possível, como disse Otto von Bismarck, o “Chanceler de Ferro” unificador da Alemanha, mas, a menos de um mês do fim do prazo para convenções, parece ser mesmo fato que se verá, depois de três pleitos municipais na capital goiana, o primeiro sem a interferência direta ou indireta do cacique do PMDB.

Tomando isso como verdade (muita gente acredita, conhecendo o personagem e, por isso mesmo, não sem razão, que ainda não seja o fim), é o ocaso melancólico de um homem dos mais importantes na história de Goiás, mas que passou toda a vida pública sem saber se renovar. Porém, em respeito à decisão tomada pelo ex-prefeito, este texto passa agora a usar o pretérito imperfeito para falar do político Iris, considerando sua carreira como algo do passado.

Iris não ganhou dos oposicionistas o ferino apelido de “denossauro” apenas como provocação gratuita, sem que isso fosse um discurso justificável. Ele teve, sim, chances de se reformular e encontrou o momento mais favorável a isso após alcançar a velha popularidade com sua segunda era à frente da Prefeitura de Goiânia, a partir da eleição de 2004. Ele havia sido derrotado epicamente pelo então “menino” Marconi Perillo (PSDB), em 1998, e foi novamente vencido na disputa de duas vagas no Senado ao tentar a reeleição quatro anos depois – perdendo para Demóstenes Torres (DEM) e Lúcia Vânia (PSDB). O mandato como prefeito foi a chance que ele teve de se repaginar, como político e também como cidadão.

Mas o homem é o lobo do homem, como sentenciou o dramaturgo romano Plauto em frase popularizada por Thomas Hobbes — e Iris foi o lobo de si mesmo. Praticou a mais genuína autossabotagem sem se dar conta da própria armadilha. Em um mundo cada vez mais conectado e que dispara informações pelos poros, ele resistia ao celular e às redes sociais; desqualificava as pesquisas que não lhes fossem favoráveis, acusando seus autores de estarem “trabalhando” para o adversário. No lugar das redes, preferia o contato direto com o “povo” – mas somente em campanha ou inauguração de obra; à análise dos dados das pesquisas preferia a crença de ser um predestinado por Deus ao poder. Talvez Iris não tenha sabido interpretar que a internet não substitui o corpo a corpo, mas o complementa; talvez não tenha sido iluminado para entender que, se a fé remove montanhas, a informação precisa ajuda a transportar os caminhões de terra. Iris sempre foi um gestor instintivo, o que funcionava para um outro Goiás e um outro Brasil, mas não podia ter nada de contemporâneo.

Aqui é inevitável a comparação a Marconi Perillo (PSDB). O governador do Estado é também o “tucano-chefe”, posição semelhante à ocupada por Iris em relação ao PMDB, com o diferencial importante de ocupar o poder. Nunca abriu mão da posição de liderar os caminhos de seu partido, desde que chegou ao comando do Estado, ainda jovem. Proativo, vive a política e dorme com ela, também. Vinte e quatro horas por dia, pensa em política. Envolve-se nos assuntos da cidade e do País, põe sua cara à mostra nas redes sociais e procura estar sempre acompanhando de perto todas as informações sobre do cenário local e nacional. Conhece cada dado de sua administração e, se preciso, o dispara imediatamente em uma entrevista ou conversa. Sabe interferir quando necessário e deixar o processo se desenrolar por si mesmo, quando convém ser assim.

Claro que o fato de estar sempre em um mandato desde antes de ser governador pela primeira vez o obriga a essa posição, mas a intensidade com que vive seu mundo é impressionante e causa admiração até mesmo em sua assessoria. Marconi como uma “máquina política” lhe seria uma boa definição.

E o que dizer de Iris Rezende? De uma posição, ele nunca abriu mão: a de se mostrar mais inacessível que os demais políticos. Enquanto outros procuram o holofote para aparecer, a estratégia dele era justamente a contrária. Achava que ficar longe do dia a dia lhe dava uma aura especial. Boa parte do tempo, se isolava em sua fazenda, totalmente incomunicável e, no máximo, na companhia de algum fiel escudeiro, como o ex-senador Mauro Miranda. Conseguir “falar” com Iris é um privilégio, seja como político, jornalista ou cidadão comum. Gosta de ser paparicado e de sair sempre como o “ungido” e “aclamado”. Uma foto recente, em particular, é literalmente a fotografia do personagem: Iris em cima da mesa de seu escritório, falando a correligionários como um messias prega a seus discípulos.

Essa é a diferença básica entre os dois maiores políticos de Goiás nos últimos 50 anos: enquanto Marconi Perillo procura estar presente, de alguma forma, nos eventos que o circundam, Iris Rezende adotava o afastamento das circunstâncias como tática, para aparecer ao fim como “a” solução. O tempo provou, para ele, que não foi a melhor escolha. Em seus três confrontos diretos com o governador (1998, 2010 e 2014), perdeu todos, mesmo quando o cenário não apontava muito favoravelmente ao tucano.

Justiça a ser feita, não há como negar a riqueza e a importância da carreira que Iris consolidou em 58 anos de dedicação à política, desde quando se tornou vereador em Goiânia pelo PTB, ainda nos anos 50. Foi deputado estadual e eleito prefeito da capital pela primeira vez em 1965, aos 31 anos – com uma idade inferior à que Marconi assumiria o Estado. Não fosse o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que o cassou em 1969, talvez tivesse sido um jovem governador, como seria Marconi três décadas depois. Mas só chegaria ao cargo em 1982, após a anistia e com votação esmagadora sobre Otávio Lage (PDS), ironicamente quem comandava Goiás quando ele foi retirado da Prefeitura. A partir daí, Iris foi o centro do poder regional até a derrocada de 1998. A volta, seis anos depois, reacendeu sua figura. Pena, para ele e para a política goiana, que ele não tenha sabido aproveitar essa nova chama, que agora se apaga.

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Bom dia, esse registro é de minha autoria. Favor inserir os créditos. Rodrigo Estrela.

A fotografia da matéria é de minha autoria. Peço por gentileza que seja inserido o devido crédito. (Rodrigo Estrela).

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