Afonso Lopes
Afonso Lopes

Popularidade de Iris pode ter sido ferida gravemente

A gravíssima crise financeira da Prefeitura de Goiânia, que resvala também em aspectos econômicos, leva prefeito a tomar medidas desgastantes

Crise financeira obriga o prefeito Iris Rezende a dispensar estagiários e mudar data de pagamento de servidores | Foto: Paulo José

O prefeito Iris Rezende é dono de uma enorme popularidade, conquistada ao longo de décadas de vida pública. Isso não é pouca coisa. Na maior parte das vezes, o que se percebe na política são fenômenos eleitorais efêmeros, que vencem uma ou duas vezes antes de desaparecerem completamente do principal cenário. Em Goiânia, especialmente, mas não só, Iris é um soberano em matéria de popularidade. Nas últimas quatro eleições, ele venceu três e foi o principal cabo eleitoral de Paulo Garcia na única disputa que não participou diretamente.

No último dia de janeiro, Iris pode ter assinado uma sentença contra a sua própria popularidade. Diante de uma crise financeira bastante grave, e com problemas estruturais na economia da Prefeitura, o prefeito assinou um decreto demitindo numa pancada só todos os estagiários da Prefeitura. É a segunda vez que Iris usa tal ferramenta administrativa no início de mandato. Em 1982, ao vencer a disputa para o governo do Estado, ele fez a mesma coisa, e demitiu todos os comissionados contratados na reta final do governo anterior, liderado por Ary Valadão. Ainda hoje isso gera desgastes para ele. Na época, ele justificou a medida dizendo que somente estava corrigindo uma distorção legal porque os demitidos teriam sido contratados pelo Estado durante o processo eleitoral.

Desta vez, porém, essa argumentação não vale. Estagiários são estudantes universitários que se esforçam no aprendizado e no trabalho diário. E recebem os menores rendimentos pagos pela administração. Via de regra, a maioria ganha pouco mais da metade de um salário mínimo, e cumprem meia jornada. Pode até existir um ou outro estagiário filho de famílias ricas, mas a esmagadora maioria é de classe média para baixo. Essa renda, embora pouca, representa uma ajuda e tanto para eles. E não pesa tanto assim no custo global da administração pública.

Não se conhece um único estagiário “marajá”, mas há notícias de que a Prefeitura de Goiânia, assim co­mo de resto ocorre em todas as instâncias da administração pública brasileira, mantém um seleto e caríssimo time de funcionários com alta ren­da. Maioria das vezes, são servidores de carreira, e tais rendimentos es­tão enquadrados dentro das normais legais. Não há o que se fazer. Já noutros casos, que vez ou outra ex­plodem no noticiário, alguns desses salários são anabolizados por portarias internas que ferem a legislação.

A demissão dos estagiários da Prefeitura certamente não vai corrigir os problemas financeiros atuais, gerados por inúmeros outros fatores, inclusive pelo inchaço da máquina pública que ocorreu ao longo de décadas. Iris e sua equipe de finanças apontam para um déficit mensal na casa dos 30 milhões de reais, além de um rombo em torno de 700 milhões na dívida flutuante vencida. É uma imensidão, sem a menor dúvida. Um quadro desesperador. O problema é que Iris, aparentemente e salvo melhor juízo, apontou num alvo e atingiu outro. Sobrou para os estagiários.

E como está o desempenho da máquina neste início de governo. Não está bem, é óbvio. Nem as equipes estão completas. Há coordenações sem coordenadores, funções sem responsáveis. Isso vai se ajeitar aos poucos, na medida exata que o dinheiro permitir. O esforço atual de desempenho se dá nas ruas, com operações tapa-buracos e alguma limpeza. Já é alguma coisa diante do quadro avassalador que existia especialmente no final do governo anterior, quando as dificuldades de caixa se fizeram perceber. Mas a situação nas questões básicas é mais abrangente e, ao mesmo tempo, tão ruim quanto era antes. Os postos de saúde são um retrato falado do caos. O serviço de recolhimento rotineiro do lixo doméstico não pegou ritmo. Vá lá que em um único mês, e sem dinheiro, é impossível resolver todas as questões problemáticas. A questão é que nessa órbita de dificuldades, os estagiários é que entraram na cena errada.

Haverá um custo político e eleitoral para Iris Rezende a adoção dessa medida? Claro que sim. Resta saber o tamanho desse estrago na sua imagem. A cúpula do governo sabe disso. Tanto é que amanheceu dia 1º de fevereiro com a bomba nas mãos, detonou e se recolheu imediatamente ao silêncio. Até hoje, por exemplo, não se mostrou quantos estagiários foram demitidos e nem quanto isso significou de economia mensal.

O assunto poderia ter repercutido mais intensamente na Câma­ra Municipal, mas o assunto acabou abafado por uma outra decisão: a mudança na data do pagamento dos servidores, que até en­tão recebiam dentro do mês trabalhado. Pelo novo calendário, es­sa liberação dos salários fica para o quinto dia útil, como estabelece a legislação. A polêmica, porém, ficou no ar: Jorge Kajuru disse na tribuna que ele e os demais vereadores receberam dia 25.

Somando tudo, são três medidas que não ajudam nada a imagem de Iris Rezende: demissão de estagiários, mudança na data de pagamento dos servidores e liberação da grana dos vereadores de forma privilegiada diante dos demais. É claro que a recuperação financeira da Prefeitura tende a desviar a atenção e até provocar esquecimento em relação a esses assuntos no futuro. Mas até que isso aconteça, Iris deve ficar bastante atento para evitar que essa imagem ruim deste momento se cristalize. Caso isso ocorra, o estrag­o será duradouro e de difícil mudança.

Deixe um comentário

wpDiscuz