Euler de França Belém
Euler de França Belém

George W. Bush gostava mais de Lula da Silva que de Fernando Henrique Cardoso

Em dezembro de 2002, antes da posse na Presidência da República, Lula da Silva foi recebido pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, na Casa Branca.

“Sr. presidente, nesta cidade [Washington] há quem diga que uma pessoa como o sr. não pode fazer negócios com uma pessoa como eu. Hoje estamos reunidos aqui para mostrar-lhes que estão equivocados”, disse Bush a Lula.

O encontro, que deveria ter durado 30 minutos, prolongou-se por 45 minutos. “O motivo não foi o fato de Lula ser polixo, mas a química inesperada entre os novos colegas”, diz Matias Spektor.

Lula disse: “Presidente, eu tive de superar muitos preconceitos”. Bush, sorrindo, interrompeu-o: “Eu sou campeão dos preconceitos!”

Quando Bush se pôs a falar do Iraque, Lula contrapôs: “Eu entendo, presidente Bush. Mas minha guerra é outra. É a guerra contra a fome. Eu quero que cada brasileiro faça três refeições por dia”. Spektor diz que “era a deixa para Bush prestar apoio público ao Fome Zero, o que fez com convicção”.

Lula acrescentou: “A gente gostaria de continuar contando com o apoio de seu governo no sentido de tranquilizar as instituições financeiras”. Bush jogou duro: “Isso dependerá da política econômica que vocês vão adotar”.

Sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), Lula foi curto e seco: “Estou pronto para negociar com a mesma firmeza de vocês”. Rápido, Bush contrapôs: “Espero que com realismo também”.

“Os Estados Unidos precisam dar uma chance ao Brasil”, frisou Lula, “em tom sério e os olhos marejados”. “O futuro de meu país é brilhante. Nós só queremos construir nosso destino”, afirmou Lula.
Segundo Spektor, “Bush adorou o estilo emotivo”. “Eu gosto desse cara”, disse Bush para um assessor. “Realmente gosto desse cara. Não tem enganação: ele é aquilo que aparenta”, sublinhou o presidente americano.

Porém, numa conversa com assessores, chamados para avaliar o diálogo com Lula, Bush perguntou: “Vocês prestaram atenção quando ele me agradeceu pelo meu comportamento durante a campanha eleitoral brasileira. Não entendi o que foi aquilo”. A transcrição da fala do político brasileiro: “Presidente, eu queria agradecer ao sr. pelo seu comportamento exemplar durante nossa campanha e dizer o quanto isso significou para nós”. John Maisto, assessor de Bush para a América Latina, tentou explicar: “Presidente, existe no Brasil uma percepção de que o governo dos Estados Unidos jamais permitiria alguém como Lula chegar à Presidência.

Lula estava agradecendo o fato de o sr., um republicano, não ter dado declarações negativas a respeito da esquerda brasileira, nem declarações positivas a respeito do outro candidato”. Bush, “perplexo”, disse: “É inconcebível para mim que um político eleito com mais de 50 milhões de votos sinta a necessidade de agradecer a neutralidade do presidente dos Estados Unidos na disputa eleitoral. Como ele acha que eu poderia influir na eleição de outro país?” Anos depois, Lula procurou “corrigir” a suposta inocência de Bush: “Só se ele estava se esquecendo do papel dos embaixadores dele na América Latina, que davam palpite na Bolívia, Venezuela, Nicarágua, em todo lugar”. Bush fez mais um comentário na conversa com Maisto: “E aquela estrela vermelha? Você viu aquilo na lapela dele?” Maisto esclareceu: “É o emblema do partido”. “Eu sei que é o emblema do partido. Mas agora ele é o presidente do Brasil, não do partido!”, criticou o presidente americano.

Lula disse a Spektor que “foi uma reunião impactante. Bush — diferente do que algumas pessoas imaginavam — reagiu bem. Ele não fez aquilo que certamente uma parte da diplomacia pensava que ia fazer: ficar chateado porque o Brasil não atendia seus apelos. Eu queria passar para o Bush a mensagem de que nós queríamos ter uma relação estratégica com os Estados Unidos, mas era importante que eles começassem a nos enxergar com outro olhar. […] Ou seja, nós não somos mais a América Latina dos anos 1960, em que era guerrilha e revolução para tudo quanto é lado… Nós não somos anti-imperialistas, apenas queremos respeito”.

Entretanto, do encontro com Bush, Lula saiu satisfeito: “Tive uma excelente impressão. Volto ao Brasil convencido de que terei no presidente Bush um importante aliado nessa nova e decisiva etapa que se inaugura para a nação brasileira”. Para provar sua moderação, anunciou, numa reunião no National Press Club de Washington (“clube privado no qual circula a nata do jornalismo norte-americano”), que Antônio Palocci seria ministro da Fazenda e Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central. Wall Street aprovou na hora.

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